"Não serei o poeta de um mundo caduco", e que nunca deixou
de sê-lo, quero completar. Ah, mestre Drummond de Itabira, fazes falta!
E a televisão mostra em múltiplos orgasmos cenas da criança
mutilada, da poeira levantada pelas esteiras do tanque militar, das supostas
armas químicas. Falam das estratégias de guerra, da invasão
de Bagdá com o conhecimento e a experiência de quem nunca sentiu
o calor do sangue gotejando sobre seu corpo e, tomadas de delírio, famílias
reunidas na mesa de jantar - ah, por que não tocam mais a música
dos Mutantes? - embriagam-se ante a imagem do soldado que cobre a estátua
de Saddam com a bandeira de listras e estrelas... Vergonha!... vergonha!...
não pela estátua, nada disso, que caia, que caiam todas as estátuas,
mas não destruam nossa humanidade!
É Ernesto, Guernika está aí, não só na parede
de uma ONU impotente, a tela encoberta pelo lençol, Guernika está
nos braços e pernas lançados ao lixo porque a explosão
lhes tirou a serventia. Bombas inteligentes... indigentes na vala do mundo!
"Não serei o poeta de um mundo caduco" que despeja seus "tomahawks"
de um milhão de dólares sobre insones e assustadas cabeças
e chama a isto de "implantar a democracia". Quanto vale uma saca de
arroz? Um lote de vacinas? Uma escola? Mundo caduco ou surreal este que devora
nossos sonhos? Mundo onirofágico! Um milhão de dólares
a unidade! Quantos foram os mísseis? Mais de vinte mil?
É Ernesto, a águia imita o urubu e repartem agora os despojos.
A quem pensam enganar? E o tempo passará, inventarão outras guerras,
outros braços e pernas serão lançados ao lixo, novas mentiras
contarão! Mas como encararmos nossos filhos? E ainda que te vi, Ernesto,
gritando pela paz nas praças, sabemos que nada fizemos. Quedamo-nos espectadores
da tragédia, o grito pouco a pouco adormecido na garganta, logo esquecido.
Nossos filhos cobrarão todo este sangue bebido pela terra, não
se engane, e então te enaltecerás por teres te despido na Austrália
ou sei lá em que lugar do mundo?... por teres queimado as bandeiras da
Inglaterra e dos Estados Unidos?... porque escrevestes textos, como este, dizendo
que a guerra é sempre um erro? Não fizemos nada Ernesto! E isto
nos envergonha! Nossos filhos nos cobrarão...
XX
O escultor solitário amontoa áridas pedras sobre frios pedestais
erguidos na desolação do devastado. Tingidas à sangue e
lágrimas, recolhe-as com os cuidados de um pai que envolve o primeiro
filho nos braços. É o escultor do pós-guerra, cada pedra,
um sonho que ruiu. Pedras quentes pois humanas também. E se vistas de
perto, de muito perto, desvelam-nos artérias sob o pó...
...há artérias sob o pó, sim, pois o sonho insiste em não
acabar!
Crônica publicada no livro Sob a Luz do Farol (Ed. Hemisfério Sul, 2005)