Entre uma carimbada e outra, seus olhos buscavam ansiosos os confins do corredor,
por onde deveria chegar o entregador da floricultura. "Flores para a senhora
Zuleica!" E Zuleica, ruborizada, levantava da sua mesa sem computador -
a única mesa sem computador naquela repartição - tropeçando
em suas pernas desengonçadas, coçando o buço do rosto,
recolhendo seu peito magro e surpreso. "Flores para Zuleica!", repetia
o coro de matracas corroídas pela inveja. Dia sim, dia não, o
entregador anunciava o mimo daquele admirador que Zuleica tão bem guardava
em seus segredos, sempre uma floricultura diferente, sempre as mesmas rosas
vermelhas. Zuleica, tão insignificante em seu trabalho de carimbar livros,
tão sem graça em seu corpo murcho, sob aquele buço infame,
naquela voz inaudível de funcionária servil. Mas havia a rotina
daquelas flores a torná-la notável, personalidade invejada. "Que
tens tu, Zuleica, que moves assim um homem a tantos agrados?", perguntava-lhe
a supervisora, que já proibira Zuleica a afronta de ostentar flores sobre
sua mesa - a única mesa sem computador naquela repartição.
E então Zuleica tomava do buquê, dia sim, dia não, no recôndito
dos seus braços magros, em abraço relicário, e voltava
para seus carimbos. As flores, guardava-as em vaso delicado - herança
de uma mãe que não a viu nascer - no chão atrás
de si. Ainda assim, escondidas e encolhidas a um canto do chão, emanavam
um certo brilho, uma sentença de desafio, uma onipresença que
obrigava a todas, as outras, tão bonitas e bem cuidadas, a cogitar mil
intimidades de Zuleica, dos segredos cerrados em seus lábios emudecidos,
sob sua pele pálida e mal nutrida. Mas Zuleica, tal qual uma Macabéa
de desdita já narrada, nasceu para a desventura e, certo dia, manhãzinha,
encomendava rosas na florista e ditava "escreve aí, para Zuleica,
amor da minha vida". Doutro canto da salinha, ali, recostada ao biombo,
escolhendo buganvílias, a supervisora sequer volveu o rosto. Reconheceu
voz e mistério: as rosas de Zuleica, são rosas de uma mulher sozinha.
Ao chegar na repartição, desfiados os "bom-dias", Zuleica
sentou-se a sua mesa - a única mesa sem computador naquela repartição
- e, entre uma carimbada e outra, seus olhos buscavam ansiosos os confins do
corredor, por onde deveria chegar o entregador da floricultura. "Flores
para a senhora Zuleica!" E quando Zuleica, ruborizada, levantou, tropeçando
em suas pernas desengonçadas, a supervisora sussurrou-lhe ao ouvido,
"estive lá, escolhendo buganvílias". Maldade insuportável!
Zuleica compreendeu tudo, a mentira que construíra, a humilhação
e as ironias. E antes que se esboçasse o primeiro riso de escárnio,
correu desesperada, com a vida mais vazia que nunca, correu à sacada,
projetou-se no vazio e encontrou a pedra fria.