A Garganta da Serpente
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Canção do Exílio e da Viuvez

O sanhaço migrado de outras longitudes,
e mesmo assim completo em seus dons de plumagem,
canta, altaneiro, as dores e meiguices
de seu exílio e viuvez.
Vara a madrugada da Aveninda Jamaris,
a lamentar em bemóis e sustenidos a saudade
dos dias e noites idos e vividos
em outras eras e plagas,
bem mais folhosas e bandeadas,
a lamentar a perdição em que se eancontra,
sozinho na escuridão dos arcos voltáicos,
assim cercado de espigões recheados de outros sonos e sonhos,
entremeados de labirintos e currais na parte baixa,
de estrelas e janelas e aragens na parte alta,
a lamentar a solidão
de sua peregrina e precoce viuvez.

E mesmo assim exilado na pétrea carpideira,
ele canta a perda dos bens naturais,
criando outros bens em seus trinados.
Nem sabe mais o rumo das paineiras do Ibirapuera,
nem do sítio das codornas e dos inhambus,
nem das sumidas palhadas de outros sertões.
Abismado na amplidão da floresta petrificada, pousado no mais alto dos edifícios das alamedas
(das hoje extintas tribos indígenas e das ninhadas passarinheiras),
dos mesmso ainda assim vivos recantos
de moemas, de jardins, dos morumbis e tietês,
ele canta, canta e canta!



Lázaro Barreto

(Mineiro que ama São Paulo)
postado em 09/3/06
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