A Garganta da Serpente
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A lua como memorial

(Darlon Carlos)

(Em homenagem a H.P. Lovecraft)

Caminho pelo mundo há muito tempo, tanto que você não teria condição de contar, mas às vezes eu acho que meu tempo sobre a terra é mais curto que imagino. Não sei quem sou, direito. Vago como as almas que não tinham dinheiro para pagar o barqueiro, Caronte, e por isto ficavam a vagar pela terra na busca quase infrutífera de encontrar o caminha para o mundo subterrâneo. Não cominho durante o dia, não durmo a noite, como uma sentença empregada pelos deuses tenho algo em comum com Sísifo, Tântalo, Prometeu e tantos outros que o mundo conhece de lendas que foram passados pelos seus pais. Todos os mitos têm alguma verdade escondida nela mesma.

Só conheço uma verdade, a fome que devora meus membros. Começa como uma simples sede, que vai se alastrando pelo meu ventre, passando para meus braços, indo para as minhas pernas, chegando ao clímax quando atinge a minha cabeça. Fico fora de controle, não tenho como me segurar. Como os viciados que andam por este mundo como almas penadas, quem tem um deus que cabe em um pequeno saco plástico, tenho o meu entre os meus dentes e entre os que ficam a mercê de uma forma rápida ou lenta de morte. A ele toda a minha adoração! Sou uma morta-viva! A maneira como deixei de ser humana para renascer como alguém da linhagem de Lilith não sei, não me recordo. Peregrino pelo Velho, Novo e Novíssimo Mundo tentando encontrar quem me fez ingressar nas fileiras desses em quem o mundo não acredita na existência.

Tenho imagens difusas na minha mente, não sei quem fui e quem sou totalmente. Pequenas peças de um quebra-cabeça se formam em minha mente como fleches às vezes me vejo em uma grande casa, em outras estou em um castelo, noutras estou em um barraco em algum país subdesenvolvido. As garras do tempo vão tão fundo em minha carne que às vezes desejo ter somente o presente, nunca o passado e muito menos o futuro. Não sei se quero me lembrar de tudo, não sei. Lembro-me que era branca, alta, com longos cabelos negros, olhos igualmente negros, nariz aquilino, lábios finos, seios fartos, pernas fortes. Jovem muito jovem! A herança de Eva ainda não tinha me alcançado quando tudo aconteceu, pelo menos é o que eu acho, pois como não tenho reflexo não posso saber. Os espelhos sempre mentiram, muito mais agora!

Eles sempre correm, este não é exceção, ele corre muito bem me lembra alguém que conheci há muito tempo. Está ficando cansado, é a hora em que eles começam a imaginar uma forma de sair dessa situação, antes eles usam os músculos para depois usar a mente, se fizessem o contrario talvez tivessem alguma chance de salvação. Alcanço-o sem muito esforço, ele se debate, eles sempre se debatem, é grande um homem bem grande, vai me alimentar por um bom tempo, aprendi a ser parcimoniosa com o passar dos tempos. Ele vai me alimentar por um bom tempo.

O astro dos enamorados já se encontra em declínio, o astro dos cientistas já vai aparecer, tenho que me apresar. Tolos são aqueles que acreditam no tempo, pois Cronos sempre nos enganou. As estações escorrem dos nossos dedos como grãos de areia em uma ampulheta. Este homem tinha um gosto bem salgado para o meu paladar.

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