Ernesto ama a aldeia, que fique bem claro. Mas isto não o impede de soltar
sua língua ferina. Digo para avisar: não pense o amigo, a amiga,
que Ernesto cospe no prato onde come. Não cospe! Mas também não
é cego, muito menos corre em suas veias sangue de barata.
Ainda ontem, por exemplo, encontrei-o insatisfeito diante do busto de uma ilustríssima
figura histórica aldeã. Lia a placa de bronze fixa ao pedestal
de concreto, o que me permitiu gozar de duas surpresas: a de reencontrar o sujeito
que há muito se escondia em seus pensamentos e a de constatar que nem
todas as placas de bronze foram furtadas para serem vendidas como sucata, prática
cada vez mais comum por estes tempos. Abraçou-me com o entusiasmo de
um velho amigo e foi logo me contando algumas histórias sobre alguns
monumentos do lugar, como a da estátua do fundador da aldeia, um alemão
que queria provar para o pai que era capaz de fazer algo que prestasse. Depois
de morto alçaram em sua homenagem significativo monumento de concreto
que nunca souberam bem onde enfiar. Hoje mora numa praça, rodeado de
simpáticas flores, mas houve tempo em que ocupava o centro de uma avenida,
atrapalhando o trânsito, não como pacote flácido - parafraseando
Chico Buarque - , mas como rígido monolito a rachar o crânio dos
motoristas desatentos. Porém, curiosa mesma foi a história que
me confidenciou em sigilo sobre o busto de um certo ex-prefeito cujo nome não
cito para evitar complicações com um aguerrido e paranóico
descendente seu.
Sim, um descendente seu, não do Ernesto, mas deste tal personagem paranóico
que agora se infiltra em nossa história e que habita pequeno feudo cravado
em meio à aldeia. Filho e neto de antigos prefeitos. Do avô havia
um busto, de gesso, guardando a escadaria do arquivo público local. Triste
busto ensandecido e esquecido, objeto decorativo, simplesmente. Certo dia o
aguerrido cidadão cismou com a pobreza do monumento, o avô merecia
mais, e de própria decisão, levou embora aquele busto registrado
como patrimônio público. Ninguém questionou o despotismo
do ato. Em verdade muitos suspiraram de alívio quando viram totalmente
desimpedidos os degraus da escadaria, libertos que foram daquele rosto grave
e austero a vigiá-los em silêncio.
Semanas depois retornou a avoenga estátua totalmente reformada, vestida
de uma pátina que lhe dava o ar de refinada arte em bronze, nas mãos
do neto, que carregava no rosto medíocre sorriso de satisfação
e nobreza. Voltou o busto e consigo aquele ar de mausoléu que sempre
imprimiu ao local, como que declarando a propriedade da memória aldeã,
guardada naqueles velhos papéis e antigos documentos profanados pelos
olhos e julgamentos do presente; deste presente sempre detestável àqueles
que se prenderam a um passado que consideram melhor, que consideram perfeito,
que consideram... passado. Voltou, e tão bom ficou na opinião
do seu paranóico neto, que este resolveu homenagear também o pai,
aquele que fora prefeito do lugar, com outra estátua, e assim perpetuar
a imagem da sua nobre ascendência à medíocre juventude aldeã,
"tão mais preocupada em gozar e fumar" - como dizia.
Buscou da melhor argila e arrogou-se a bustuário. Esculpiu daqui, aplainou
dali, nariz, orelhas, cabelos, os orifícios da visão, a boca de
orador, o pescoço que sustentava toda aquela capacidade realizadora de
homem público e o peito largo de um titã que respirava obras.
A arte saiu melhor do que o original, obra de pôr inveja ao mais Renascentista
dos artistas, verdadeiro "Davi" esculpido em lama. Levou o modelo
à fundição, banharam-no em metal, apararam arestas e, para
dar aquele ar de coisa antiga e respeitável, levou o busto do pai para
seu feudo e o deixou lá, ao relento, tomando sol, chuva e vento, a fim
de perder aquele seu brilho de metal novo e vulgar e assumir o brilho da autoridade
que brota do antigo, da tradição.
Pronta e perfeita a obra, emocionado, levou o busto do pai para junto da estátua
do avô, em evento memorável, com presença de bandinha, puxa-sacos
e imprensa paga. Discursou ele, discursou outro e falou até aquele que
sequer sabia de quem se tratavam aqueles dois bustos. Ouviram-se palmas, o pipocar
de flashes e até fita se cortou, como que se estivessem inaugurando obra
fundamental para o bem-estar da população. Tudo muito bonito,
tudo muito bizarro. E lá ficaram os dois patriarcas atravancando a passagem,
até aquele dia...
... aquele dia da vitória dos comunistas. Não eram bem comunistas
os que assumiram a prefeitura, mas assim o imaginava nosso aguerrido e paranóico
personagem. Comunistas e forasteiros, o que era pior! Esquecia-se que a própria
aldeia fora fundada por um forasteiro amargurado que queria provar sua capacidade
ao pai. Mas comunistas e forasteiros, dizíamos, e tanto chorou nosso
personagem, tanto se magoou com o povo aldeão que traíra as tradições
locais, que julgou indigno dos seus ancestrais mantê-los como guardiões
da escadaria que levava ao arquivo público da aldeia, agora presidido
pela sandice vermelha - como berrava nosso personagem pelas ruas daquele seu
mundo. E acompanhado de um seu capanga, foi lá, de coragem inflamada,
resgatar pai e avô e os levou embora para casa.
Estão lá, no caramanchão do jardim, para a felicidade dos
passarinhos, que agora têm onde pousar.