| Carlos Vilarinho |
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A crise de seis mortes
(Carlos Vilarinho)
A coordenação pedagógica e o seu coordenador mantinham-se
fechados e intransigentes. Uns falavam que a demissão seria geral, outros
em parte. O diretor administrativo falava manso, mas não se engane, era
traiçoeiro até o último suspiro da alma. Eu, absorto, degustava
um clássico literário, sorvia com desconfiança as nuances
do ser humano, os traumas, traições, ciúmes, enfim toda
a gama de sentimentos que nos envolve. Certo momento, ouvi meu nome, um chamado,
uma pronúncia, um grito amoroso, ao longe, ecoando sinuosamente.
- Rodolfo, Rodolfo, vem cá, amor. Vem, vem logo.
Até então, não me passava pela cabeça que ali, um
ambiente envolto numa atmosfera bélica, havia alguém querendo
me ver daquela forma amorosa. Era uma voz feminina, suave, doce, melodiosa e
conhecida. Tentei conter-me, seria imaginação?! Quem ali queria
me ver de forma apaixonante e divertida naquele tumulto demissionário?
Contive-me, porém havia uma dúvida na minha alma, uma dúvida
paradoxal: a certeza angustiante, a felicidade de um sonho tomado da leitura
que fazia, ou uma lembrança infeliz?
- Rodolfo, Rodolfo!(Risos) Vem até aqui é raso. Levantei-me num
rompante entusiasmado, meu coração dava pulos de ansiedade, angústia,
saudade repentina e esperançosa. Fui até a esquina do corredor,
onde estavam as salas do pré-vestibular e de onde vinha aquela voz enigmática
e hipnotizante. Senti uma forte emoção ao ouvir renitentemente
meu nome sendo repetido. Estranho as alternâncias de estado, em dado momento
senti todo o meu corpo vibrar e em frações de segundos penetrava
em outro estado emocional, uma espécie de volúpia que não
sei explicar; lembrei-me dos escritores e suas criações. Subi
um lance de escada e olhei ao fundo do corredor, somente salas vazias, silenciosas
e tristes sem alunos.
- Rodolfo, meu amor, Rodolfo, por que não vem? Me dá sua mão.
O eco continuava, porém agora, com uma ponta de mágoa, medo de
algo desconhecido e aterrorizante. A hipnose foi quebrada por instantes pela
algaravia que vinha da secretaria, protestos, choros, histerismo. Uma professora
grávida tinha sido demitida.
- Absurdo! Ele é um monstro!!!
- Tantos anos alfabetizando, aturando os filhos dos outros e agora veja isso...
- Meu Deus! Meu Deus!
- Isso é por que ele não sabe o que é uma sala de aula.
- Éééééé... (uníssono)
- Fica enfurnado naquela sala frienta com a pança derramando na mesa,
espezinhando, fazendo atrocidades na vida de pessoas que suam para viver dignamente.
- Será que valeu a pena estudar numa universidade, se formar, ser um
profissional e agora engolir cobras e lagartos de um ignorante que nunca passou
no vestibular.
- Rodolfo, vem Rodolfo...
As falas se misturaram dentro de mim, senti um bolo na garganta, mais angústia,
mais ansiedade, fiquei nauseabundo e tive pena de mim mesmo, tudo muito estranho.
Continuei andando pelo prédio sem saber o que estava buscando. Meu filho
menor disse-me uma vez que conversou com o nada, falou que era amigo, sincero,
brincalhão, gostava de pregar peças nos outros. Era assim que
eu me sentia naquele momento. Será que era o nada?!
Como por instinto, o passado agarrou-se a mim novamente. Fui fraco, covarde,
não suportava a idéia da morte, tinha medo e a vida reservou para
mim a dura realidade de enfrentar o desaparecimento da pessoa que mais amei
em toda a minha vida e não consegui contornar essa infelicidade.O afogamento
foi horrível, fiquei paralisado sem saber o que fazer, o medo me aprisionou
e Lisa morreu.
- Rodolfo, socorro, me salva, socorro...
O som agora implorava por vida, era ela agonizando, angustiada. Parei no terceiro
andar, olhei ao redor e desabei num choro compulsivo, todo o orgasmo que sentia
ao ler, esvaiu-se e a solidão voltou a acompanhar-me. Lisa instalou-se
no meu pensamento, começava a ter a nítida impressão de
que tinha assinado meu certificado de infelicidade ao eminentemente deixar a
água devorá-la. Por quê só agora me dava conta, depois
de duas semanas do fato ocorrido? Ficara hipnotizado todo esse tempo? Ah, como
eu amava-a, nunca me decepcionou, sempre seguiu meus passos e completava a minha
alma.
Tinha certeza que essa má lembrança jamais me abandonaria, as
lágrimas caíam apertadas, espremidas pelo coração,
um vento forte chocava-se contra mim, levando o eco embora como as ondas a levaram.
PARTE II
Nocauteado pela demissão, assustado com o espectro, andei ao acaso,
errante pelo centro da cidade, aqui e ali, tudo sombrio, o tempo nublado e o
vento continuava forte. Terminei num bar da feirinha, o cheiro forte de gordura
e as moscas refletiam meu estado. Pedi um rabo de galo e entornei a metade.
Ao lado, um senhor grisalho me olhava, almejando meu copo.
- Quando se está no inferno o dia passa lentamente. Disse-me alquebrado
pelo álcool.
- Por quê? O que fez para pensar assim? Todos estamos ou passamos por
um inferno individual ou coletivo. Não sei porquê, mas acabei dando
atenção àquele estranho. Os religiosos dizem que nada é
por acaso e que nunca estamos sozinhos. Na verdade, não me sentia amparado
por uma força benigna, sentia sim algo ao meu redor, uma presença
perversa espreitando um momento, um momento ruim, infeliz, trágico.
- Minha mulher estava na cama com o pedreiro que trabalhava na casa do meu vizinho,
enquanto os gêmeos brincavam na cozinha perto do fogão, não
sei o que aconteceu, mas a água que fervia caiu no menino, isso traumatizou
a irmã que emudeceu e não fala nada até hoje, os dois sem
vergonha estavam tão entretidos no sexo que não viram nem ouviram
nada, quando cheguei encontrei o menino morto, a irmã paralisada e o
casal dormindo, meu grito foi de terror.
- Meu Deus!! Que tragédia horrorosa, que traição estúpida,
meu Deus, meu Deus!!! Ela que deve estar passando pelo maior inferno que é
a dor na consciência, o que ela fez?
- Chorou, esperneou, arrependeu-se, mas gente safada não tem jeito, fugiu
com o pedreiro.
- Às vezes é preciso ir ao inferno ou estar no inferno para não
se decepcionar tão fácil. Porém, é necessário
ir e vir, deixando lá os fantasmas...Para não acabar se transformando
no inferno de si mesmo, o que deve ser muito complicado.
Naquele instante, admirei-me por falar aquilo para o desconhecido, minha situação
talvez fosse menos grave, mas não tinha forças para resignar-me,
estava como Dante, estagiando no inferno da minha própria comédia
e o que é pior, sem o ciceroneamento de Virgílio.
- Os habitantes do inferno como eu, precisam de coragem, o que é difícil
para mim, todos os dias venho aqui e tomo entre doze a treze tragos, só
assim a coragem de entrar em casa chega, todos os dias tenho que ir àquela
cozinha, dormir naquela cama e cuidar da minha filha que chora o tempo todo.
- Quantos tragos já tomou hoje?
- Hoje já me falta dinheiro, não trabalho direito há três
semanas, desde o dia da tragédia, não consigo me desamarrar desse
ermo, sou representante, bom profissional, mas não estou conseguindo,
não estou conseguindo.
Paguei-lhe alguns tragos e deixei que continuasse a falar, sem saber ele me
confortava, já me sentia melhor do que quando cheguei ali. Mesmo assim,
flashes de Lisa surgiam algumas vezes, mas já começava a me acostumar
e acreditar que logo superaria essa sombra. O estado de choque do indivíduo
era tão latente e indissociável dele mesmo que não reparara
a minha saída, deixei-o falando sozinho.
PARTE III
O porre é uma ilusão, uma coragem falsa e passageira. A dor
da ressaca é a dor da volta ao plano real e a decepção
de sentir-se um farrapo humano. Nada mudara em quatro dias, continuava a ouvir
os ecos e desempregado. Em um desses dias cheguei a pensar diferente, ou melhor,
pensar mais profundamente sobre o que estava acontecendo comigo. Minha condição
de docente despertava meu psicológico e quase cheguei a conclusão
de que também morreria subitamente. Foi ridículo. Passei a andar
mais cautelosamente, sem sair de casa, tomei cuidado com os fios descobertos,
tratei logo de isolá-los, examinei as telhas e enxugava sempre o piso
para não escorregar e bater a cabeça. Meus dois filhos estavam
perplexos comigo e somando-se a isso a precoce perda da mãe por pouco
os enlouqueço.
No final de semana veio à minha casa um velho amigo, o Bartolomeu. Conhecíamos
desde os estudos secundários. Boa pessoa, sempre presente na minha vida
e eu, evidentemente, sempre retribuindo o nobre sentimento da amizade. Ele percebendo
que eu estava com minha auto - estima reduzida tentou reanimar-me, falou sobre
arte, História Medieval e política. Era o que conversávamos
sempre, sempre sobravam palavras, idéias e conjecturas, mas eu estava
preso.
- Rodolfo, a morte é mais dolorosa para quem fica, infelizmente. Mas
a pessoa sábia, de conhecimento, como você, tudo bem, sente, mas
não fica assim...
- Bartolomeu, eu estou ouvindo a Lisa a toda hora, é pirante, fica difícil
quem está de fora acreditar, mas é verdade, não estou louco
não, meu irmão, sinto coisas estranhas, diferentes, é como
se o meu corpo estivesse sendo invadido e sendo sacudido por alguém dentro
de mim...
- Calma, calma é stress, conseqüência das coisas que ocorreram
com você, a morte de Lisa, a demissão, a vida que a gente leva,
o preço das coisas, injustiças sociais, isso tudo mexe, ainda
mais você, eu a nossa profissão...
- Não, foi covardia, foi covardia, foi covardia, eu sou um fraco, tinha
que salva-la...
- Você não sabe nadar, se tentasse salvá-la, seus filhos
estariam órfãos de pai e mãe, quem cuidaria deles? Pare
de se lamentar, esqueça isso, volte a vida, veja, deixou interferir no
seu trabalho que chegou a perdê-lo, coloque os pés no chão
e vai a luta, faz essa barba, se desentoca daqui. Logo, logo aparece outra escola
e vida nova amigão.
Ver a mulher que se ama morrer afogada não é tarefa fácil.
Convalescer-se disso é um exercício cruel. Mas a injeção
de ânimo do Bartolomeu consumiu-me o suficiente, mesmo assim sentia batidas
do eco dentro de mim.
PARTE IV
Meus filhos recuperaram-se. Aos poucos é verdade. Continuaram crianças
normais. Retornaram aos estudos, às brincadeiras costumeiras e novas
amizades foram aparecendo. O mais velho, com onze anos, revelava empatia pela
matemática e maior ainda pela bola, estudava duas ou três horas,
não mais que isso, em seguida corria os quatro cantos do futebol, o mundo
da bola. O outro ainda vivia os ares infantis, tinha quase nove, não
escutei mais aquela história do nada, porém, de vez em quando,
passando pelo quarto deles, ouvia um monólogo. Algumas vezes, eu entrava
no quarto, quando me via, calava-se e me olhava firme como se estivesse escondendo
algo ou esperando talvez um cumprimento, um aceno, um beijo. Eu mudo.
Num fim de tarde, no meio da semana, estavam os dois em companhia de um outro,
com a mesma faixa etária do meu mais novo. Apresentaram-me o Nestor,
era mirradinho também, tinha os olhos bem abertos, espertos. Queria saber
todos os porquês, os que eu sabia, dizia, os outros eu desconversava habilmente
sem levantar suspeitas de que eu ignorava. Ao tomarmos a sopa ele começou:
- Seu Rodolfo, tem uma mulher com as mãos no seu ombro.
- Hein!
- É pai, é a mamãe. Ela está sorrindo para mim.
- QUE É ISSO MENINO? DEIXE DE BESTEIRA, VOCÊ NÃO SABE O
QUE ACONTECEU COM SUA MÃE? (gritando, tremendo, inflamado)
- Ela disse prá gente não ligar prá o que o senhor diz,
seu Rodolfo.
- É, ela está com aquele vestido que você mais gosta, pai,
aquele de florzinha de primavera.
Meus filhos eram para mim a única fortuna, a única valia que tinha
e que me importava, mesmo com Lisa viva, pensava e sentia isso dessa forma,
ela também sentia dessa maneira, criávamos eles com liberdade,
respeito e responsabilidade, imbuindo-os de tarefas, mostrando-lhes sempre o
caminho que achávamos certo. Nunca levantei a voz, nem ameaça
de violência com relação a eles. A universidade me colocou
em contato com os grandes pedagogos e psicólogos, grandes teóricos
da Educação, Piaget, Paulo Freire, Vygotisk, tinha estudado e
sabia que o diálogo sempre era o melhor caminho para o relacionamento
com as crianças, não era, portanto um leigo, sem estudo, ignorante,
mas a minha reação em torno da conversa das crianças foi
indescritível, desprezível e inacreditável, agi como um
bárbaro ou um soldado romano. Bati a mesa, os pratos voaram, a sopa quente
caiu sobre eles, berrei, esganei, tremia de ódio, raiva e medo daquela
perseguição interminável. Urrava como um louco, rasguei
minha camisa e virei a mesa literalmente. Tal reação foi aquela
que os vizinhos adentraram minha casa e puseram-me no chuveiro, chorava com
uma dor no peito tão aguda como um enfarto. Fui sedado e colocado no
quarto, acordei no dia seguinte ressaquiado moralmente. Soube que as crianças
estavam com minha sogra e achei melhor que ficassem por lá algum tempo.
Ainda trêmulo, tomei banho e voltei a dormir sem saber o que estava por
vir.
FINAL
A situação piorou por completo, durante a crise que tive, o
acesso de loucura foi tão grande e incontornável que me cegou.
Durante o vexame agarrei o Nestor, sacudi o garoto, empurrei-o, fiz um mal terrível.
Acontece que a criança sofria de uma doença rara do coração,
não podia ter fortes emoções que poderiam levá-lo
à morte. Foi o que justamente aconteceu.
Acordei com batidas fortes na porta, era a polícia com os pais do menino
falecido. Até então não sabia de nada, levantei estonteado,
grogue, embebido pelo sono. Fui levado à delegacia e indiciado em homicídio
doloso, tentei argumentar que estava fora da minha sã consciência,
mas não houve controvérsia, não poderia haver, o delegado
me mostrou as fotos da criança com hematomas, ferimentos graves na cabeça,
o laudo médico e o atestado de óbito que constava asfixia. O mundo
caiu sobre mim. Em seguida soube que meus filhos estavam traumatizados, o mais
novo em pior situação, perdera a voz estava internado em estado
grave. Nada era ao meu favor e não havia ninguém que acreditasse
na minha história, no eco, no maldito eco.
- Você já está bem crescidinho para brincar de fantasmas,
rapaz! Disse-me o delegado com desprezo.
Colocaram-me atrás das grades, numa cela suja, não havia outra
para mim, todas lotadas, reclamei minha condição de nível
superior.
- Por enquanto, você é igual aos outros, vamos investigar outros
casos de estrangulamento de crianças, pode ter sido você, até
que estava demorando de dar as caras outra vez, por hora troque idéias
com o seu colega homicida aí.
Qual não foi minha surpresa ao ver quem era. Era ele, aquele que não
queria sair do inferno, esperou e vingou-se da mulher e do amante pedreiro queimando-os
vivos. No dia seguinte, tive a infeliz certeza que minha vida afunilava-se para
surpresas desagradáveis, ao acordar deparei-me com ele pendurado na janela
gradeada, o pescoço caído para o lado e envolto em roupas amarradas
umas nas outras. Enforcara-se.
Em menos de um mês minha vida entrou num caldeirão fervente, me
envolvi diretamente com seis mortes na verdade. Lisa afogara-se quinze dias
antes dos ecos e da aparição dela para as crianças, em
seguida, o Joaquim, esse era o nome dele, fiquei sabendo após o enforcamento
suicida, através dos comentários feitos pelos homens da perícia,
Joaquim contou-me sobre os seus gêmeos e a morte horrorosa de um deles,
que entrou na minha vida sem que eu percebesse. Logo depois, a minha explosão
estressada, urrando como um louco, e a morte de outra criança pelas minhas
mãos, um fato estúpido e absurdo que entrou na correria da minha
vida e agora, o Joaquim matou a esposa e o pedreiro que o traíram para
depois ele mesmo embarcar na canoa da morte. Não sei o que dizer. Provavelmente
termine os meus dias aqui, trancafiado e me sentindo um zumbi, morto-vivo, mergulhado
na fleuma do dia-dia presidiário.
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