A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Pequeno álbum IV

(Viegas Fernandes da Costa)

MANHÃ DE ELIS

Hoje o dia amanheceu Elis. As águas de março anunciando do verão o ocaso. E da janela em movimento, os pastos, as luzes sonolentas das casas que acordam. Na poltrona, encolho-me para escutar o apelo dos olhos tristes que sorriem em cumprimento ao meu lado. A quem pertencem estes olhos tristes? E a quem pertencem todos estes suspiros que enchem de vapores esta manhã tão úmida? Ah, viver esta vida anônima, acender todas as manhãs a lâmpada da cozinha e preparar o café! Este café que aquece aquela casinha acordada no final daquela rua, que passa tão depressa! Amanhã, talvez, repararei no velhinho que se balança na varanda ao lado, olhando a rua, olhando a mim sem o saber, que também passo, tão veloz quanto um pensamento inútil que ignoramos, e não me perceberá. Não me perceberá o velhinho que madruga para me ver passar, todas as manhãs, da sua cadeira na varanda. Hoje o dia amanheceu Elis, umidamente Elis, constato, mas não me importo. Haverá outros ainda, e mais alguns. Depois... não sei! Apenas entendo que há o café que se prepara nestes lares em que nunca entrei, o beijo frio da despedida ao qual já se acostumara aquele casal que ainda vejo à soleira da porta, este sorriso destes olhos tristes que por hora dormem na poltrona ao meu lado e o velhinho... o velhinho na varanda e sua história de esperar todas as manhãs. Apenas isto, nesta manhã de Elis.


FEL DA MADRUGADA

A lua cai no lago, e os pássaros se calam. Porém, não há luz de lua alguma, não há lago e como posso saber se calaram os pássaros quando, em dia, não os ouço cantar?

-XX-

Um pássaro sem asas corta o ar e busca o chão negro de asfalto. Pássaro sem, penas, curioso, que corta o ar e busca na pedra o seu repouso. E como sangra o pássaro que é homem! Arrebol na sarjeta!

-XX-

Na sarjeta tilintam moedas de cobre barato. Nas praças tilintam meninas de corpo barato. Na sarjeta, seguem os ratos rastos da civilização. Sobre a lama o corpo impúbere e venal verdascado pela noite anônima, e a língua que rasteja sobre seus seios, pegajosa e lúgubre, é tão somente mais uma, de uma boca sem palavras em um rosto sem face - apenas sombras e um par de olhos injetados de ódio reclinados sobre si.

-XX-

Da janela, a luz, amarela - luz de Édison! Da janela contempla o véu pesado do medo que ronda e se impõe. Oh desespero! O fio, a fala, o "sim, posso ajudar?" que escuta e ao qual responde. Fala... fala... fala... O clique do aparelho, fone no gancho, a sirene, o choro, o cão! O cão que ladra, que late, que uiva. Madrugada de cães que latem sem resposta.

-XX-

Um passo que se arrasta no frio e deixa marcas na pedra antiga. Um passo descalçado imprime na umidade a prova da sua existência. Passa na noite, não o vêem escondido nas sombras dos muros. Sacode seus trapos, vasculha na lata restos de jantares. E os muros, renovados muros, multifacetados muros que cansou de esmurrar, que esqueceu de esmurrar, que deixou de esmurrar.


ESPANTALHOS NO DESERTO II

Buscar este sonho que um dia contemplaram meus olhos de infância. Onde? E pisar esta estrada, estalar de seixos sob as solas e amargar este fel de acordar e saber... E saber...
Como olhar-te o rosto, criança, e dizer "acredita!" se já não mais o creio possível? Onde deixei minha bagagem? Em que praça, em que porto? Jamais deveriam ter inventado portos, nem estações, nem estas medíocres paradas de beira de estrada onde esperamos sem saber quanto. E quando chegamos, onde a coragem de voltar atrás e começar de novo? Porque seria este o caminho: começar de novo o novo. Esquecemos; e fingimos um sorriso, fingimos um conforto que nos incomoda e nubla as vontades. Mas... e depois?
Espantalhos no deserto guardando a colheita que nunca foi, assim meus sonhos me esperam. Se retorno? Sei apenas que hoje acordei igual, diferente daquilo que fui naquele distante ontem que já julgo delírio. Espero adormecer outro, próximo daquilo que certo tempo imaginei. Não perco as esperanças, apesar dos calos, que a estrada não tarda inédita. Haverei de macerar seu solo virgem dos meus pés, seus caminhos puros dos meus medos. Sim, haverei...
Por hora, como pesa esta estranha liberdade barroca que nunca experimentei!


LEMBRANçA DE FERNANDA

Onde encontrar este verso, esta palavra que procuro, senão nestes olhos de parda beleza trágica? Durmo no interior da intimidade do seu desejo, descoberta ainda há pouco. Tão pequeno este seu corpo, que o tomo entre as mãos, na calma de uma posse que se sabe efêmera...

... sobre estes lençóis, nesta noite que dorme eterna.


AFRODITE

"Da espuma das ondas do mar, nasce Afrodite", contou-me aquele garoto de onze anos.

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