| Cláudio B. Carlos (CC) |
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A degola
(Cláudio B. Carlos)
Eu gostava de ver. Sentia uma espécie de gozo, que só experimentava
quando via o sangue escorrendo pelo pescoço rasgado. O capim ficava salpicado
de um vinho forte. As folhas dos eucaliptos, que secas, eram trazidas pelo vento,
se borravam de sangue. O brilho que sumia, aos poucos, dos olhos amendoados,
arrepiava-me. Eu gostava daquele espetáculo. Não era por mal.
Eu não sabia que era um menino mau. Ficava ali, acocorado, bem perto,
vendo a ovelha dependurada pela perna. Eu não sabia muito bem o que acontecia,
não imaginava que era ela, a vida, que se esvaía. Hoje em dia
é bem melhor: além de ver o sangue que escorre, posso, às
vezes, sentir a alma saindo dos corpos. Não via isso nas ovelhas: bicho
não tem alma...
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