Talvez fosse melhor escrever uma historinha, mas cansei delas, principalmente
quando vêm assim, no diminutivo. Não, definitivamente hoje não
é dia para historinhas, e como escrever torna-se tão necessário
quanto respirar, cá estamos para bancar o Dom Quixote e lutar contra
os moinhos de vento, ou, se preferirem - eu prefiro - , sermos um Leonardo da
Vinci desenhando aquelas geringonças voadoras, levado a sério
por um certo Alberto que deu ao mundo o 14-Bis.
Começo lembrando Gandhi. Só mesmo um Mahatma para nos ensinar
que se pode recolher o sal com as mãos. Carregou atrás de si uma
Índia inteira e nunca disparou um tiro. Sua arma era a palavra e o exemplo,
tinha a história nas mãos. Cultivou a tolerância na tentativa
de colher a paz. Por que não? É triste constatar, porém,
que há sempre maiores argumentos para se defender a violência,
principalmente quando se vive uma sociedade violenta, pois como já poetava
Augusto dos Anjos em seus "Versos Íntimos", "o homem que
vive entre feras sente, inevitável, necessidade de também ser
fera".
Sim, mas devo explicar. Ensinaram-me, nos tempos de escola, que não se
deve iniciar um texto sem que se diga, primeiro, a que se veio. Estaria reprovado,
então. Ainda não disse a que vim. Corrijo-me: venho por conta
do referendo; deste referendo que levará o povo brasileiro às
urnas para que decida entre a proibição ou não da venda
de armas de fogo e munição no Brasil. Venho porque ainda acredito
"nas flores vencendo o canhão", apesar de tudo. Afinal, humanizar-se
a humanidade não é tarefa das mais fáceis, ainda somos
feras e acreditamos na força das balas.
Recentemente assisti ao documentário "Tiros em Columbine" (2002),
do polêmico diretor estadunidense Michael Moore. Para quem não
lembra mais, Columbine é o nome de uma escola nos Estados Unidos onde
dois adolescentes armados mataram em 1999 doze estudantes, um professor e depois
se suicidaram. Partindo deste fato, Moore procura analisar as razões
que levam a sociedade estadunidense (uma das mais armadas do mundo) a ser, também,
uma das sociedades com o maior número de crimes por armas de fogo do
planeta. Tinha uma hipótese primária: a de que a violência
nos Estados Unidos estava associada ao porte de armas, e procurou contrastar
esta realidade com a do Canadá, um dos países com o menor índice
de homicídios praticados por armas de fogo. Teve uma surpresa, no entanto.
Descobriu que o Canadá possui sete milhões de armas para uma população
de dez milhões de famílias, ou seja, quase uma arma por família.
Como explicar, então, a gritante diferença entre a violenta realidade
estadunidense e os baixos índices de criminalidade canadenses? Pois é,
foi a pergunta que também me fiz, e a resposta é óbvia:
o Canadá possui uma população preparada para portar armas
justamente por ser uma sociedade ainda não amedrontada. Com altos índices
de desenvolvimento social, educacional e apresentando um grande nível
de tolerância às diferenças, o povo canadense aposta no
diálogo, na negociação, e não na intimidação,
tão diferentemente dos Estados Unidos - e do Brasil - onde o próprio
Estado e os meios de comunicação tratam de amedrontar a população
com seus alertas contra o terrorismo e através da discriminação
implícita nos discursos de uma mídia que rotula enormes grupos
sociais como "naturalmente" criminosos. Possuir armas, no Canadá,
não está ligado a uma questão de segurança privada,
mas de tradição histórica. Em resumo, nos Estados Unidos,
assim como no Brasil, o medo leva as pessoas a se armar e a fazer uso das armas
quando assustadas, e é justamente este o problema principal.
Defender o princípio de que se deve possuir uma arma particular para
garantir uma segurança que deveria ser oferecida pelo Estado, é
usar do mesmo argumento que o governo Bush utilizou para justificar a guerra
no Iraque: já que a ONU não garante a segurança do mundo,
os Estados Unidos se concede o direito de fazer guerras preventivas. Sob a desculpa
de perseguir terroristas, lança-se mão de enormes ataques que
dizimam centenas de milhares de pessoas. E a conseqüência todos nós
conhecemos: o terrorismo não só não diminuiu, como aumentou.
O planeta tornou-se ainda mais violento. Da mesma forma, acreditar que com atos
violentos poderemos diminuir a própria violência, é repetir
um erro que há muito já estamos cometendo. Há uma premissa
sociológica que diz que a violência só gera mais violência;
acredito nela.
No Brasil o porte e a venda de armas sempre foi algo legalizado, e nem por isso
vivemos em uma sociedade segura. Muito pelo contrário, os índices
de violência aumentam a cada ano. Não seria o caso de refletirmos
sobre as causas dessa violência? É certo que não resolveremos
o problema apenas votando "sim" ou "não" em um referendo.
É certo que o debate sobre o controle da violência é muito
mais complexo que este maniqueísmo simplista que hoje está colocado
na mídia. A causa da violência não está nas armas;
estas são sua conseqüência e a agravam. Porém, defender
sua comercialização, crendo que assim resolveremos nossas mazelas
sociais, parece-me ainda mais simplista; bem como defender o princípio
do armar-se como resposta à ausência de uma segurança pública
eficaz, parece-me retroceder à lei do mais forte, ou, do mais armado,
neste caso.
Gandhi enfrentou o colonialismo inglês com seu corpo franzino e uma multidão
de pessoas que preferiram crer no imponderável. Quando os ingleses esperavam
os gritos, a resposta surgiu no silêncio; quando esperavam a guerrilha,
receberam a não cooperação pacífica. Acostumados
à violência, a estratégia de Gandhi trouxe o inédito,
a opção que ninguém havia imaginado que funcionaria. Resposta
inédita a um velho problema, por isso deu certo.
"Devemos ser a transformação que queremos", dizia o
Mahatma. Tornando-nos violentos jamais transformaremos uma sociedade violenta.
Por que não conseguimos aprender?
(Blumenau, 15 de outubro de 2005)