A Garganta da Serpente
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A Velha que cagava orquídeas

(D.)

- Aí vem mais uma Cecília.

- Ih...é uma das grandes dona.... Tá toda cheia de merda também....

-....

A velha começou a gritar e pediu pra empregada ajudar a tirar a orquídea do cu. O jardim já tá lotado dona....

- Ah.. Tanto me faz... Só você vem aqui agora.. Me ajuda a me limpar vai....

Antes levou pro jardim a orquídea nova. Vigésima do dia. Branca, o centro vermelho, mais no meio amarelo-ovo. Coisa mais linda. Meio fedida pela bosta, mas nada que um esguicho não dê conta. Todas vêm meio fedidas.

Limpando o cu da Velha, Cecília achou ainda uma mudinha.

Mas hoje ta que ta dona, andou comendo o que?

O de sempre.. Vocês só me dão essa comida horrível... Minhas flores que pagam a conta... Toninha apareceu com vestido novo... Ai como me dói.... Vendeu alguma hoje??

Nada dona... Ninguém quer saber de flor não... Cagasse celular pra ti vê... Ia precisar ter diarreia diária pra conseguir satisfazer todo mundo....- riu- já pensou dona? Cagar celular...

Limpou tudo. Enfiou a comida goela abaixo. A velha não se mexia faz três anos. Só a boca. Cecília cuidava a mais tempo. As filhas contrataram " mamãe precisa de alguém pra fazer faxina, ainda mais agora que começou a cagar umas coisas estranhas" "será que anda comendo terra?". Quando cagou a primeira orquídea dona... Nunca mais andou. Daí veio a ideia de vender as flores.

Cecília: Hoje Toninha que dorme aqui?

Velha: Jamais aquela ingrata... Quem dorme é Luciana... Sempre preferi... Olhinhos lindos... Você precisava ver quando tinha catorze...

Cecília foi lavar o prato.

***

Entra um homem. Mala na mão. Terno preto. Sorridente e penteado. Disse ser da TV. Melhor que vender flores é vender ideias. Aparecer domingo à noite. Horário nobre. Circo freak do século novo. Ia render muito. Só com a aparição quitava a casa. Comida da boa.

Toninha ia ter milhões de vestidos. Luciana carro novo. A velha podia ir no médico tratar isso.

Muita semente a senhora comeu?- engravatado rindo. Carinho do joelho paralítico.

***

Muito barulho. Todas orquídeas vendidas. Mais que celular Cecília. Sempre câmeras. Vestidos, carros, casa nova. A velha não saiu da TV por mais de meses. Sucesso de vendas. Quiseram descobrir o motivo.

Santa?

Fraude?

Demônio?

Mutante?

Transgênico?

Exames e nada. Que abram a velha.

-Vai pra cirurgia. Disse o homem sorridente.

****

Velha: Tenho medo Cecília...

Cecília:Se preocupa não... Tem anestesia... Tem erro não.. Vão te sarar...

Velha: Mas e o dinheiro???

Cecília:Tem de montão... Mais que se vendesse celular... Pra vida inteira da Dona...

Toninha: é mãe.. Tem erro não...

A velha fechando os olhos gastos: E se tiver um motivo pra isso?

Luciana: Vai ficar bem mamãe..

Velha: Ah olhinho azul vem cá vem... Agora ti malcriada... Ah... Toninha amo você apesar de tudo...

Cecília se afasta em silêncio. Olha a cena do abraço.

****

Raiz no corpo inteiro. A mulher já tinha virado um orquidário. Morreu na mesa de cirurgia. Não puderam fazer nada. Uma última flor. Amarela, pontinhas azuis, centro vermelho bem quente. Coisa mais linda. Mais cara de todas. Manteve a família.

Cecília nunca mais foi vista. Não veio nem receber o dinheiro que Luciana achou justo pagar. Uns dois mil? Por cuidar de mamãe. Ok deixa pra lá. Nem procurou muito. O homem de maleta casou com Luciana. Também adorava aqueles olhinhos e a conta bancária.

***

A última flor da velha. A última que ficou viva,-As outras duraram uma semana mais que a velha- foi a mudinha encontrada no cu. Pequenininha. Cresceu forte. Mas flor tão feinha. Marrom a pobrezinha. Melhor seria se cagasse celulares.

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