MÃOS
"Estou em suas mãos" - disse-me. Confesso, não era isto
que buscava ouvir, pois frágeis as mãos e tortos os dedos que
deixam escoar aquilo que se permite pousar em suas palmas. Mas talvez seja este
o segredo destas mãos frágeis de dedos tortos, que não
seguram, mãos de vento. Sentir a carícia da pele como o sopro
da brisa no corpo, apenas, e fechar os olhos, e abrir os lábios num sorriso
de satisfação. É isto: as mãos que servem, que tocam,
que marcam sussurros de breve calor e depois abanam em despedida.
NO RIBEIRÃO SÃO PAULO...
... ontem, meninos corriam com suas redes entre o verde dos arrozais. Borboletas
no ar e em escuras caixas de sapatos, e aquele homem dos trocados que vendia
bandejas e quadros. Vez por mês, o homem das bandejas e dos quadros dispunha
seus trocados aos meninos do Ribeirão São Paulo... lindas borboletas
criadas e caçadas para o inútil brilho de algumas moedinhas.
... hoje, vinte anos depois, Fábio Fachini me conta que caçava
borboletas, umas, e criava, outras, em velhas caixas de sapato. O dinheiro?
Guardado na poupança e consumido pela inflação. Mais teria
ganhado se as tivesse visto brilhar suas muitas cores em meio à colheita
e corrido no rastro de suas asas como criança inocente, não como
empresário...
... seu filho dorme nos braços da mãe.
TARDE DE VERÃO
Desvela-me teus sonhos neste campo açoitado pelo sol e acarinhado pelo
vento. Desvela-me, pois te olho adormecida sobre meu colo; os lábios
ligeiramente abertos e o cabelo misturando-se à relva.
Confessa-me o que mal escondes sobre o sorriso largo e terno que amiúde
me entregas. O sorriso, nada mais! Ainda que te suplico sentir o calor do teu
corpo em minhas mãos, não mo permites.
Porque te rendes ao sono é hora de confessar. Desnudar-te diante deste
céu imenso que reverbera meus desejos - invejo Morfeu que te colhe e
te envolve e a quem te lanças sem temor.
Mas falam apenas os pássaros que rompem a dolência desta tarde
de verão tropical com seus trinados. Por isso arrastam-se meus desejos
para junto do riacho que corre nos limites do campo - a água massageando
as pedras - e ali se afogam.
NO CAMINHO DE GUARICANAS
No caminho de Guaricanas, onde a estrada margeia o rio e o carro sacoleja na
cadência dos buracos, as uvas embalam o olfato.
DE PONTA-CABEçA
Naquela hora da manhã, muito cedo, entrou na sala de aula com um mapa-múndi
enrolado sob as axilas. Olhou-nos, virou-se, e pendurou o mapa no quadro...
de ponta cabeça! Então era possível olhar o mundo de ponta-cabeça,
inverter a ordem das coisas? "Acaso existe lado de cima e lado de baixo
num globo?" - perguntou-nos em desafio. Não, claro que não,
salvo quando uns se querem sobrepor a outros, então sim há lados
muito bem definidos: os que pisam, os que são pisados.
Nunca esquecerei daquela aula da professora Maria Aparecida no Colégio
Pedro II. Talvez ela não o saiba, mas quando pôs o mundo de ponta-cabeça
pendurado naquele quadro negro num gesto tão despretensioso, acordou
o homem no menino.
Então aprendi como um pequeno gesto pode fazer toda a diferença.
ESPERANDO
Ao telefone, disse-me que dela havia desistido muito facilmente. Por isso a
lembrança daquele diálogo entre Alfredo e Totó no filme
"Cinema Paradiso" de Giuseppe Tornatore: aquele amante que deveria
esperar cem dias pela amada, parado, no mesmo lugar, e que abandonou o posto
quando faltava-lhe apenas um dia para que se cumprisse o prazo e recebesse em
seus braços a mulher que amava. Ocorreu-me à lembrança
o diálogo quando, queixando-se, acusou-me de desistência e lançou-me
aos ombros toda a culpa por não tomá-la. Ah, pois não sabe
que continuo esperando? Porém o tempo me tomou as palavras e me prostrou
mudo e ansioso pelo instante em que seus lábios descerrem os meus, e
que seu toque me devolva aos olhos o brilho que esqueceram no momento em que
meu corpo quedou-se em espera. Estes olhos de brilho ausente, como os daqueles
cães sozinhos que busco em alguma imagem perdida na minha infância.
(Blumenau, 27 de janeiro de 2005)