A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Pequeno álbum II

(Viegas Fernandes da Costa)

MÃOS

"Estou em suas mãos" - disse-me. Confesso, não era isto que buscava ouvir, pois frágeis as mãos e tortos os dedos que deixam escoar aquilo que se permite pousar em suas palmas. Mas talvez seja este o segredo destas mãos frágeis de dedos tortos, que não seguram, mãos de vento. Sentir a carícia da pele como o sopro da brisa no corpo, apenas, e fechar os olhos, e abrir os lábios num sorriso de satisfação. É isto: as mãos que servem, que tocam, que marcam sussurros de breve calor e depois abanam em despedida.


NO RIBEIRÃO SÃO PAULO...

... ontem, meninos corriam com suas redes entre o verde dos arrozais. Borboletas no ar e em escuras caixas de sapatos, e aquele homem dos trocados que vendia bandejas e quadros. Vez por mês, o homem das bandejas e dos quadros dispunha seus trocados aos meninos do Ribeirão São Paulo... lindas borboletas criadas e caçadas para o inútil brilho de algumas moedinhas.
... hoje, vinte anos depois, Fábio Fachini me conta que caçava borboletas, umas, e criava, outras, em velhas caixas de sapato. O dinheiro? Guardado na poupança e consumido pela inflação. Mais teria ganhado se as tivesse visto brilhar suas muitas cores em meio à colheita e corrido no rastro de suas asas como criança inocente, não como empresário...
... seu filho dorme nos braços da mãe.


TARDE DE VERÃO

Desvela-me teus sonhos neste campo açoitado pelo sol e acarinhado pelo vento. Desvela-me, pois te olho adormecida sobre meu colo; os lábios ligeiramente abertos e o cabelo misturando-se à relva.
Confessa-me o que mal escondes sobre o sorriso largo e terno que amiúde me entregas. O sorriso, nada mais! Ainda que te suplico sentir o calor do teu corpo em minhas mãos, não mo permites.
Porque te rendes ao sono é hora de confessar. Desnudar-te diante deste céu imenso que reverbera meus desejos - invejo Morfeu que te colhe e te envolve e a quem te lanças sem temor.
Mas falam apenas os pássaros que rompem a dolência desta tarde de verão tropical com seus trinados. Por isso arrastam-se meus desejos para junto do riacho que corre nos limites do campo - a água massageando as pedras - e ali se afogam.


NO CAMINHO DE GUARICANAS

No caminho de Guaricanas, onde a estrada margeia o rio e o carro sacoleja na cadência dos buracos, as uvas embalam o olfato.


DE PONTA-CABEçA

Naquela hora da manhã, muito cedo, entrou na sala de aula com um mapa-múndi enrolado sob as axilas. Olhou-nos, virou-se, e pendurou o mapa no quadro... de ponta cabeça! Então era possível olhar o mundo de ponta-cabeça, inverter a ordem das coisas? "Acaso existe lado de cima e lado de baixo num globo?" - perguntou-nos em desafio. Não, claro que não, salvo quando uns se querem sobrepor a outros, então sim há lados muito bem definidos: os que pisam, os que são pisados.
Nunca esquecerei daquela aula da professora Maria Aparecida no Colégio Pedro II. Talvez ela não o saiba, mas quando pôs o mundo de ponta-cabeça pendurado naquele quadro negro num gesto tão despretensioso, acordou o homem no menino.
Então aprendi como um pequeno gesto pode fazer toda a diferença.


ESPERANDO

Ao telefone, disse-me que dela havia desistido muito facilmente. Por isso a lembrança daquele diálogo entre Alfredo e Totó no filme "Cinema Paradiso" de Giuseppe Tornatore: aquele amante que deveria esperar cem dias pela amada, parado, no mesmo lugar, e que abandonou o posto quando faltava-lhe apenas um dia para que se cumprisse o prazo e recebesse em seus braços a mulher que amava. Ocorreu-me à lembrança o diálogo quando, queixando-se, acusou-me de desistência e lançou-me aos ombros toda a culpa por não tomá-la. Ah, pois não sabe que continuo esperando? Porém o tempo me tomou as palavras e me prostrou mudo e ansioso pelo instante em que seus lábios descerrem os meus, e que seu toque me devolva aos olhos o brilho que esqueceram no momento em que meu corpo quedou-se em espera. Estes olhos de brilho ausente, como os daqueles cães sozinhos que busco em alguma imagem perdida na minha infância.

(Blumenau, 27 de janeiro de 2005)

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