Viegas Fernandes da Costa |
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Notas sobre a literatura catarinense 05: Os cruzeiros de Urda Alice Klueger
(Viegas Fernandes da Costa)
Ao observarmos a história da literatura produzida a partir de Santa Catarina,
percebemos a força do seu caráter fálico. Em outras palavras,
percebemos o quanto nomes masculinos hegemonizam, no transcorrer do tempo, o
fazer literário catarinense. Poucas são as escritoras que figuram
no cânone literário deste Estado, no qual se destacam Delminda
Silveira de Souza (1854?-1932), Maura de Senna Pereira (1904-1991), Lausimar
Laus (1916-1979) e Eglê Malheiros (1928). A estas autoras podemos incluir,
mais recentemente, o nome de Urda Alice Klueger, nascida no município
de Blumenau em 1952 e atualmente em plena atividade literária e acadêmica.
Urda estreou na literatura em 1979, com o romance "Verde Vale", seu
livro mais conhecido e que já conta com mais de dez edições.
Depois de "Verde Vale", publicou "As Brumas Dançam Sobre
o Espelho do Rio" (1981), "No Tempo das Tangerinas" (1983), "Te
Levanta e Voa" (1988), "Cruzeiros do Sul" (1992) e "Sambaqui"
(2008) - todos romances. A autora escreveu também livros de crônicas
(destaque para "No Tempo da Bolacha Maria", de 2002), relatos de viagens
(destaque para "Entre Condores e Lhamas", de 1999), além de
literatura infantil e historiografia. Sua obra vasta e de gêneros diversificados
tem sido objeto de estudos acadêmicos e da crítica literária,
cuja apreciação não é unânime: há quem
reconheça na prosa de Urda Alice Klueger inovação e qualidade
literária; e há outros, como Antonio Hohlfeldt, em que a crítica
aponta para problemas estruturais e pouca inovação. Divergências
a parte, inegável é a importância do conjunto da obra de
Urda Alice Klueger na conjuntura cultural catarinense e grande é a quantidade
de leitores que acompanham suas publicações.
A ficção de Urda sempre esteve muito associada à temática
da imigração germânica no Vale do Itajaí, principalmente
quando tratamos dos seus primeiros títulos. Entretanto, há um
diferencial entre o texto desta escritora e o de outros autores que abordam
o tema de forma mais ortodoxa, como é o caso, por exemplo, de Gertrud
Gross-Hering (1879-1968). Já desde "Verde Vale", Urda procura
trabalhar o elemento germânico miscigenando-se aos demais grupos étnicos
presentes na região, e a miscigenção é sempre um
ato de ousadia, um enfrentamento social que tende ao aprimoramento material
da sociedade e ao seu desenvolvimento civilizatório. É o descendente
de alemães que se relaciona com o negro, com o índio, com o italiano
ou com o brasileiro; seus personagens exercitando, assim, a democracia racial
defendida por Gilberto Freyre (1900-1987). Não há, portanto, no
universo ficcional de Urda Alice Klueger, o retrato de uma colonização
de raiz identitária única, mas a construção de uma
sociedade rica porque resultante do encontro multiétnico. A este respeito,
manifestou-se a autora em entrevista ao "Sarau Eletrônico" em
2008:
"Tive contato com a obra do Gilberto Freyre depois que escrevi 'Verde
Vale' e 'No Tempo das Tangerinas'. Parece que ganhei um rótulo: a escritora
que escreve sobre Blumenau e sobre o alemão. As pessoas esquecem dos
meus livros que são totalmente diferentes. Acho que o que pegou foi a
miscigenação que havia dentro da minha casa. Nós éramos
híbridos em tudo: culturalmente, etnicamente e religiosamente. E as rejeições
que minha mãe sofreu refletiam muito na gente. (...) Tenho lembrança
de aniversários, casamentos, dessas festas que reúnem toda a família.
Nós éramos três meninas muito bonitinhas, e pessoas da família
me pegavam no colo e diziam: "estás vendo essa aqui, como é
bonitinha? É do Rolando!" - que era meu pai. E aquilo tinha toda
uma carga de preconceito. Ela era do Rolando, mas era também filha da
brasileira. Isso reflete profundamente em mim, tanto é que nunca me senti
alemã, mas sempre uma brasileira de muitas origens. E a partir de um
certo momento, além de brasileira, passo a me sentir americana. Hoje,
se me perguntarem, não diria cidadã do mundo, mas cidadã
da América."
Além de Gilberto Freyre, é possível encontrarmos outras
referências autorais em sua obra, notadamente de Érico Veríssimo
(1905-1975), com sua saga "O Tempo e o Vento"; e do norueguês
Knut Hamsun (1859-1952), com seu romance "Os Frutos da Terra". De
Veríssimo a predileção pela saga histórica, e de
Hamsun a força do trabalho humano domesticando a natureza e construindo
a civilização. Todos esses elementos que elencamos aqui aparecem
com muita força no romance "Cruzeiros do Sul" que, acreditamos,
constitui-se no livro mais rico e bem construído de Urda Alice Klueger
até o momento. O título tem importância especial se considerarmos
o fato de "Cruzeiros do Sul" marcar uma ruptura ideológica
na produção da autora. Diferentemente dos textos anteriores, a
construção idílica da narrativa sofre a irrupção
de um realismo cruel e desestruturador dos acordos sociais, como que se "Germinal"
de Émile Zola (1840-1902) passasse a ditar as palavras até então
paridas por Hamsun.
Quando Urda escreve "Cruzeiros do Sul", o Brasil recém sofrera
o choque econômico do Plano Cruzado, promovido pelo governo José
Sarney em 1986. Enquanto bancária (profissão que exerceu até
sua aposentadoria), a autora presenciou o desespero daqueles que venderam suas
propriedades rurais, aplicaram o dinheiro na poupança a fim de viverem
da correção monetária e, depois do novo plano econômico,
viram sua segurança financeira desaparecer. É procurando contar
a história dessas famílias, cuja origem estava no campo, que a
autora retrocede no tempo e, flertando com a historiografia, passa a narrar
a história daqueles que descenderam do encontro, ainda no século
XVI, da índia xokleng Madjá-Aiú e do degredado europeu
"Cabelo Amarelo", e que participaram da construção de
Santa Catarina. Assim, o "cruzeiros" do título torna-se duplamente
referente: a constelação sob a qual se desenrola a narrativa e
a moeda, cujo desaparecimento abrupto, interrompe uma trajetória familiar
que até então parecia destinada à felicidade.
Se por um lado "Cruzeiros do Sul" reproduz alguns clichês do
romantismo literário e omite alguns eventos importantes da historiografia
catarinense (como a Guerra do Contestado), por outro, constitui-se enquanto
marco na obra da autora e na literatura produzida a partir de Santa Catarina
justamente por este seu caráter de ruptura e de denúncia social.
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