Quando ultrapassou aqueles portões, Ítalo caminhava sem pressa.
Estava acostumado àqueles corredores extensos, de antigas e sóbrias
arcadas, ainda que o templo anunciasse sempre sua contemporaneidade.
Subiu as escadas e passou pelo saguão recém reformado, o enorme
pé-direito abrigando os biombos que anunciavam os eventos da semana:
o filme da véspera, o concerto de cordas, seminários, palestras
e bancas, um Hamlet nova e exaustivamente relido. Ítalo não deu
muita importância àqueles tantos cartazes e eventos. Ítalo
não deu importância alguma àqueles tantos cartazes e eventos.
Apenas cumprimentou a recepcionista com um leve meneio de cabeça e seguiu
em frente. Ainda caminhava sóbrio, racional. Distraidamente lia as plaquetas
anunciando departamentos e salas. Tomou o corredor à esquerda, mais iluminado,
o das clarabóias. Depois desceu os três degraus e seguiu à
direita. Percebia que o templo crescera desde a última vez, havia muito
mais salas, mais algazarra, e mais e mais departamentos anunciados às
portas. Havia muito mais portas também. Chegou ao átrio, alguns
serviam-se de sanduíches, outros de cafés. A conversa era intensa.
Falavam todos. Na medida em que seus pés o levavam para o centro do átrio,
desviando das mesas, cadeiras, dos jovens que se reuniam em pequenos grupos,
o volume das falas ia aumentando, aumentando, aumentando. Ítalo já
não conseguia mais distinguir tantas palavras misturadas, todo aquele
torvelinho de fonemas. Seguiu em frente e a algazarra começou a abandoná-lo.
Entrou à direita, subiu para o primeiro andar. Seus passos ecoavam no
piso o som de borracha prensada, não o som clássico de duros saltos
no mármore, mas do sintético moderno em velho assoalho. Prosseguia
cruzando com um e outro, alguns desavisados, outros atentos aos olhos que se
cruzavam e se liam, ainda que no tempo de um cruzar, apenas. Saiu para o gramado
externo, no campo alto, atravessou o pequeno bosque, a brita indicando o caminho
permitido. Chegou ao prédio antigo, entrou. Tão logo atravessou
o hall, tomou o corredor da direita e desceu a pequena rampa. Caminhava com
um pouco mais de ansiedade. Não se lembrava de como era afastada aquela
sala. Começava a cansar da caminhada. Chegou à escada, abrupta
como a decisão sua de retornar. Tocou a palma da mão ao corrimão
de pedra e sentiu frio. Por alguns segundos, Ítalo parou. Olhou o teto,
ainda havia fluorescentes iluminando o caminho. Decidiu descer, e assim o fez.
Estava sozinho agora, e as paredes estavam nuas. A escada descia em seus quatro
lances. Depois novo corredor, extenso corredor, e algumas salas. Mais um declive
e a luz era baça. Ainda podia voltar, mas este era um pensamento que
apenas alimentava como possibilidade de diversão, um passatempo, a decisão
estava tomada. Quando chegou ao último corredor, Ítalo parou e
encheu os pulmões daquele ar de decisão. As pedras do chão
já gastas pelos anos, pelos muitos anos. Caminhava depressa agora, muito
depressa, até chegar à pequena porta. Tinha apenas um metro de
altura aquela porta, e no seu lado externo ostentava ainda aquela antiquada
aldrava. Não bateu, não precisava bater, era esperado. De joelhos,
empurrou a porta e entrou. A luz era fraca e o teto baixo, muito baixo, não
se ficava de pé ali, e não havia aldravas do lado interno da porta,
que fechou. "Não há volta" - pensou Ítalo, apenas
por pensar, porque já o sabia. Para não se cansar muito, resolveu
seguir engatinhando até a outra porta, aquela que dava para o imenso
salão anunciado pelas antigas e enferrujadas letras de ferro que diziam
TODOS OS NOMES. Ítalo nunca estivera naquele salão, mas o conhecia,
já soubera dele, já o experimentara de alguma forma. Entrou. Não
era estreito o salão TODOS OS NOMES. Era largo, muito largo, porém
tão baixo quanto o corredor anterior, e o ar muito pesado. A luz ainda
mais baça projetada pelas indecisas lamparinas anunciava ao fundo um
pequeno agrupamento humano. Falavam baixo e o que chegava aos ouvidos de Ítalo
era apenas um sibilo sufocado. Ítalo sentou por longo momento, e mesmo
sentado sua cabeça tocava o teto. Esperou. Depois de muitas horas, uma
voz se elevou do meio do agrupamento. Não era muito grave aquela voz,
em realidade, não havia gravidade alguma naquela voz. Soava quase como
um grito agudo: "Adentraste o castelo, Ítalo, e então?"
- e seguiu-se o silêncio. Reconheceu na frase a voz de Franz, o processado
por si mesmo. Nada aconteceu por longo tempo, e Ítalo pôde sentir
seu corpo vivo: o latejar do sangue nas veias, o ar se revolvendo em seus pulmões.
"Estamos todos aqui, e então?" - era Jorge Luis agora, a voz
sufocada e pesarosa. "Toma o caminho que quiseres, mas para chegares aqui,
tens que te arrastar para os lados" - falou alguma mulher, mas a esta não
conseguiu dar nome, fosse talvez Virgínia, afinal, ao falar, sacudiu
seu vestido e Ítalo pode ouvir também o som de pedras se tocando.
Para os lados o teto caía ainda mais. Pôs-se de bruços,
e com os cotovelos começou a se arrastar. "Não há
horizontes aqui" - pensou, "o teto sempre há de baixar até
o ínfimo espaço que o separará do chão, e então
não poderei continuar". Mas as pedras do teto apoiavam-se sobre
aquela estante. Agora podia ver as estantes, eram muitas, infinitas e compridas
estantes abarrotadas de livros, milhares de livros, milhões de livros,
e quando seus cotovelos já se esfolavam, Ítalo percebeu que o
teto já se ia afastando da sua cabeça de forma muito sutil, sempre
escorado nas estantes. De cócoras, parou para descansar. Ficou admirando
aquele cheiro de papel impresso. Esticou o braço e puxou um volume, impresso
em desusados tipos, mas não leu as palavras. Apenas sentiu o livro em
seus dedos, acariciou as páginas, cheirou, tocou-lhe a capa ao rosto
e sentiu-lhe o calor das palavras que se querem anunciar. Sempre fora bibliogâmico.
"Estão todos aqui!" - gritou TODOS OS NOMES de algum lugar.
Ítalo estudou as possibilidades, eram muitas estantes, estas se cruzavam,
e se encontrava, e se separavam. Ítalo avançou até quando
pôde se pôr sobre os pés, sempre gostou de se pôr sobre
os pés. Girou sobre si mesmo olhando ao seu redor. As estantes cresciam
cada vez mais como calibãs que o convidavam para um banquete: o seu banquete.
Estava indeciso. "Não importa o caminho, é sempre um caminho"
- sussurrou sensualmente TODOS OS NOMES. Ítalo então decidiu continuar.
"Toma o caminho que quiseres, mas para chegares aqui, tens que te arrastar
para os lados", e se seguiu o baque do corpo à água. "Eu
sei" - pensou Ítalo, "Não é por acaso que se
escuta duas vezes o mesmo aviso" - e se deitou ao chão e viu então
aquela pequena passagem entre os in-fólios. "Não há
como ficar de pé quando se está aqui; aqui, arrastamo-nos todos"
- TODOS OS NOMES dizia o que parecia ser um discurso repetido já muitas
vezes. Ítalo espremeu-se na passagem que dava naquele duto ainda mais
estreito e completamente escuro, e restava-lhe apenas se arrastar e seguir esperando
chegar a algum lugar. Chegou em lugar algum. Lugar algum eram pouco pior iluminado
que o salão TODOS OS NOMES, e ali estava só. No entanto, a cena
era a mesma, as ainda maiores estantes se perdiam em algum lugar indefinido
lá no alto de lugar algum. No entanto cheiravam a off-set os livros desta
nova sala, e eram muitos mais. Ítalo levantou-se novamente, e por alguns
minutos ficou estudando suas possibilidades: "Como chegar? Qual o caminho"
- perguntou-se. TODOS OS NOMES permaneceu silencioso. ECO! Como chegar... chegar...
chegar... Qual o caminho... minho... minho... "Não há saída
para este labirinto" - pesarosamente anunciou Jorge Luis. Em não
havendo saída, Ítalo pensou que poderia permanecer ali parado,
definhando até não ser mais, tampouco porém seria esta
solução melhor. Nauseado, debruçou-se sobre o estômago
e vomitou. Lembrou-se do amigo Roquentin, a quem negligenciara, e pensou que
talvez pudesse encontrá-lo também neste labirinto, mas desistiu
logo de tal pensamento: de nada adiantaria Roquentin por perto, provavelmente
diria que labirinto por labirinto melhor este, que os olhos vêem. Ítalo
entendeu que poderia caminhar, arrastar ou simplesmente ficar. "Adentraste
o Castelo, Ítalo, e então?" - repetiu o processado, agora
irônico. Não há muitos entãos. Amparando-se nas estantes,
para não cair, Ítalo pegou o corredor da esquerda sem pensar no
sentido daquele caminho, e bêbedo, deixou-se conduzir pela vontade de
seguir, apenas. Os corredores faziam voltas, terminavam abruptamente, revelavam
fossos profundos e enormes penhascos de livros. Ítalo já não
conseguia mais se amparar nas estantes. O corredor pouco a pouco foi se alargando
como se fosse um funil ao contrário, e o teto voltou a baixar, baixar,
obrigando Ítalo a curvar a cabeça, as costas, dobrar os joelhos
e voltar a se arrastar. Percebeu-se nu, e sentiu o frio do piso sobre si. A
pedra, ainda que lisa, esfolando sua pele, macerando suas juntas. O salão
cada vez mais largo, e cada vez mais distantes as estantes. Lá no fundo
uma luz baça projetava nas paredes a sombra de um pequeno agrupamento
humano. Falavam baixo e o que chegava aos ouvidos de Ítalo era apenas
um sibilo sufocado. Ítalo sentou por longo momento, e mesmo sentado sua
cabeça tocava o teto. Esperou. Quando se movesse, Virgínia anunciaria
novamente sua sentença e Ítalo apenas seguiria, como os bois que
movem o engenho, seguiria, como a máquina infinita do relógio,
seguiria, como o texto que se desfia sozinho.