O VIOLÃO
O violão se sustenta virgem e decorativo na parede nua, estrategicamente
enquadrada pela câmera. Pende dos ganchos que o prendem à pedra,
a possibilidade abortada do som. Em primeiro plano, a cantora, que fala demais.
Por que tanta palavra e um violão mudo?
Não escutei as perguntas da repórter, tampouco as respostas da
cantora que desconheço. Toda a minha atenção voltada àquele
violão que ainda não nasceu.
REENCONTRO
Permanecemos como cicatrizes doces, como memória indelével. Sim
menina, sim mulher. Curioso como gira o mundo esta ciranda espontânea.
Há o mar, e há as ondas que nos devolvem à praia, e vice-versa.
Por isso o bater de asas da borboleta, que pouco dura, mas muito vive.
Lembro-me de muitas coisas; inclusive, da explosão de luzes e sensações
e cores que me tomou os sentidos quando inclinei o rosto sobre o teu naquele
beijo que não aconteceu.
... agora, talvez?
EVOCAçÃO BARROCA
A imagem da japonesa banhando-se nua numa tina que um dia encontrei n'A Náusea
de Sartre. O supliciado com o rosto deitado sobre a pedra fria, as mãos
amarradas às costas, o medo e o zunido metálico do machado que
corta o ar... o pescoço. Baque surdo no cesto. Por que esta excitação
mórbida, esta associação insólita? A pele branca
e lisa recém amadurecida, joelhos dobrados, público banho na rua
vazia. Banha-se ali todos os dias, sob meu olhar e meu desejo. Sim, é
fria a pedra que recebe o rosto e reflete o medo do condenado e espera a quente
derrama do sangue. Ah, e como são negros e longos os cabelos da japonesa
nua na tina, a mecha azeviche que se prende molhada ao pescoço, os ombros
mal cobertos pela água, os seios miúdos e bonitos de mamilos escuros.
Como desejo arrancá-la do banho e invadir seu sexo! Depois tomar terno
em meus braços seu corpo assustado, e sentir amor. Na prosa sul-africana
de Coetzee, em sua À Espera dos Bárbaros, o magistrado que lava
a serva semi-cega dos pés deformados e aleijados, e beija sua pele escura,
e penetra doce seu corpo machucado. Depois dorme. Mas é altiva a japonesa
que evoco d'A Náusea, e me estendo sobre as pedras do calçamento,
exposto desespero, crucificado, a carne macerada pelo desejo. Como o monge que
se esconde na cela do mosteiro e entoa chibatadas no silêncio da madrugada.
Sim, e há o carrasco que toma às mãos o duro machado, os
calos acariciando as nervuras da madeira, o desejo erótico nos muitos
rostos que anseiam o final, o baque, a morte. E a japonesa levanta lenta e arisca,
vira-me as costas, a bunda de glúteos redondos, e se vai caminhando.
As pernas pudicamente fechadas roçam os lábios carnudos, cerrados
e adolescentes, devassos; os calcanhares macios tocando as pedras, pisando leve,
para voltar amanhã. Este amanhã que o baque surdo no cesto interrompeu.
SARTRE
A qualidade literária d'A Náusea está no fato de nos deixar
nauseados.
DESCOBERTA
Cedo descobriu que um escritor de sucesso depende de um bom livro, alguns padrinhos
e um grande escândalo. Principalmente de um grande escândalo e menos
de um bom livro. Teria o "Batismo de Fogo", de Mário Vargas
Llosa, feito o sucesso que faz se não o tivessem queimado em pública
praça os cadetes e professores do Leôncio Prado?
Ah... e esta mania de póstumos escritores! Que o diga Cesário
Verde!
EPIFANIA
Compreendo agora o que significa dizer que teu corpo é catedral. Porque
fui tocado. E do sonho que vivi, trouxe comigo teu cheiro; um pouco do teu cabelo,
sob as unhas dos meus dedos. Por isso este desejo louco de grafar palavras no
vento, desenhá-las na superfície de um rio, sob as asas de um
pombo ou no alto das torres onde badalam tristes sinos. E abandono a idéia
de plantar palavras em vasos de cristal, inúteis lavras colhidas ao acaso.
Quero-as cultivadas na carne, quente carne de mulher, misturadas aos silêncios
da distância e aos suspiros de prazer.
Caminhar assim é não saber aonde chegar.
(Blumenau, 10 de julho de 2005)