A Garganta da Serpente
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Heloisa

(Celso Cavalcanti)

- Abortar?

- Sim, abortar.

- Ficou maluco?

- Maluco é ter filho agora. Você acha que tenho alguma condição?

- Ninguém nunca está preparado. Eles simplesmente vêm!

- Vêm coisa nenhuma. Você é que não tomou cuidado.

- Eu? Está querendo dizer que a culpa é só minha?

- Claro que é. Eu sou homem.

- Olha aqui, Joaquim, não vou abortar coisa nenhuma. Se você não quiser, eu vou ter esse filho sozinha. Vá para o inferno!

- Peraí, Telminha! Tenta compreender a situação...você não tem nem onde cair morta, mora com seus tios, de favor. E eu, nem emprego tenho. Como é que a gente vai sustentar uma criança?

- Sei lá, arranja um emprego, se vira! Você não foi homem pra fazer? Agora tem que criar!

- Ai meu Deus, meus pais vão me matar!

- Tá com medo do papai agora, é?

- Olha aqui garota, não posso ter filho. Para o seu bem e para o meu, é melhor abortar.

Telminha não abortou. Hoje, com dois anos de idade, a pequena Heloísa mora com o pai, Joaquim, na casa dos avós. É a princesa da família, e gosta de se arrumar toda para esperar a mãe, Telminha, que toda noite vem dar sua mamadeira e colocá-la para dormir.

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