A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Pequeno álbum III

(Viegas Fernandes da Costa)

O VIOLÃO

O violão se sustenta virgem e decorativo na parede nua, estrategicamente enquadrada pela câmera. Pende dos ganchos que o prendem à pedra, a possibilidade abortada do som. Em primeiro plano, a cantora, que fala demais. Por que tanta palavra e um violão mudo?
Não escutei as perguntas da repórter, tampouco as respostas da cantora que desconheço. Toda a minha atenção voltada àquele violão que ainda não nasceu.


REENCONTRO

Permanecemos como cicatrizes doces, como memória indelével. Sim menina, sim mulher. Curioso como gira o mundo esta ciranda espontânea. Há o mar, e há as ondas que nos devolvem à praia, e vice-versa. Por isso o bater de asas da borboleta, que pouco dura, mas muito vive.
Lembro-me de muitas coisas; inclusive, da explosão de luzes e sensações e cores que me tomou os sentidos quando inclinei o rosto sobre o teu naquele beijo que não aconteceu.
... agora, talvez?


EVOCAçÃO BARROCA

A imagem da japonesa banhando-se nua numa tina que um dia encontrei n'A Náusea de Sartre. O supliciado com o rosto deitado sobre a pedra fria, as mãos amarradas às costas, o medo e o zunido metálico do machado que corta o ar... o pescoço. Baque surdo no cesto. Por que esta excitação mórbida, esta associação insólita? A pele branca e lisa recém amadurecida, joelhos dobrados, público banho na rua vazia. Banha-se ali todos os dias, sob meu olhar e meu desejo. Sim, é fria a pedra que recebe o rosto e reflete o medo do condenado e espera a quente derrama do sangue. Ah, e como são negros e longos os cabelos da japonesa nua na tina, a mecha azeviche que se prende molhada ao pescoço, os ombros mal cobertos pela água, os seios miúdos e bonitos de mamilos escuros. Como desejo arrancá-la do banho e invadir seu sexo! Depois tomar terno em meus braços seu corpo assustado, e sentir amor. Na prosa sul-africana de Coetzee, em sua À Espera dos Bárbaros, o magistrado que lava a serva semi-cega dos pés deformados e aleijados, e beija sua pele escura, e penetra doce seu corpo machucado. Depois dorme. Mas é altiva a japonesa que evoco d'A Náusea, e me estendo sobre as pedras do calçamento, exposto desespero, crucificado, a carne macerada pelo desejo. Como o monge que se esconde na cela do mosteiro e entoa chibatadas no silêncio da madrugada. Sim, e há o carrasco que toma às mãos o duro machado, os calos acariciando as nervuras da madeira, o desejo erótico nos muitos rostos que anseiam o final, o baque, a morte. E a japonesa levanta lenta e arisca, vira-me as costas, a bunda de glúteos redondos, e se vai caminhando. As pernas pudicamente fechadas roçam os lábios carnudos, cerrados e adolescentes, devassos; os calcanhares macios tocando as pedras, pisando leve, para voltar amanhã. Este amanhã que o baque surdo no cesto interrompeu.


SARTRE

A qualidade literária d'A Náusea está no fato de nos deixar nauseados.


DESCOBERTA

Cedo descobriu que um escritor de sucesso depende de um bom livro, alguns padrinhos e um grande escândalo. Principalmente de um grande escândalo e menos de um bom livro. Teria o "Batismo de Fogo", de Mário Vargas Llosa, feito o sucesso que faz se não o tivessem queimado em pública praça os cadetes e professores do Leôncio Prado?
Ah... e esta mania de póstumos escritores! Que o diga Cesário Verde!


EPIFANIA

Compreendo agora o que significa dizer que teu corpo é catedral. Porque fui tocado. E do sonho que vivi, trouxe comigo teu cheiro; um pouco do teu cabelo, sob as unhas dos meus dedos. Por isso este desejo louco de grafar palavras no vento, desenhá-las na superfície de um rio, sob as asas de um pombo ou no alto das torres onde badalam tristes sinos. E abandono a idéia de plantar palavras em vasos de cristal, inúteis lavras colhidas ao acaso. Quero-as cultivadas na carne, quente carne de mulher, misturadas aos silêncios da distância e aos suspiros de prazer.
Caminhar assim é não saber aonde chegar.

(Blumenau, 10 de julho de 2005)

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