A Garganta da Serpente
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As folhas ocultas do tempo

(Darlon Carlos)

A Casa.

As folhas caiam lentamente no jardim do quintal, de forma a fazer um estranho bale, as árvores eram grossas, mas com aspecto de pouca vida,cinzas, fazendo achar que estavam sendo atacadas por uma enfermidade nas raízes, mas o verde nas copas ainda continuava a fazer sua parte de levar esperança aos olhos dos que tentam encontrar uma justificativa na vida. Inverno, que lentamente chegava de forma a fazer com que o cenário mudasse como o corpo de uma jovem que, dominado pelo tempo, vai mostrando a herança que Adão e Eva nos ofereceu depois da queda. Um pequeno chafariz no meio do jardim, faz com que as boas lembranças retornem de forma a da fôlego de vida a entrada da casa, uma construção antiga que data do século XVIIII, mostrando uma ostentação que o tempo, por mais que tente tragar, não conseguiu totalmente.

Aqueles que entravam eram recebidos por uma escadaria de mármore, que dava para uma grande porta, uma campainha com uma caveira de dragão, fazia as honrarias da mansão. Tudo lembrava restos do passado, como um álbum de fotografias que não amarela tão facilmente, o ambiente era uma demonstração que heranças às vezes duram. O interior era bem ornamentados com objetos do século correspondente a construção, mas tinha lampejos desta era, os moveis eram de excelente bom gosto, sem ferir o século, mas, sem inibir o outro, o candelabro que ficava no alto, de cristais franceses só fazia a coroação do gosto bem caro que aquela família tinha, ou teve, mas o que se pode ver de tudo, era que a casa era de pessoas que tinham tudo que o dinheiro pode dar.

Uma criança aparentando dez anos brincava sozinha em um dos tapetes da casa. Falando, comentando com um amigo imaginário o que estava acontecendo com as suas bonecas e bichinhos de pelúcia. Parecia uma princesinha solitária no seu castelo de cristal! A menina tinha o cabelo separado por duas tranças que, faziam com o seu rosto ficasse mais a mostra, as bochechas eram bem rosadas que contrastava com a sua pele branca, seus olhos eram grandes, e de um verde esmeralda que parecia com os olhos de um gato, seu nariz era arrebitado, como da personagem de Monteiro Lobato, seus lábios era bem formados como de uma pintura de mestre detalhista que, fazendo com que o real fosse colocado no imaginário da aquarela, seus dedinhos faziam com que as brincadeiras com as bonecas se tornasse um trançado de pernas e braços de plástico, desenhando uma forma de fugir das horas de tédio e desleixo que os pais a deixavam.

- Com quem você está falando, menina? Perguntou uma criada gorda e bem alta, branca como uma torre de mármore, que com as mãos nas cadeiras foi chegando com um grande estardalhaço, a saia apertada fazia com que ela tivesse uma aparência mais engraçada do que ameaçadora. A menina teve um susto, virou-se rapidamente para a empregada, uma governanta, que ficou olhando para ela com os olhos inquisidores.

- Com ninguém, eu to brincando! Fez uma cara feia para a mulher.

- Vai pra cima para tomar banho, sua mãe já está chegando e daqui a pouco ela vai querer falar com você. Seu pai está viajando e quando voltar vai querer saber se você se comportou direito.

A menina ficou no lugar, ainda brincando com sues bonecos de plástico e de pelúcia, mas a mulher formou uma carranca que fez com que a garota se levantasse e fosse tomar o banho deixando os seus pertences para trás. Subiu as escadas com uma certa relutância, mas mesmo assim deu tempo para ela murmurar alguma coisa que a governanta achou melhor deixar para lá.

No banho, a menina, ficava olhando a água que descia do chuveiro bem quente, tentava imaginar as crianças da África que não tinham água quente e em algumas ocasiões nem mesmo a água para suas necessidades, foi o que seu pai disse quando voltou de uma viagem de lá, ele sempre tem estás viagens. Lavou seu rosto, suas costas, pernas, braços e ficou um tempo se tocando em algumas partes que lhe davam prazer. Aprendeu isto com as meninas da escola que, falavam com elas de coisas que a sua mãe não comentava, e que, seu pai tentava disfarçar.

Começou a se enxugar de forma bem lenta, vendo as bonecas que o seu pai trazia de cada país que foi, uma grande coleção que a lembrava mais da ausência do pai do que, de sua presença. Mexeu em uma, quando abruptamente a governanta entrou para vesti-la, o que a deixou mais zangada ainda, fazendo com que formasse um bico, a governanta nem se deixou se abater pela cara feia da menina, só escolheu a roupa para ela, e, como uma boneca de porcelana, foi ornamentada para a chegada da mãe.

A mãe chegou com as mãos cheias de compras, foi colocando as chaves do carro em cima do móvel, e colocou as bolsas em cima de uma poltrona, procurou pela casa uma viva alma, quando a governanta com a filha adornada como se fosse O Último Imperador da China, foi descendo com ela vagarosamente como num desfile, até que nos últimos degraus a deixou ir sozinha para a mãe, que ficou olhando a cena como num filme de cinema, com um largo sorriso, a mãe, ficou de braços abertos para receber a filha, que simplesmente se colocou entre os braços da progenitora.

- Como minha filhinha está linda, que fofura linda como uma princesinha! - Ficou olhando para a menina como se estivesse vendo mais um objeto de uma loja de luxo. A garota ficou observando a mãe e tendo em seguida mais uma crise de choro. - Que foi minha filha o que você quer, mais uma boneca, mas um brinquedo? - A menina balançou a cabeça, dizendo que não. A mãe insistiu tanto, de forma a fazer com que a governanta entrasse na conversa, tentando tirar da menina alguma coisa. Mas nada aconteceu.

- Estou com saudade do papai! Falou finalmente.

- Ah! Meu amor ele já vai voltar, fique calma, tudo vai acabar bem. Agora venha ver o que a mamãe comprou nas lojas, tem coisa para a minha querida filhinha.

Foi levada pelas mãos da mãe como um cãozinho que era conduzido para ver a nova casa, ou o novo objeto de brincadeira. Foi colocando as roupas, joias, brinquedos, e demais coisas na frente da criança de forma a fazer com que ela esquecesse o pai, mas nos olhos da criança só se via o vazio de uma esperança que se desfaz com o tempo. Ela só queria ter alguém com quem conversar.



O amigo.

A noite foi chegando, com um manto que se estendia de uma região a outra, com uma longa serpente que vai se espreguiçando, as trevas foram chegando devagar. O jantar foi colocado em uma mesa bem ornamentada e bem suntuosa, a mãe ficava em uma ponta da mesa, e a menina, em outra. As regras de etiqueta eram seguidas à risca de forma a fazer com que a governanta oferecesse os alimento de forma bem pomposa. Silêncio! Somente o silêncio! As conversas das duas eram em forma de olhares e de pequenas palavras que eram ditas de uma hora para outra. O silêncio imperava, como os choros em um enterro. Terminando a refeições as duas simplesmente se levantaram e foram para a sala, a menina tentou começar uma conversa, mas, a mãe só mudou de lugar, para que a conversar também mudasse de assunto.

- Conte-me uma história mãe.

- Mamãe está sem tempo agora, mas tarde eu conto.

- Mas eu quero agora!

- Já disse que não, vai para a biblioteca do papai, deve ter algum livro que te interesse!

- Mas lá não tem livro para mim, de criança!

- Deve ter, a biblioteca é grande deve ter alguma coisa para ler.

- Mas, mãe...

- Já falei, vá para a biblioteca deve ter alguma coisa lá, mamãe tem que dar um telefonema. Vai logo! Decretou a mãe.

A governanta, como uma sombra, só observava a situação de longe. A menina ia lentamente para a biblioteca do pai, e como se estivesse entrando em uma sala de castigo, foi fechando a porta paulatinamente. Um mundo, assim que a biblioteca poderia ser resumida, ainda mais para uma menina de dez anos, era de uma grandeza que faria corar de vergonha um bom número de intelectuais, as estantes eram feitas de madeira de lei, como as maiores bibliotecas da Europa feitas com a madeira dos países do Terceiro Mundo, elas chegavam às alturas, como os querubins que tentaram a derrubada de Deus, varias mesas faziam com que houvesse um pequeno labirinto. Tapetes persas decoravam o piso, como uma grande mandala multicolorida. A menina foi andando lentamente entre as estantes tentando encontrar algo que lhe despertasse a atenção, mas nada encontrou.

Dom Quixote de La Mancha, A árvore dos desejos, O alienista, O mundo perdido, Um estudo em vermelho, Alice no país das maravilhas, Sítio do Pica Pau Amarelo e O mágico de Oz. Ela deu um longo suspiro e olhou para o auto e pensou que gostaria de ler uma boa revista da Turma da Mônica, mas os pais por puro pré-conceito não permitiam que ela lesse tais coisas, sendo necessário que ela lesse de outras meninas que lhe deixavam que visse a revista. Tac! Tac! Tac! Tac! Um barulho estranho foi ouvido pela menina na biblioteca que vinha dos livros, foi procurando entre as estantes, até que conseguiu descobrir de onde vinha o som, a origem era de um livro grande que ficava na primeira prateleira da estante, lá em cima, ela ficou olhando pensativa observando aquele estranho acontecimento, mas, o que ela fez foi pegar a escada com rodas de madeira, e, colocá-la no lugar exato para pegar o volume.

Subiu, foi até o local e pegou o livro que de grande que era, ainda mais para uma criança, pesou e escorregou da mão dela caindo no tape persa colorido, o som foi oco, estranho, mas ela viu que o livro tinha caindo em uma página bem colorida e atraente. Desceu as escadas com a maior rapidez que tinha, chegou em cima do livro e ficou olhando as páginas eram coloridas, uma imagem de uma cobra que engolia o próprio rabo, fazendo um imenso circulo em forma de caracol, entre os espaços que haviam entre o corpo do réptil tinham varias palavras mágicas e estranhas que a menina não conseguia ler, símbolos estranhos que eram divertidos e ao mesmo tempo fantasmagóricos.

Levou o tomo para cima da mesa, acendeu o abajur, a luz iluminou em cheio a página do livro, uma grande quantidade de luzes se formou como um pequeno arco-íris, que de multicolorido fascinou ainda mais a criança. Sorriu! Mexeu! Mexeu de novo! Fechou o livro para ver qual era o nome, Simulacro, achou engraçado e tentou ler as palavras da página com a serpente. Passou os dedos lentamente, por cima do circulo feito pelo corpo da serpente, as luzes foi fazendo uns movimentos giratórios, vermelhos, azuis, amarelos e outras cores foram se formando no ar como se ela estivesse mexendo em um prisma, que a encantou de tal forma que foi com grande espanto que ela viu que as letras estranhas foram tomando forma, uma perna, o tórax, os braços a cabeça, umas pernas estranhas como de um bode, o abdômen bem formado e forte, os braços longos e cabeludos, encimado por uma cabeça com dois chifre que demonstrava um sorriso irônico.

- Boa noite, minha criança! Fez uma reverência bem longa a criatura que tinha saído das paginas.

- Quem é você?

- Um amigo!

- Que amigo? De quem? Como chegou aqui? Você é um desenho?

- Muitas perguntas, como o seu pai, você faz muitas perguntas!

- Conhece meu pai?

- Claro, minha criança conheço muito bem seu pai, e não se preocupe ele logo, logo vai chegar. Como você ele faz muitas perguntas, bem, quando ele me fazia mais visitas ele me indagava muito, querendo saber de coisas que, com certeza, não tinha muita ideia da onde ia levá-lo. Mas até que ele teve uma grande ideia de fazer com que o seu trabalho, consultoria de direitos autorais, viesse a ser bem lucrativa com os conselhos que eu lhe dei.

- Qual é o seu nome?

- Pode me chamar de Thaumatourgós. No fundo o que eu faço são milagres!

- De que tipo me mostra? Pediu a menina com um sorriso de esperança.

- Claro! Com um gesto das mãos as cores da página foram se transformando em pássaros, gatos, cães, ursinhos e outros objetos. Os quais faziam com que a menina delirasse extasiada de tantas cores e formas. Ela batia palmas, tentava pegar as figuras, ria muito, se divertia muito. As gargalhadas foram se espalhando por toda a biblioteca, chegando a ser ouvida no lado de fora, pela governanta que com um olhar inquisidor ficava imaginando o que acontecia lá dentro, mas como se o terreno fosse proibido, ela se resguardou de entrar com a menina lá dentro.

As brincadeiras foram se tornando cada vez mais interessantes, a criança que antes tinha os olhos cheios de lágrimas e de saudade, foram substituídos por olhos de alegria e entusiasmo. Foi pedindo cada vez mais coisas que Thaumatourgós, com muita satisfação fazia.

- Conte uma história! Foi o pedido que ela fez com olhos de esperanças.

- Claro minha criança, vou te contar sobre a história de um rei do Egito que teve uma das maiores potencias do mundo nas suas mãos quando era uma criança. Seu nome era Tutancamon e, infelizmente, por não me ouvi morreu cedo, mas isto não acontecera com você. Vamos a história! O pequeno ser foi contando sobre o inicio de tudo que aconteceu no período do reinado do rei menino, com riquezas de detalhes, foi criando imagens de palácios, carruagens, homens, guerreiros egípcios e tudo o mais que a imaginação podia criar. A menina ficou estarrecida.

Depois de um bom tempo, ela saiu da biblioteca de forma bem alegre, foi direto para o seu quarto onde tirou a roupa e dormiu um sono que há muito não tinha. Sonhou com o Egito antigo.

Os dias se transformaram em meses, e com o passar dos tempos o estranho ser se tornava para ela um bom amigo, sempre presente quando necessitava, foi formando uma amizade que fazia com que a menina frequentasse a biblioteca mais e mais, a mãe quando perguntava a menina o que ela fazia, simplesmente dizia que tinha encontrado um livro onde tinha todas as histórias que ela queria ouvir. Eles fizeram um pacto de não contar a ninguém sobre amizade que se desenvolveu entre eles.

Finalmente um dia o pai chegou, com um longo sorriso nos lábios, com uma pele bem bronzeada, com os cabelos um pouco compridos e totalmente pretos, um nariz bem aquilino e com olhos rasgados, alto e esguio. Foi abraçando todos que encontrava pelo caminho, ficou um bom tempo dando um abraço na filha que soluçava de alegria pela volta do pai. Toda a casa teve uma reviravolta de animo quando o dono da casa chegou, de forma a fazer com que a menina fosse poucas vezes à biblioteca encontrar com o seu amiguinho.

A menina ficou como quem sonha, mas, como em todas às vezes foi sendo colocada de lado não sendo, mas o alvo das atenções tendo que dividir o pai com a mãe e com as obrigações do emprego. Foi, paulatinamente, indo para a biblioteca desabafar com seu amigo, Thaumatourgós, que ouvia tudo sem emitir nenhuma reclamação, ou tentativa de inibir a ira da menina.

- O que você deseja ardentemente? Perguntou ardilosamente.

- O que é ardentemente? Perguntou a menina com uma cara de não entender nada.

- Aquilo que você quer mais do que tudo na vida!

- AH! - Foi o que ela disse com uma cara de entendi. - _ Desejo que o meu pai tenha todo o tempo do mundo para mim, que fique do meu lado contando história sempre que eu quiser! Falou enfaticamente.

- Então minha criança vamos fazer um acordo.

- Qual, de que forma?

- Você me da o que eu quero e eu te dou o que você quer. Só isto!

- O que você quer?

- Um acordo, e para que este acordo de certo você vai ter que me da algo que é seu, ou que venha de ti, então teremos uma sociedade. Eu e seu pai já tivemos um acordo desta forma, e com certeza foi muito proveitoso para ele, como será para você. Então vamos lá, não vai doer nada, tenha certeza!

- O que eu tenho que fazer?

- Chegue mais perto e incline os seus olhos para mais perto de mim, isto deste jeito, assim mesmo boa menina! - A criança foi abaixando a cabeça e colocando perto do pequeno demônio que soprou em seus olhos com grande força, ela levou um susto e imediatamente fechou os olhos e começou a lagrimejar de forma a molhar o rosto todo. - Mais perto minha criança, deixe que as lágrimas caiam sobre mim. - Foi o que a garota vez, com os braços abertos e com a boca escancarada Thaumaturgós foi se banhando e bebendo as lágrimas que caiam dos olhos da menina. - O que é o que é tão clara e salgada tem o brilho das estrelas e o peso das almas, tão clara e transparente e mesmo assim tão incógnita? Lágrimas, lágrimas que me alimentam! O ser dantesco foi tomando mais corpo ficando mais forte e tendo mais poder. Enquanto a menina via com olhos vermelhos de tanto chorar a figura sumindo entre as letras do livro dizendo que iria cumprir a parte do acordo.

O tempo foi passando e com a chegada de um novo chamado o pai da menina foi novamente para uma outra viagem onde teria muito que contar para ela quando voltasse. Ela como sempre foi chorar a partida do pai com seu amigo que sempre falava que o acordo seria realizado era só ter paciência. Foi o que ela fez.



A governanta.

Não há como negar que o tempo foi uma das maiores mentiras que o homem inventou, temos que ser dominados por uns ponteiros de um relógio que, como grades nos aprisiona, fazendo de cada um de nós condenados a sermos sempre marionetes de Cronos. E foi este deus que passou vagarosamente pela casa daquela criança, que foi como por um passe de mágica, tendo mais calma com a falta do pai que o habitual, brincava com as bonecas, mas não falava mais com ela como antigamente, ia para a escola, mas não tinha as costumeiras queixas de sempre, ela estava mudando, e a mãe não notava o que acontecia, só uma pessoa que notava a mudança e tinha ideia de onde ela partia. A governanta!

Noite, as luzes estavam apagadas na grande casa, a pouca iluminação que vinha da lua passava com dificuldade pela cortinas da casa, mas era o suficiente para uma pessoa que conhecia os cômodos da casa se locomover sem muita dificuldade, indo até a porta da biblioteca, e abrindo-a bem lentamente para que não se fizesse muito barulho, o silêncio não foi quebrado!

A governanta entrou na grande sala tomada de livros, e foi diretamente onde se encontrava o volume que a menina tinha derrubado por acidente, se é que existem acidentes, tomou-o e levou para o mesmo lugar que a criança, mas diferente dela, a governanta teve uma grande desenvoltura em achar a página certa e tocar os dedos pelo circulo e lentamente entoar o canto que a menina fez por acaso, o som foi se misturando com as trevas do aposento, como pequenos morcegos voando em busca de uma nova presa a escuridão foi sendo sugada pelo livro como um pequeno buraco negro que ao invés de atrair a luz, fazia o contrario. Lentamente o ser dantesco foi se levantando do monte de letras tomando a forma que tanto era conhecido pela menina, e pelo visto pela criada, a cabeça se formou com sorriso irônico, como o gato de Alice no País das Maravilhas, o sorriso se transformou em uma saudação.

- Como vai minha querida governanta. Com uma voz zombeteira a cria da noite foi soltando uma pequena gargalhada que não conseguiu conter quando viu a cara de tristeza da criada.

- Achei que não nos veríamos mais. Disse a mulher com voz fraca.

- Mas, todos voltam, pelo menos aqueles que insistem em dizer que nunca mais voltarão, como foi o seu caso.

- Achei que o nosso trato fosse durar para sempre, mas o que você fez foi me enganar como tem enganado a menina, sei muito bem que ela tem vindo aqui falar com você, posso sentir seu cheiro de longe, armando as coisas como um conspirador tentando chegar ao trono do rei.

- O único trono que tentei conquistar, foi do Reis dos reis, e como pode ver não deu muito certo. Então tive que aprender a ter outros tronos, uma coisa que aprendi é que é melhor reinar no inferno do que servir no céu. Você teve uma experiência semelhante, não?

- Você disse que eu a teria sempre que quisesse mais o que aconteceu foi que ela encontrou uma outra pessoa.

- Outra pessoa do mesmo sexo, diga-se de passagem.

- Mas, o contrato foi para que fosse eu a ter este direito.

- Você tem que aprender que direitos neste mundo são privilégios, e privilégios são conquistados. Conquiste-os!

- Como seu demônio desgraçado! Você não cumpriu a parte do plano, do trato, agora tenho que me contentar em vê-la nua algumas vezes no dia, o que é uma tortura para mim, tenho que tê-la e não vê-la!

- Vamos por parte, como diria Jack, o Extripador, o seu acordo foi de tê-la por algum tempo, enquanto o marido dela não voltasse, o que eu fiz, mas em tê-la para o todo sempre são coisas que teremos que fazer um novo acordo, pois tudo na vida pode ser arranjado. Discorreu com um riso maroto.

- De novo com o seu golpe! Não vou fazer aquilo de novo! De jeito nenhum, cria do inferno! Eu mudei!

- Como todos, só que sempre voltam para mim, conheço muitos crédulos que como você, mudaram de lado por algum tempo, mas não deixaram de vestir a camisa do clube adversário por debaixo da outra. Mudar! Sabe o que significa conversão, uma mudança de mente, e com certeza você não teve nenhuma mudança na sua mente, como podemos ver pelos seus olhos, tive imperadores que se debruçaram para ouvir meus conselhos, monarcas, cortesãs, covardes, corajosos, padres, pregadores tudo e todos. Em uma sociedade corrupta como esta que, dizem serem contra uma série de coisas, entre elas: prostituição, roubo, hipocrisia, morte e a fome. Creia, que se uma mercadoria está à venda, é porque, tem mercado consumidor. Os ladrões só ficam tristes quando eles é que são os alvos do roubo, a prostituta é inferiorizada pelos mesmos homens que vão atrás de seus serviços, hipócritas o são por ser mais fácil à sobrevivência, quantos morrem de fome enquanto as suas mesas sobejam alimento, fome é um dos problemas mais fáceis de serem resolvidos, mas, quem seria o tolo em eliminar um dos maiores controladores de população que existe? Como disse um conhecido meu o homem é o lobo do homem! Venha minha governanta, tenho para você um novo contrato onde terá o que deseja, sua patroa, em uma cama coberta de seda, lembra a sua surpresa quando teve entre os seus lábios, os montes de Vênus totalmente depilada, totalmente lisa, de alto a baixo, aquela carne perfumada branca e bem macia. Pode ser sua novamente, basta somente que faça o que tem que ser feito vamos, foi bom para você e será novamente, ela gostou, acredite, ela gostou, mas como uma dama da sociedade tinha que tomar mais cuidado, o que ela fez muito bem, pois o marido dela já estava ficando desconfiado, ele sempre teve uma ponta de inveja das mulheres que sabiam tocar no corpo de sua mulher, melhor que ele. Como sei de tudo isto, tenho milênios! Vamos dê-me o que quero e te darei o que queres. Agora! Bradou Thaumatourgós com olhos cheio de cólera.

A governanta ficou olhando com cuidado os olhos do pequeno demônio, enquanto ele fitava a mulher com olhos de um prestidigitador que foi aos poucos lhe mostrado que não tinha outra saída há não ser dar o que ele queria, foi vagarosamente desabotoando a camisa mostrando o sutiã, Thaumatourgós ficava esfregando as mãos com os olhos ávidos como de um abrute. Um contraste, isto que era os seios da governanta, um contraste com o corpo já com algum peso há mais, os seios eram fartos, bonitos, bem formados, os mamilos eram cor de rosa, feitos para o prazer.

Thaumatourgós ficou fazendo sinais para que ela aproximasse mais os mamilos, queria que fosse o mais próximo possível, a governanta retirou a camisa e o sutiã totalmente, mostrando os seios.

- Mais, próximo, mais próximo, você sabe que eu não posso sair destas malditas páginas, incline ele para mim, não é a primeira vez que você faz isto. Assim, isto mesmo, assim, boa menina, assim mesmo que eu gosto, mas perto! Ela deixou os seios bem próximos da boca de Thaumatourgós, ele pegou o bico do ceio da governanta e clau!!! Cravou os dentes bem no bico do seio dela que deu um pequeno grito de dor, mas mordeu os lábios para que não acordasse ninguém, ficou ali como um pequeno morcego que recebendo o leite materno, dava pequenas cabeçadas, como um aríete, bebendo o liquido precioso para os vampiros e outros do gênero. Um pequeno fio de sangue saiu do seio da governanta, caindo na página do livro que o absorveu rapidamente, da mesma forma que um sangue-suga o pequeno ser dantesco ficou ali grudado, preso, até que se saciou totalmente o desejo e como uma fruta madura caiu largando-o. Estava cheio! Soltou um grito de prazer.

Ali na biblioteca escura, como uma pintura de Caravaggio, iluminada somente pela luz tênue a governanta massageia o seio dolorido, com os lábios vermelhos da mordida que deu em si mesma, enquanto uma gargalhada varria toda a biblioteca, como uma grande pororoca, encontrando as águas do mar do prazer com os rios da vontade.

- Diga-me, por que os esperançosos são os mais saborosos? A mulher ficou em silêncio.



O Fim.

A casa estava em silêncio, o corredor, a escadaria, a sala de jantar, os quartos, o chafariz, o jardim e com ela vinha o silencio do crepúsculo do dia. Tudo mostrava como o tempo passou vagarosamente entre os galhos das árvores torcidas que circundavam todo o jardim, o que se sentia na casa era que a calmaria antes da tempestade já se anunciava, o sussurrar das asas de um querubim caído, já batia entre os cômodos daquela residência.

Um carro passou pelo portão, um automóvel totalmente preto, foi avançando lentamente pelo jardim até que circundou o chafariz e ficou perto da porta. Desceram do carro, a esposa, a governanta e a menina, todas de preto, com olhares distantes e em uma posição corporal cabisbaixa. Foram, para a casa sem olhar para trás, entraram e deixaram o motorista simplesmente olhando o cortejo.

A mulher deixou a bolsa sobre a mesa, a menina ficou sentada na poltrona com um olhar distante, a governanta somente ficou olhando o que acontecia. A mãe tirou os óculos escuros e sentou ao lado da filha, acariciou lentamente a cabeça da garota que, não tirou os olhos do nada.

- Minha filha, calma que tudo vai dar certo, o papai foi para um lugar muito bom, ele foi para o céu, para ficar junto com Deus. Nada vai faltar para você, pode ter certeza que mamãe vai cuidar muito bem de tudo, temos que pensar que agora ele está melhor do que antes. Ele está com Papai do Céu!

A garota estava como em estado de choque, não dizia nada e nem mesmo se preocupava em olhar para os olhos da mãe, o que ela fazia era olhar para o nada como se tivesse vendo alguma coisa que era oculta para os outros olhos. Algumas lágrimas caíram dos olhos da menina, como estrelas cadentes que com um brilho rápido que da mesma forma perde o esplendor e o poder, e o que sobra são lembranças.

O jantar foi funesto, em palavras simples por que na verdade foi horrível, a garota nada comia, e mesmo assim tinha que continuar na mesa, a mãe só fazia uma única coisa, tentar provar que tudo estava bem e que poderia dar jeito em tudo. Conversava com ela como se tudo tivesse sido um simples capricho da natureza, do destino. A menina era mais honesta e sabia o que veria pela frente e nem tentava dourar a pílula. Era mais fácil se contentar com a verdade, pois ela não pode ser desmentida. Ia sempre para a biblioteca, conversar com seu amigo. Os dias foram passando e de repente se tornam meses, o tempo na casa foi voltando a seu favor, a menina voltou novamente a sorrir e a governanta notou que o semblante da mulher tinha melhorando. Tudo estava como dantes no quartel de Abrantes.

Até a governanta tinha um ar mais feliz estava frequentemente indo consolar a patroa em seus aposentos com um sorriso nos lábios que nunca viu antes. Estava cuidando do corpo, da aparência, das coisas que antes deixava de lado. A pele tinha mudado como que por encanto em uma pele mais viçosa, e mais bronzeada. Tinha tomado uma nova imagem. Acompanhava a patroa para fazer compras, o que não fazia antes, dava palpites de cores, de produtos de objetos. Vendo o que acontecia, notava-se que quem tinha ficado viúvo tinha sido o marido.

A menina brincava com muita alegria pela casa, tinha feito novos amigos na escola, alguns meninos vinham lhe fazer uma visita para trabalho em grupo, ela gostava se sentia amada. Depois da janta ela sempre ia para a biblioteca, para ficar algumas horas lá, a mãe uma noite lhe perguntou o por que de tanto zelo na leitura e que livro ela estava lendo naquele momento. A menina respondeu que nenhum o que ela fazia era ficar lá ouvindo histórias de muitas viagens.

- E quem conta estas histórias minha filha? Indagou a mãe.

- Papai me conta!

- Quem?

- Já falei, papai!

- Minha filha, seu papai morreu já faz alguns meses.

- Eu sei mãe, mas ele vem me contar histórias todos os dias, agora ele tem tempo o bastante para me contar histórias. Bastante tempo! Disse a menina indo correndo para a biblioteca para a costumeira hora da história.

A mãe nada falou somente ficou observando a menina. Achou que fossem tolices de uma criança, que com o tempo passaria. A governanta somente olhava o que acontecia, como uma sombra, que a luz mais forte não conseguia espantar.

Um som de campainha soou por toda casa, a governanta rapidamente foi atender, um homem alto com roupas pretas cabelo grisalho e com um cavanhaque igualmente grisalho é que estava na porta, estendeu a mão sem falar nada. A mulher entendeu o recado e entregou o embrulho que se encontrava em cima da mesa, um pacote de papel pardo, aparentando ser um livro. Colocou na mão do homem que simplesmente agradeceu deu meia volta e se foi.

- O que você vai fazer com este livro? Perguntou a mulher na porta.

- O que todos tem feito no decorrer dos séculos, vou passar o conhecimento para outros. Foi o que o homem respondeu sem nem mesmo olhar para trás. A governanta teve a impressão de ter ouvido uma risada, mas não sabia se vinha do homem ou do livro. Antes de fechar a porta, sentiu um dos bicos do seio úmido, quando olhou para ver o que era, viu uma pequena mancha de sangue se formar no seio que Thaumatourgós tanto gostava de... brincar!

Por um momento ela teve a impressão de ter ouvido uma risada sarcástica.

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