Hoje as lembranças estão confusas e as pernas se enroscam em um
tango solitário. Escuto as notícias do dia ao longe, mantra de
sangue onde mergulham meus olhos; as mãos, suspensas no ar, caçando
suspiros perdidos no éter. Quero parir o poema dorido abortado nos lábios
- poema suspiro! Encontro-o na placenta do mundo; ao fundo, as cordas desafinadas
de um violino que um dia vi tocado numa praça em Curitiba: dedos rugosos
esgravatando sons num tempo conhecidos por aqueles ouvidos setuagenários
e que por hora reconhecem apenas o tilintar das pobres moedas ao prato. E a
chuva lava meu dia.
Hoje procuro o verso urbano que aquela senhora pendura à sacada: o verbo
grafado nos olhos que buscam ao cio. Quero subir as escadas, bater-lhe na porta;
a estrada, no entanto, devolve-me à praça e ao violino desafinado
e infestado de cupins: gargalha a boca de moles gengivas ao som dos gemidos
do arco às cordas. Que toca, desejo saber? Inaudíveis sinfonias,
reconhecidas apenas por si. E dança a velhinha a polca imaginária:
rotas chinelas, gretados os pés. Carrega consigo tão alvos cabelos,
tão pobre vestido, tão poucos desejos. Mira seu homem que toca
contente, ternura e lembrança do amante de ontem. Para onde migrarão,
depois, tão flácidos corpos? À cama de tábuas, ao
estrado de palha?
Busco o alento nas pias batinas ou sob o hábito da freira que me sorri
todas as manhãs: os olhos devassos, as mãos e o rosário.
É tenra. Escuta minha pele, arranha minha alma; amor nervoso às
sombras dos muros. Não é o caso, agora; é claro o dia e
os muros, iluminados, refletem sombras passageiras e apressadas. A polca, meu
deus! A polca, das pernas de canelas tão finas! Como dançam as
pernas e os braços que abraçam o vazio! É praça,
e há toda esta multidão de juízes que reconhece a loucura
ao ritmo de palmas, balança a cabeça e abandona centavos. Pálida
razão de multidão que pasta em nossas cidades.
Há sempre uma história e muitos destinos: violino encontrado na
lata de lixo. Sim, e a lembrança das notas fluídas em som, por
que não? Arco improvisado, cordas choradas; e a velhinha que chega curiosa,
escuta e entende que o dia chegara: há amores tardios. Assim, três
eram os destinos - o velho, a velha e o violino - estes que vejo em minhas lembranças
confusas. Estão aqui, neste banco que buscam meus olhos, nestes pombos
que ciscam o chão, ainda que praça vazia, ainda que mortos se
vão. Estão aqui, as mesmas mãos carinhosas, de senhora,
que domaram seu rosto magro, tomaram seu corpo ralo, ensinaram-lhe o amor. Por
isso sorri o sorriso de velho maluco? Não, de velho feliz, suponho, que
conheceu a quentura de dormir abraçado e do passado lembra apenas os
muitos violinos que seus dedos já tocaram. Não o reconhecem os
músicos da filarmônica por trás de toda aquela barba, por
trás de todo aquele riso. Siso, esperam sempre os que de sério
se supõem. Não o reconhecem, portanto, em toda aquela praça
tão sua, naqueles trapos tão seus. Passam senis, com suas tubas
e flautas, suas cordas e percussões, ensimesmados e murchos, olhos no
palco buscando aplausos, no anonimato da razão e do conjunto da orquestra.
"Quem vai lá - perguntam alguns - com os cabelos desgrenhados?"
"O tocador de tuba" - respondem uns, "O que soa a flauta"
- afirmam outros. "Quem está cá?" - indago. "O
velho do violino e sua velha dançarina" - sabem todos. Estão
identificados na identidade do desvario.
Este verso urbano que sempre vi dependurado à sacada, preso às
esquinas, esparramado sob os semáforos, diluído nestas lembranças
confusas; viu-o esta que ora dança, e soube tomá-lo. Não
o velho que meus olhos enxergam, mas de antanho o músico, dos tempos
da tez louçã da atraente mulher que era: primeira fileira, poltrona
central, suspiros perdidos no palco, naqueles olhos que nunca a viram, nos nervos
atentos à música, o corpo teso na cadeira. Como era bonito então!
E bonito lhe parece agora, também, porém seu! Dança-lhe
de dia, compartilham o pão, a pobreza e a cama, e o recebe, ela, em seu
corpo, tais quais arco e violino seus dedos delicados.
Anseio este poema onde busco enternecer-me: choque no concreto. Anseio piegas
de chorar baixinho e sentir o alento do sol. Procurava-no ela: o poema e o profeta
que roubara seu futuro. Tomou-lhe neste presente que vejo passar, aleatório
e espectral, pelas retinas da memória. É bonita esta história
que nunca aprendi a contar, que nunca souberam entender: viam apenas a miséria
das roupas, o encardido desta que deveria parecer respeitável barba,
o desarranjo do som e a flacidez da sua senhora. Sua senhora, enfim! Era tudo
que viam, porém - doença, demência e fome - , esta multidão
apressada e aprisionada em sua significância de gado. No entanto, a honra
do abandonar do dia quando se punham em marcha aos lares infaustas massas dispersadas
nas calçadas - tão cansadas! Recolhia seu caixote e seu instrumento,
ele; ela, recolhia seu homem ao peito, e caminhavam lentos para onde minhas
vontades nunca me levaram: vaga alusão à tragicômica despedida
chapliniana. Andar curvado e claudicante, o dele; de princesa altiva, o dela,
que conduz um príncipe fatigado e seu violino sustentando sob o braço.
Hoje as lembranças estão confusas e as pernas se enroscam em um
tango solitário! Fujo das notícias embebidas em linfa, dos versos
de alcovas, dos prazeres em casta carne sob os muros. Tudo que procuro é
o alento deste encontro na praça: o velho, a velha e o violino, que já
não estão mais. Como também eu há tanto já
não estava. Tantos rostos que passam por esta praça. A alguns
pergunto para onde foram, mas ninguém nunca os vira. Àquela vendedora
de bonés, sim, que também por aqui andava naqueles tempos, que
tanto reclamava dos barulhos do violino que lhe afastavam a freguesia, pergunto
sobre o casal e seu instrumento, mas apenas me olha com a surpresa e piedade
com que se olha para um louco. Então nunca os houve? Nunca houve esta
história daquela moça ainda jovem, tão bonita, que sozinha
se sentava na platéia para o admirar amoroso do violinista já
maduro? Nunca houve esta história do desencontro e do vazio por tantos
anos, e da desrazão senil, o esquecimento, deste músico que certo
dia mirou no lixo o velho instrumento carcomido, improvisou-lhe as cordas, e
foi tocá-lo à praça, numa Curitiba que nunca conhecera?
Nunca houve esta senhora de peles flácidas, vestido pobre, finas pernas,
a encontrá-lo e reconhecer sob tanta barba e velhice o homem maduro que
nunca deixara de amar? Nunca houve assim, tampouco, a polca ao som indefinível
de uma sinfonia inteligível apenas aos ouvidos da sua imaginação?
Então nunca sentiu nosso músico o calor da carne, as mãos
e o prazer daquela sua bailarina? E o alento que este poema urbano - reescrito
a cada novo dia, as mesmas roupas, o mesmo som, a mesma dança - me trazia?
Também não houve este alento?
"Queria parir o poema dorido abortado nos lábios" - disse-o.
Descobri-me este poema abandonado em meio à praça estranhamente
vazia. Da sacada, aquela senhora me abana nudez e promessas. Quero subir as
escadas, bater-lhe na porta; a estrada, no entanto, devolve-me à praça
e ao violino desafinado e infestado de cupins, às moles gengivas, à
polca imaginária da sua senhora. Toca para mim, dança para mim!
E a chuva lava meu dia...