Canção do Exílio e da Viuvez
O sanhaço migrado de outras longitudes, e mesmo assim completo em seus dons de plumagem, canta, altaneiro, as dores e meiguices de seu exílio e viuvez. Vara a madrugada da Aveninda Jamaris, a lamentar em bemóis e sustenidos a saudade dos dias e noites idos e vividos em outras eras e plagas, bem mais folhosas e bandeadas, a lamentar a perdição em que se eancontra, sozinho na escuridão dos arcos voltáicos, assim cercado de espigões recheados de outros sonos e sonhos, entremeados de labirintos e currais na parte baixa, de estrelas e janelas e aragens na parte alta, a lamentar a solidão de sua peregrina e precoce viuvez.E mesmo assim exilado na pétrea carpideira, ele canta a perda dos bens naturais, criando outros bens em seus trinados. Nem sabe mais o rumo das paineiras do Ibirapuera, nem do sítio das codornas e dos inhambus, nem das sumidas palhadas de outros sertões. Abismado na amplidão da floresta petrificada, pousado no mais alto dos edifícios das alamedas (das hoje extintas tribos indígenas e das ninhadas passarinheiras), dos mesmso ainda assim vivos recantos de moemas, de jardins, dos morumbis e tietês, ele canta, canta e canta!
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