MANHÃ DE ELIS
Hoje o dia amanheceu Elis. As águas de março anunciando do verão
o ocaso. E da janela em movimento, os pastos, as luzes sonolentas das casas
que acordam. Na poltrona, encolho-me para escutar o apelo dos olhos tristes
que sorriem em cumprimento ao meu lado. A quem pertencem estes olhos tristes?
E a quem pertencem todos estes suspiros que enchem de vapores esta manhã
tão úmida? Ah, viver esta vida anônima, acender todas as
manhãs a lâmpada da cozinha e preparar o café! Este café
que aquece aquela casinha acordada no final daquela rua, que passa tão
depressa! Amanhã, talvez, repararei no velhinho que se balança
na varanda ao lado, olhando a rua, olhando a mim sem o saber, que também
passo, tão veloz quanto um pensamento inútil que ignoramos, e
não me perceberá. Não me perceberá o velhinho que
madruga para me ver passar, todas as manhãs, da sua cadeira na varanda.
Hoje o dia amanheceu Elis, umidamente Elis, constato, mas não me importo.
Haverá outros ainda, e mais alguns. Depois... não sei! Apenas
entendo que há o café que se prepara nestes lares em que nunca
entrei, o beijo frio da despedida ao qual já se acostumara aquele casal
que ainda vejo à soleira da porta, este sorriso destes olhos tristes
que por hora dormem na poltrona ao meu lado e o velhinho... o velhinho na varanda
e sua história de esperar todas as manhãs. Apenas isto, nesta
manhã de Elis.
FEL DA MADRUGADA
A lua cai no lago, e os pássaros se calam. Porém, não há
luz de lua alguma, não há lago e como posso saber se calaram os
pássaros quando, em dia, não os ouço cantar?
-XX-
Um pássaro sem asas corta o ar e busca o chão negro de asfalto.
Pássaro sem, penas, curioso, que corta o ar e busca na pedra o seu repouso.
E como sangra o pássaro que é homem! Arrebol na sarjeta!
-XX-
Na sarjeta tilintam moedas de cobre barato. Nas praças tilintam meninas
de corpo barato. Na sarjeta, seguem os ratos rastos da civilização.
Sobre a lama o corpo impúbere e venal verdascado pela noite anônima,
e a língua que rasteja sobre seus seios, pegajosa e lúgubre, é
tão somente mais uma, de uma boca sem palavras em um rosto sem face -
apenas sombras e um par de olhos injetados de ódio reclinados sobre si.
-XX-
Da janela, a luz, amarela - luz de Édison! Da janela contempla o véu
pesado do medo que ronda e se impõe. Oh desespero! O fio, a fala, o "sim,
posso ajudar?" que escuta e ao qual responde. Fala... fala... fala... O
clique do aparelho, fone no gancho, a sirene, o choro, o cão! O cão
que ladra, que late, que uiva. Madrugada de cães que latem sem resposta.
-XX-
Um passo que se arrasta no frio e deixa marcas na pedra antiga. Um passo descalçado
imprime na umidade a prova da sua existência. Passa na noite, não
o vêem escondido nas sombras dos muros. Sacode seus trapos, vasculha na
lata restos de jantares. E os muros, renovados muros, multifacetados muros que
cansou de esmurrar, que esqueceu de esmurrar, que deixou de esmurrar.
ESPANTALHOS NO DESERTO II
Buscar este sonho que um dia contemplaram meus olhos de infância. Onde?
E pisar esta estrada, estalar de seixos sob as solas e amargar este fel de acordar
e saber... E saber...
Como olhar-te o rosto, criança, e dizer "acredita!" se já
não mais o creio possível? Onde deixei minha bagagem? Em que praça,
em que porto? Jamais deveriam ter inventado portos, nem estações,
nem estas medíocres paradas de beira de estrada onde esperamos sem saber
quanto. E quando chegamos, onde a coragem de voltar atrás e começar
de novo? Porque seria este o caminho: começar de novo o novo. Esquecemos;
e fingimos um sorriso, fingimos um conforto que nos incomoda e nubla as vontades.
Mas... e depois?
Espantalhos no deserto guardando a colheita que nunca foi, assim meus sonhos
me esperam. Se retorno? Sei apenas que hoje acordei igual, diferente daquilo
que fui naquele distante ontem que já julgo delírio. Espero adormecer
outro, próximo daquilo que certo tempo imaginei. Não perco as
esperanças, apesar dos calos, que a estrada não tarda inédita.
Haverei de macerar seu solo virgem dos meus pés, seus caminhos puros
dos meus medos. Sim, haverei...
Por hora, como pesa esta estranha liberdade barroca que nunca experimentei!
LEMBRANçA DE FERNANDA
Onde encontrar este verso, esta palavra que procuro, senão nestes olhos
de parda beleza trágica? Durmo no interior da intimidade do seu desejo,
descoberta ainda há pouco. Tão pequeno este seu corpo, que o tomo
entre as mãos, na calma de uma posse que se sabe efêmera...
... sobre estes lençóis, nesta noite que dorme eterna.
AFRODITE
"Da espuma das ondas do mar, nasce Afrodite", contou-me aquele garoto
de onze anos.