| Viegas Fernandes da Costa |
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Sobre a nudez social
(Viegas Fernandes da Costa)
I - A genitália encoberta pela hipocrisia.
"Um nudista é uma pessoa que acredita que a indumentária
não é necessária à moralidade do corpo humano. Não
concebe que o corpo humano tenha partes indecentes que se precisem esconder",
dizia Dora Vivacqua (1917-1967), a dançarina que entrou para a história
do naturismo brasileiro sob o pseudônimo Luz del Fuego e como fundadora
do primeiro clube naturista do Brasil, na Ilha do Sol, Rio de Janeiro, em 1954.
Ativista da nudez social, Dora enfrentou o moralismo dos carolas de plantão
através da exposição da sua nudez à sociedade e
fundando um partido político - o Partido Naturalista Brasileiro - pelo
qual chegou a se candidatar ao cargo de Deputada Federal. Apesar de todos os
seus esforços, e do movimento que começou a se organizar a partir
da sua atuação, a prática do naturismo enfrentou (e ainda
enfrenta) muitas resistências em nosso país, tendo seus adeptos
sofrido a repressão dos militares, da Igreja, da sociedade mal informada
e daqueles que entendem a nudez humana como algo a ser explorado pela indústria
pornográfica.
Ao iniciar estas breves reflexões a respeito da minha experiência
com a nudez social, ocorre-me à lembrança uma matéria da
revista Veja do final da década de 1990, que tratava da guerra civil
na Libéria. Chamou-me especial atenção uma fotografia que
exibia o cadáver de um homem nu que havia sido linchado pelos guerrilheiros
e abandonado à rua. Podia-se ver todo corpo, suas feridas, a expressão
de dor na face inerte e as lanhuras nos braços e pernas. Sobre o pênis,
entretanto, uma espécie de tarja. Fiquei me perguntando o que seria mais
obsceno: se a guerra civil e toda sorte de dor e destruição que
esta provoca, onde cadáveres humanos são abandonados insepultos
em meio à população que desesperadamente tenta sobreviver;
ou se a exposição de um pênis aos olhos de leitores pudicos
que poderiam se escandalizar, dando uma conotação sexual doentia
a uma parte de um corpo humano barbaramente torturado e morto. Encaramos com
naturalidade a guerra, o genocídio, a desestruturação social
e a tortura, mas a nudez que nos cobre desde nosso nascimento é desnaturalizada
ao ponto de um pênis supostamente chocar mais que a própria barbárie
da guerra. Há, aqui, certamente, uma inversão de valores sobre
a qual devemos nos questionar e incomodar.
Ao ler artigos de naturistas portugueses, deparo-me com a expressão "sociedade
têxtil", que sempre considerei pertinente e que pode ajudar a explicar
a aversão da exposição da nudez total do corpo humano em
sociedade para além do moral. Em 2008 Viviane Castro desfilou no carnaval
carioca pela escola de samba São Clemente, "vestindo" apenas
um tapa-sexo de três centímetros. Não fossem esses três
centímetros, a passista seria considerada nua e sua escola perderia pontos
junto aos jurados. Em ensaio intitulado "O casaco de Marx", Peter
Stallybrass escreve que, em uma sociedade capitalista, a mercadoria "torna-se
uma mercadoria não como uma coisa, mas como um valor de troca. Ela atinge
a sua mais pura forma, na verdade, quando ela é mais esvaziada de particularidades
e de seu caráter de coisa". Para exemplificar sua afirmação,
Stalybrass se utiliza dos usos que Karl Marx fazia do seu casaco; aqui, entretanto,
quero me valer do tapa-sexo de três centímetros "vestido"
por Viviane Castro. Afinal, qual a função representada pelo tapa-sexo
em questão? Vestir? Cobrir uma nudez? Acaso o corpo de uma mulher restringe-se
somente à vagina? À que ordem ou economia pertence a obrigatoriedade
do encobrimento da genitália, ainda que ínfimo, nos regulamentos
do carnaval carioca, uma festa popular que explora a sexualidade de forma tão
explícita? Da mesma forma nos questionamos a respeito da moda que propõe
transparências, principalmente no vestuário feminino, permitindo
o vislumbrar dos seios e outras partes do corpo até então escondidas
por tecidos opacos, sem entretanto fazer com que julguemos nua quem as veste.
Está vestida de transparências, mas está vestida. Assim,
qual a função da transparência na sociedade têxtil?
O que faz com que uma mulher ou um homem sintam-se vestidos na praia, ainda
que trajando minúsculos biquínis e sungas?
Certa vez ouvi um historiador da indumentária dizer que a moda ainda
cometerá muitas ousadias, entretanto, jamais a de propor, seriamente,
a nudez total para o ser humano, sob o risco de destruir a si e à indústria
que alimenta. Tinha razão. O que liga o tapa-sexo, o casaco de Marx,
as roupas transparentes, as sungas e os biquínis ínfimos é
justamente o fato de estarem esvaziados do seu caráter de coisa, como
disse Stalybrass. Tais objetos são, na realidade, representação,
e possuem um caráter de mercadoria. O uso que fazemos deles, enquanto
mercadoria, nem sempre corresponde a uma certa função de coisa
que lhes possa ser inerente. Viviane Castro não "vestiu" o
tapa-sexo de três centímetros para cobrir sua nudez, mas para atender
às exigências de um discurso; da mesma forma que Marx não
utilizava seu casaco para exclusivamente se proteger do frio, mas também
para aparentar distinção a fim de que pudesse ser aceito na biblioteca
onde fazia suas pesquisas. Quando vamos à praia vestidos de fios-dentais
e sungas, oficialmente estamos atendendo também a uma ordem discursiva
de pudicícia; entretanto, não é exatamente pudico nosso
critério de escolha quando estamos em uma loja comprando a roupa de praia
para o próximo verão. Todos sabemos o quanto uma roupa pode fetichizar
nosso corpo, e é este poder de fetichização que muitas
vezes buscamos quando nos postamos diante do espelho de um provador. Assim,
ao escondermos, mostramos, e na maioria das vezes mostramos algo que não
existe senão no desejo, seja no de exibir, seja no de ver. Não
quero aqui, porém, incorrer no mesmo equívoco que critico. A fetichização
estimulada pela indumentária não é, em si mesma, algo errado,
desde que compreendida em sua dimensão cultural. Se a roupa me serve
como instrumento de representação social, devo reconhecer tal
fato, e não naturalizá-lo sob um discurso hipócrita que
imputa aos genitais sujeira e vergonha. "Vergonhas" era como Pero
Vaz de Caminha se referia às vaginas das nativas em sua carta de "achamento"
ao rei de Portugal: "ali andavam entre eles três ou quatro moças,
muito novas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos, caídos pelas
espáduas, e suas vergonhas tão altas e tão cerradinhas
e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não
tínhamos nenhuma vergonha". Vejamos, Caminha está impregnado
do discurso do seu tempo, ainda assim conclui dizendo que não tinham
eles, europeus cristãos, vergonha alguma em contemplar a nudez dos nativos.
Compreendeu Caminha que um corpo socialmente nu, que assume assim sua condição
integral de corpo ante os olhos do outro, deixa de ser apenas uma vagina, um
pênis ou um par de seios?
O poder econômico reprimiu nossa nudez e agora pode vendê-la; o
poder simbólico da ética judaico-cristã, moldada no elogio
da dor e da carência, reprimiu nossa nudez, desejos e prazeres para assim
melhor nos disciplinar. Disciplina que nos move para a guerra e para a fábrica;
economia que nos fragmenta, fetichiza e transforma em mercadoria. Ao fim restamos
como aquele cadáver fotografado, abandonado nas ruas da Libéria,
a genitália encoberta pela hipocrisia.
II - Despindo espartilhos.
Quando me propus escrever um depoimento a respeito da minha experiência
com a nudez social e comunidades naturistas, não pretendia tanta tergiversação
sobre a nudez e a sociedade têxtil. Entretanto, faz-se necessário
compreender que despir-se das vestes no seio de uma coletividade implica não
apenas assumir e respeitar seu próprio corpo, bem como afrontar toda
uma ordem discursiva que entende existir no corpo o contrário daquilo
que defendia Dora Vivacqua, ou seja, que portamos partes pudendas, vergonhosas,
sujas e incontroláveis, e que por isso mesmo devem permanecer resguardadas
para a intimidade. Ordem discursiva inerente aos interesses materiais e simbólicos
do nosso tempo e sociedade. Tenho consciência da falta de ineditismo das
reflexões que trago aqui, afinal, a discussão sobre a nudez social
é antiga nas sociedades ocidentais (e há sociedades onde esta
discussão sequer se faz necessária, pois jamais alijado o corpo
do direito à nudez), tendo os movimentos de nudismo se organizado, na
Europa por exemplo, desde o início do século XX.
Ainda assim, no Brasil, a nudez social é mal compreendida e resiste muito
preconceito em relação ao tema e seus adeptos. Após o assassinato
de Luz del Fuego, em 1967, o então chamado movimento naturalista começou
a se dispersar, e sobraram alguns poucos adeptos do nudismo, que enfrentavam
a marginalização e se entregavam à prática em praias
de difícil acesso, estado agravado pela ditadura militar brasileira.
Segundo narra Celso Rossi, em seu livro "Naturismo: a redescoberta do homem",
foi apenas a partir da segunda metade da década de 1980 que um movimento
organizado, autointitulado naturista, começou a se desenvolver a partir
da Praia do Pinho, no litoral catarinense. À época a Praia do
Pinho, localizada no município de Balneário Camboriú, era
acessada por uma estrada de terra bastante íngreme e em péssimo
estado de conservação, o que atraía os praticantes da nudez
social para aquele local, já que tornava-o pouquíssimo frequentado.
Após uma reportagem sensacionalista da revista Manchete, em 1984, a Praia
do Pinho foi apresentada ao país como um local onde pessoas nuas tomavam
banho de sol e mar, atraindo para lá toda sorte de curiosos e a atenção
das autoridades públicas e das forças de repressão. Como
resposta à invasão de curiosos e à repressão aos
naturistas frequentadores do Pinho, alguns destes começaram a organizar
um movimento que, em 1986, resultou na Associação Amigos da Praia
do Pinho e na redação de um Código de Ética Naturista.
Dois anos depois, em 1988, ainda a partir do Pinho, foi fundada a Federação
Brasileira de Naturismo (FBrN). Como se vê, uma história bastante
recente. Segundo o "Guia brasileiro de naturismo", publicado na edição
de número 10 da revista "Brasil Naturista" (dezembro/2010),
são pouco mais de vinte as áreas onde a nudez social é
legalmente institucionalizada e praticada em todo território nacional,
e estima-se em aproximadamente 300 mil o número de naturistas brasileiros
declarados.
Foi justamente na Praia do Pinho, há poucos anos, que, acompanhado de
minha esposa, passei a experienciar a nudez social. Experiência e vivência
que pretendo brevemente discutir agora.
Considerando o fato de vivermos inseridos em uma sociedade profundamente hedonista,
onde o culto a um corpo "perfeito", padronizado nos discursos da moda,
da mídia e da medicina estética, leva uma imensa quantidade de
pessoas às academias de ginástica, mesas de cirurgia e aos balcões
das lojas de suprimentos alimentares e inibidores de apetite, o imaginário
a respeito da geografização do nosso corpo muitas vezes potencializa
nossas neuroses e nosso medo da nudez. Ou seja, além de toda a ordem
discursiva que procura cercear nosso direito à nudez, tememos também
nos despir por nos acharmos feios e disformes. Que nossa nudez agredirá
o olhar do outro não apenas pela nudez em si mesma, mas porque nosso
corpo nú, em particular, não condiz com uma norma estética,
arbitrariamente idealizada, mas que muitas vezes reconhecemos como socialmente
legítima. Internalizamos a crença de que estar fora desta idealização
agride não apenas ao olhar que busca o "belo" em meu corpo,
mas que permite ao outro me julgar não apenas como feio, mas também
como um desleixado, por ter permitido que a indisciplina moldasse minhas carnes,
ou, e ainda pior, como um fracassado, já que não perseverei no
"cuidado de mim". Assim, despir-se das vestes em público significa
ato não apenas de ruptura com uma moral que encontra em nossos corpos
partes pudentas, naturalmente obscenas, e por isso necessárias de serem
encobertas, como já discutimos, mas também ato de assunção
do próprio corpo enquanto estrutura integral e natural, apesar de todas
as interferências culturais que sobre si recaem. Conviver socialmente
com o corpo completamente descoberto significa, também, compreender uma
mudança de valoração social. Enquanto sujeitos múltiplos,
continuaremos representando papeis, ainda que nús; porém, o fetiche
que a sociedade têxtil imprime sobre nossos corpos através da indumentária
e do jogo de esconder e revelar que esta estimula, na prática da nudez
social dá lugar a outro nível de valoração, que
considera o sujeito naquilo que este diz e na maneira como age no interior do
grupo. Persistem com a prática da nudez social - não sejamos românticos
- camadas de preconceito para consigo e para com o outro; entretanto, a primeira
camada de julgamento social que tecemos quando avistamos alguém trajado
com sua fantasia no seio de uma sociedade têxtil, desaparece. Serei julgado
quando me fizer conhecer, e não apenas pelas etiquetas que exibo afixadas
nos panos que me cobrem. E o que parece um gesto breve, de pouca importância,
resulta em um processo de novos despires onde pré-conceitos podem dar
lugar a relações pautadas por conceitos, construídos a
partir do conhecimento, do diálogo e da interação. Conceito
que construímos não apenas a respeito do outro, bem como a respeito
de nós mesmos; ou seja, a nudez social estimula a alteridade.
Sabemos, portanto, do quão transgressor pode se caracterizar o gesto
de tirar a roupa e conviver socialmente sem esta. Insisto lembrar que o caráter
transgressor da nudez está relacionado com o contexto social em que se
insere, em nosso caso, a sociedade têxtil. A transgressão e ousadia
do ato parece ainda maior quando se trata de corpos que a sociedade classificou
como "defeituosos ou deficientes". Ou seja, que por alguma característica
que manifesta, afasta-se da imagem que temos de um corpo normal, construída
em nosso imaginário. Digo isso de experiência própria, já
que carrego em meu corpo as marcas de uma doença neuromuscular que me
atrofiou os membros inferiores e superiores, e provocou "deformidades"
em minha coluna e tórax. Então, além da necessidade de
se desconstruir todo discurso moralista, higiênico e jurídico que
recai sobre a nudez social, a pessoa, cujo corpo se apresenta marcado por "deformidades",
necessita desconstruir o estigma que internalizou a partir de uma série
de discursos limitadores e deformadores do portador de direitos especiais. Ao
dizer isto, ocorre-me o caso de Emma Müller, filha do naturalista alemão
Fritz Müller (1822-1897), radicado no Vale do Itajaí a partir de
1852. Emma possuía uma doença que lhe afetou o desenvolvimento
físico e mental, e era, por este motivo, afastada do convívio
social. Este caso chama ainda mais atenção quando sabemos que
Fritz Müller, renomado cientista, foi um dos principais defensores da teoria
evolucionista desenvolvida por Darwin. Temos consciência que situações
de afastamento social, como no caso de Emma, não eram exceções,
mas regra, no século XIX; e que apesar de todos os avanços jurídicos
e de todas as mudanças culturais que presenciamos em nosso país
naquilo que se refere aos direitos e às condições das pessoas
portadoras de direitos especiais, ainda agora, em pleno século XXI, aquele
que carrega no corpo os estigmas de uma doença ou trauma físico
precisa lutar não apenas contra o preconceito social, mas principalmente
contra os estigmas que internalizou e assumiu como reais. Se Malcom X ensinou
às mulheres negras estadunidenses a se olharem no espelho e se reconhecerem
enquanto belas, da mesma forma, cada sujeito, independente de suas "marcas
pessoais", deve aprender o mesmo.
Peço desculpas ao leitor se me estendi em demasia para dizer o que parece
óbvio, mas ao pensar a respeito da minha experiência particular
com a prática da nudez social, primeiramente na Praia do Pinho (um balneário
preponderantemente turístico), e posteriormente na Colina do Sol (uma
comunidade naturista), necessitei compreender as razões das dificuldades
do ato de me despir, ainda que muito o desejasse; e percebi que tais razões
perpassam toda uma teia que imbrica discursos e estratégias que se configuram
no político e no pessoal, e que contribuíram na minha subjetivação.
Ao compreender isto, percebi então a dimensão libertadora da nudez
social. Libertadora porque contribuiu, primeiramente, para um processo de reconhecimento
e aceitação pessoal, o que alterou estruturas internas, psicológicas.
Ao me aceitar com todas as marcas que me constituem e me apresentam aos olhos
do outro, nego a este outro o direito de me envergonhar, porque não há
corpo que não carregue sua parcela de "graça" e "desgraça".
Quando despidos dos espartilhos contemporâneos, das vestes que nos imprimem
uma ortopedia social, percebemos que não há liberdade na idealização,
que o verdadeiro "Frankenstein" é aquele que obedece a todas
as medidas, e que não pode, portanto, ser humano, ainda que tocado pela
civilização. Só há "graça" na diferença,
pois apenas a diferença pode oportunizar a conciliação,
o congraçamento.
Assim, ao despir-me, na Praia do Pinho, reconheci a "graça"
em mim, o "cuidado de si" não para atender às necessidades
estéticas do outro, mas para a minha conciliação comigo
mesmo, em um processo de reconhecimento da minha integralidade. Da mesma forma
como o corpo de Viviane Castro não se resume à vagina, o meu não
se resume ao pênis ou aos pés atrofiados, por exemplo, que até
então escondia dos olhos que não fossem meus. Daí este
sentido libertador que a nudez social significou para mim, e que se aprofundou
depois que passei a frequentar a comunidade naturista Colina do Sol, no município
gaúcho de Taquara. Em vida comunitária, a nudez social estabelece
outros tipos de relações, ainda mais honestas, e as possibilidades
da assunção integral de si são maiores e mais intensas.
Agora, ao finalizar estas linhas, recordo-me de uma situação que
talvez possa sintetizar o que procurei compartilhar aqui. Há algum tempo,
quando conversando com amigos a respeito da prática social da nudez,
expliquei que em minha residência, na maior parte do tempo, não
vestia qualquer tipo de roupa, e quando acaso aparecia alguma visita, era assim,
nu, que a recebia. Neste momento um amigo interpelou-me, argumentando que tal
prática não era adequada, já que eu deveria respeitar minhas
visitas. Penso que foi justamente esta fala deste amigo que me levou a escrever
estas linhas. Tal qual Dora Vivacqua, também não posso conceber
que o corpo humano tenha partes indecentes que se precisem esconder. Nasci nu,
e nu fui primeiramente reconhecido. Desrespeito seria, portanto, aceitar que
alguma parte minha deve causar vergonha a um amigo, que algo em meu corpo é,
em essência, imoral ou indigno. Afinal, neste caso, a depravação
não está na carne que se mostra, mas no olhar que julga.
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