"Vais para onde?" - interpelou-me a voz as minhas costas. Era alto
e forte, mãos enormes, cabelos longos e oleosos. Um viking!
O sol a pino torrava-me paciências, e tudo que desejava era o fresco de
uma sombra ou a cerveja do primeiro boteco que me aparecesse. Não seria
prudente indicar destinos, porém. Não o conhecia!
"Vais para onde?" - implicou altivo e já flexionando o tom
para o imperativo. Por muito pouco não substituo a canhestra interrogação
por uma inclemente exclamação... em negrito! Estava muito próximo
de mim, e era uns três palmos mais alto. Suspeitei-lhe a presença
de algo nas mãos - uma arma? - ; abanava-as, entretanto, vazias e carentes,
e nos lábios aquele sorriso bobo.
"Vi que conversavas com o Bráulio, lá na pinacoteca. Eu pinto!"
Bem, já era algo. Frequentava a civilização, mediocremente
supus, e certamente não me comeria o fígado. Talvez apenas o desejo
de um laxante afagar de egos. Dir-me-ia cidadão culto por frequentar
pinacoteca em terra de tantas chaminés, e verborragicamente me cantaria
sua virtuosa carreira artística. Talvez, até, seria brindado com
uma minunciosa e grandiloquente narrativa a respeito de sua última natureza
morta, pintada com tintas alternativas produzidas a partir dos esgotos da cidade,
e aclamada como a grande revelação da arte extemporânea.
É, o sol torrava-me paciências, mas ele era um viking!
"Conversávamos. Vai publicar meu novo livro."
"Bom, muito bom. Também escrevo! Outro dia publiquei um poema, viste?
Saiu no Jornal. Lês o Jornal?"
Sim, leio o Jornal. Todos por aqui leem o Jornal. À propósito,
por estas bandas, há mais poetas que pessoas, e todos publicam no Jornal.
Um verdadeiro desperdício de palavras! Então a resposta seria,
naturalmente...
"... não costumo ler o Jornal, desculpe. Preocupam-me outras coisas."
"Entendo. Também não costumo ler toda essa podridão,
mas... publicaram meu poema, assim, há sempre algo de bom no Jornal."
"Pois é..."
Caminhávamos lado a lado, subindo a XV, sob aquele sol redundantemente
esturricante. Tão próximos caminhávamos que, pêndulo
que sou, a cada passo inevitavelmente lhe tocava o ombro com a cabeça,
já que manqueio da perna esquerda. Houve até, certa vez, uma senhora
de muitos saberes divinos a me explicar expiação de culpas em
vida pregressa, daí o castigo deste manquejar. Eu pecara muito e gravemente,
por certo, e agora estava lá, bamboleando feito bêbado e tendo
como muleta o ombro de um viking pintor que me dizia do seu poema.
Declamou-o!
Claro, não ouso reproduzir aqui os versos, tampouco contarei das suas
qualidades oratórias. Basta dizer que as rimas de sua lavra soavam-me
- a mim e a todos que, espantados, viravam seus rostos para saber a quem suposamente
matavam - como pedras imensas rolando montanhas. Devo confessar-me parvo, entretanto,
pois não apreendi bulhufas daquilo que quis dizer, mas ficou-me a impressão
de que devia ser melhor pintor que versejador, apesar de nunca ter-lhe visto
uma aquarela sequer.
"Bonito" - temerariamente respondi. Ele era um viking!
"Pois não é? Também escrevo contos."
De minha parte, antes que começasse a me encenar seus contos em via pública,
procurei apertar passo, inventar pressas e compromissos. Não houve jeito,
acompanhar-me-ia a destinos insólitos, ao inferno se necessário,
mas não me largaria.
"É a história do Zé Crente e da Dolores Consolação!"
"Hummm."
Inevitável, desfiou-me dramalhão envolvendo religião, preconceito
de cor e classe e muito palavrão. Entusiasmou-se tanto que eu mesmo não
sabia mais se ele falava comigo, com os outros ou se consigo mesmo. Apontava,
esbravejava, ofendia, bradava braços e dedos, chutava. Uma vergonheira
só! Tentei libertar-me da presença, afastar-me um pouco que fosse,
mas qual! Segurava-me pelo braço e me arrastava para si. O louquinho
e o manquinho, ô espetáculo circense na principal calçada
da cidade! Até parar, repentinamente.
"Moro aqui, quer subir?"
"Tenho compromissos."
"Quando quiser ver meus quadros, pode vir. Estou sempre por aqui."
Ao se virar e sumir no hall do pequeno edifício, notei-lhe aquele pequeno
detalhe que até hoje me intriga: faltava-lhe a orelha direita.