A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Sobre bustos e monumentos

(Viegas Fernandes da Costa)

Ernesto ama a aldeia, que fique bem claro. Mas isto não o impede de soltar sua língua ferina. Digo para avisar: não pense o amigo, a amiga, que Ernesto cospe no prato onde come. Não cospe! Mas também não é cego, muito menos corre em suas veias sangue de barata.

Ainda ontem, por exemplo, encontrei-o insatisfeito diante do busto de uma ilustríssima figura histórica aldeã. Lia a placa de bronze fixa ao pedestal de concreto, o que me permitiu gozar de duas surpresas: a de reencontrar o sujeito que há muito se escondia em seus pensamentos e a de constatar que nem todas as placas de bronze foram furtadas para serem vendidas como sucata, prática cada vez mais comum por estes tempos. Abraçou-me com o entusiasmo de um velho amigo e foi logo me contando algumas histórias sobre alguns monumentos do lugar, como a da estátua do fundador da aldeia, um alemão que queria provar para o pai que era capaz de fazer algo que prestasse. Depois de morto alçaram em sua homenagem significativo monumento de concreto que nunca souberam bem onde enfiar. Hoje mora numa praça, rodeado de simpáticas flores, mas houve tempo em que ocupava o centro de uma avenida, atrapalhando o trânsito, não como pacote flácido - parafraseando Chico Buarque - , mas como rígido monolito a rachar o crânio dos motoristas desatentos. Porém, curiosa mesma foi a história que me confidenciou em sigilo sobre o busto de um certo ex-prefeito cujo nome não cito para evitar complicações com um aguerrido e paranóico descendente seu.

Sim, um descendente seu, não do Ernesto, mas deste tal personagem paranóico que agora se infiltra em nossa história e que habita pequeno feudo cravado em meio à aldeia. Filho e neto de antigos prefeitos. Do avô havia um busto, de gesso, guardando a escadaria do arquivo público local. Triste busto ensandecido e esquecido, objeto decorativo, simplesmente. Certo dia o aguerrido cidadão cismou com a pobreza do monumento, o avô merecia mais, e de própria decisão, levou embora aquele busto registrado como patrimônio público. Ninguém questionou o despotismo do ato. Em verdade muitos suspiraram de alívio quando viram totalmente desimpedidos os degraus da escadaria, libertos que foram daquele rosto grave e austero a vigiá-los em silêncio.

Semanas depois retornou a avoenga estátua totalmente reformada, vestida de uma pátina que lhe dava o ar de refinada arte em bronze, nas mãos do neto, que carregava no rosto medíocre sorriso de satisfação e nobreza. Voltou o busto e consigo aquele ar de mausoléu que sempre imprimiu ao local, como que declarando a propriedade da memória aldeã, guardada naqueles velhos papéis e antigos documentos profanados pelos olhos e julgamentos do presente; deste presente sempre detestável àqueles que se prenderam a um passado que consideram melhor, que consideram perfeito, que consideram... passado. Voltou, e tão bom ficou na opinião do seu paranóico neto, que este resolveu homenagear também o pai, aquele que fora prefeito do lugar, com outra estátua, e assim perpetuar a imagem da sua nobre ascendência à medíocre juventude aldeã, "tão mais preocupada em gozar e fumar" - como dizia.

Buscou da melhor argila e arrogou-se a bustuário. Esculpiu daqui, aplainou dali, nariz, orelhas, cabelos, os orifícios da visão, a boca de orador, o pescoço que sustentava toda aquela capacidade realizadora de homem público e o peito largo de um titã que respirava obras. A arte saiu melhor do que o original, obra de pôr inveja ao mais Renascentista dos artistas, verdadeiro "Davi" esculpido em lama. Levou o modelo à fundição, banharam-no em metal, apararam arestas e, para dar aquele ar de coisa antiga e respeitável, levou o busto do pai para seu feudo e o deixou lá, ao relento, tomando sol, chuva e vento, a fim de perder aquele seu brilho de metal novo e vulgar e assumir o brilho da autoridade que brota do antigo, da tradição.

Pronta e perfeita a obra, emocionado, levou o busto do pai para junto da estátua do avô, em evento memorável, com presença de bandinha, puxa-sacos e imprensa paga. Discursou ele, discursou outro e falou até aquele que sequer sabia de quem se tratavam aqueles dois bustos. Ouviram-se palmas, o pipocar de flashes e até fita se cortou, como que se estivessem inaugurando obra fundamental para o bem-estar da população. Tudo muito bonito, tudo muito bizarro. E lá ficaram os dois patriarcas atravancando a passagem, até aquele dia...

... aquele dia da vitória dos comunistas. Não eram bem comunistas os que assumiram a prefeitura, mas assim o imaginava nosso aguerrido e paranóico personagem. Comunistas e forasteiros, o que era pior! Esquecia-se que a própria aldeia fora fundada por um forasteiro amargurado que queria provar sua capacidade ao pai. Mas comunistas e forasteiros, dizíamos, e tanto chorou nosso personagem, tanto se magoou com o povo aldeão que traíra as tradições locais, que julgou indigno dos seus ancestrais mantê-los como guardiões da escadaria que levava ao arquivo público da aldeia, agora presidido pela sandice vermelha - como berrava nosso personagem pelas ruas daquele seu mundo. E acompanhado de um seu capanga, foi lá, de coragem inflamada, resgatar pai e avô e os levou embora para casa.

Estão lá, no caramanchão do jardim, para a felicidade dos passarinhos, que agora têm onde pousar.

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