A Garganta da Serpente
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Vênus adormecida

(Darlon Carlos)

Estava no chão sobre o lençol, não queria que fizessem na cama, era o último resquício de dignidade que manteria a qualquer preço. Fechou as pernas e se levantou, encostando-se ao leito, com o braço esquerdo, com o outro escondia o sexo, estava de camisa branca e com um sutiã em que se podiam ver as rendas, por causa da transparência da blusa, cabelos presos em um coque, eram pretos e com brilho suave. Cabeça estava baixa, ombros igualmente baixos. Parecia esperar por alguma coisa, um acontecimento que terminaria com aquilo.

O quarto era amplo, mas simples, as paredes eram pintas de mostarda bem clara com algum toque de amarelo limão, uma lareira branca como mármore em que se viam alguns detalhes trabalhados em alto relevo, em cima dela um relógio de madeira antigo e bem pesado, daqueles em que se podia ver nitidamente o pedestal de madeira de lei, os que a vovó dava para as netas que se comportavam bem, os ponteiros marcavam as horas de sempre. De um lado e do outro se via pequenos jarros com flores, rosas vermelhas, ainda demonstrando o frescor da vida. Alguns livros, bem poucos, uns três ou quatro bem grossos e com as lombas ainda mostrando a falta de uso se encontrava no lado esquerdo. Deste mesmo lado uma cômoda de guardar roupas, daquelas grandes, com varias gavetas impecavelmente bem envernizada e sem as manchas de poeira jazia incólume como se estivesse a observar o desenrolar dos acontecimentos.

A cama era grande, bem grande, daquelas que dão não só o casal, mais os filhos que vierem, aqueles leitos em que se espera que a mulher de a luz aos filhos dos filhos dos filhos das famílias que regem as ordens dos astros celestes. Na cabeceira como no pé se encontrava entalhadas flores de Lins, uma coberta vermelha com algumas manchas em branco e preto, lençol branco, em cima dela para facilitar na hora de ir dormir. A janela, de madeira, espaçosa e que se encontrava fechada, entretanto as frestas revelavam que o sol ainda se encontrava alto. Cadeiras, poucas, como se estivem sido colocadas aleatoriamente em cantos diversos, outros móveis como que se não existisse pela forma como o lugar era grande mais com requinte de singeleza. Um homem observava tudo isto no limiar da porta do banheiro, limpando o seu falo com a mesma naturalidade que se enxuga o rosto depois de escovar os dentes.

Era alto corpulento, com cabelos em demasia nos peitos e costas, cabelos pretos e em desalinhos, barba por fazer, usava uma calça jeans azul desbotado e já demonstrando bastante uso, diferente dos livros em cima da lareira, colocou o membro dentro dela e fechou o zíper. Jogou a toalha em um canto qualquer do banheiro. Saiu do limiar, adentrou no quarto. Olhou para a mulher com um ar de desprezo. Foi em direção da janela, olhou por uma das fretas, o sol batendo nos seus olhos pretos fizeram um jogo de cor que lembrou o teatro de sombras, onde se via os contornos nunca o conteúdo. O reflexo de imagens difusas que fazem o que os dedos ordenam à marionete. Fitou novamente para a mulher, continuava no mesmo jeito.

- E aí, vai ficar com essa cara de Madalena arrependida o tempo todo? Indagou o homem se afastando da janela.

A mulher levantou a cabeça, revelando imensos olhos verdes, e olhou para o homem que continuava com a pose de indagação.

- O que você quer mais? - Falou. - Já não teve o que queria, o que quer mais?

O homem coçou o saco e foi novamente para perto da janela observar por entre as fretas como se vigiasse alguma coisa. - Você está ficando chata mulher, já fizemos isto varias vezes! Qual o problema agora? - Ela nada falou. - Fale qual é o problema? - Ela manteve o silêncio. - Tchp! - Ele fez um barulho com os lábios. Manteve-se o silêncio. - Me lembro quando você fazia uma festa sozinha, ninguém conseguia te parar, todos ficavam olhando para você tentando saber de onde via toda aquela energia. Era a noite toda! Carnaval se lembra? Aquele carnaval onde saímos pela noite em blocos que nem sabíamos os nomes, ficávamos olhando os gringos, parece que na terra deles não tem branca com bunda grande, ficavam todos olhando para você. Que bunda você tem! Ah! Como me lembro daquelas noites em que a gente não dormia ninguém dormia na sua presença era foda a noite toda, a noite toda! Metíamos sem parar, era um sonho, oh coisa boa!- A mulher era só mudez. - Fala alguma coisa porra! Gritou o homem.

- Cala a boca merda, quer que todo mundo ouse?- Finalmente o silencio foi quebrado. - Vai embora, já não comeu, não gozou, não fez o que queria vai embora já falei! Estou cansada dessa conversa do passado, já passou não quero saber mais disso. Chega! Tenho uma outra vida, um outro homem, uma outra família.

O homem riu em triunfo.

- Quem te viu quem te vê como você era a mais fogosa das cabrochas. Agora, nem quer saber do passado dos amigos que tanto te ajudaram. Se a sua família,como você fala, soubesse o que você fez no passado não te aceitaria nem um minuto. Mas, você que não é boba veio para esta cidade do interior afastada de tudo e de todos e fisgou um cara com dinheiro. Quando te via na cidade, fiquei imaginando o que aconteceu para você vir parar aqui neste fim de mundo, não tive dúvida tinha que ir atrás para saber. Descobri que tinha casado com um fazendeiro cheio do dinheiro, pensei: vou ganhar alguma coisa com isto! Empreguei-me nesta merda de fazenda, e comecei a te observar, tinha que ver a sua cara quando me viu trabalhando aqui, me segurei para não ri, toda donzela, com jeito refinado, com bons modos, toda madame, tinha que mostrar para todo mundo quem era a dona da casa. Foi quando você me falou que as pessoas daqui não sabem do seu passado, olha veja só, quem poderia dizer que ninguém sabe quem foi você no passado glorioso das casas de recreação das ruas do Rio de Janeiro! Veja só!

- Já falei, o que você quer?
- Dinheiro! Quero dinheiro o meu acabou, vai me da mais!
- Aquele que eu te dei há dois dias, já acabou!
- Você, mas do que ninguém, sabe que eu não demoro muito com dinheiro na mão. Vai anda logo, cadê o dinheiro?
- Não tenho mais, acabou!
- Como é que é, acabou! Ele se aproximou para ver melhor o rosto da mulher que ainda se encontrava no chão.
- Acabou! Disse com firmeza.
- Acabou merda nenhuma, quero meu dinheiro e quero agora. Aproximou-se mais.
- Não tem já disse acabou, não posso ficar te dando dinheiro a torto e a direito, não tenho tanto quanto você pensa. Fique sabendo.
- Quero o meu dinheiro sua piranha, vagabunda, safada, quero o meu dinheiro se não sabe o que vai acontecer. Vou falar para todo mundo quem era você, vou falar e vou provar o que ninguém sabe por estas redondezas, o que você fazia para viver. Vou gritar para os quatro cantos o que você fazia e como fazia.
O homem se afastou para perto da lareira e com gestos cada vez mais amplos ia dizendo o que ela tinha feito no passado com ele e com todos os outros que a vida tinha colocado em seu caminho.

A mulher se levantou e foi em direção o homem que alucinadamente continuava a falar cada vez mais alto.
- Cala a boca seu maluco, quer que todo mundo ouse? Já falei não tem dinheiro, olhe ao seu redor, o que vê? O café e o cacau não têm dado dinheiro há muito tempo, quando vi para cá já não estava dando ainda mais agora com está depressão em todo o mundo.
- Dane-se quero o meu dinheiro, ouviu quero o meu dinheiro, se não...? O homem deu as costas para a mulher soltou um riso falou em tom de deboche o que ela fazia com os clientes que pagavam um tanto a mais pelos trabalhos dela. - Vou falar para todos como era o seu nome de guerra lá na zona, se lembra? Vânia Boqueteira, Vânia boqueteira, vou falar para todo mundo. VÂNIA BOQUETEIRA! Estava descontrolado, o homem estava totalmente descontrolado, fala alto, gesticulava, apontava para a mulher com ameaças cada vez mais fortes e perigosas. Os olhos dela saltaram da órbita quando notou que ele acabaria com tudo que ela construiu casamento, família, amigos, respeito, casa, vida.

O quarto se transformou em um carrossel, virando, rodando, movendo, transformando-se, agitando-se, deslocando-se, uma inquietação foi se formando de tal forma que ela tentou se manter em pé, mas a visão de sua queda para a existência de antes, humilhações, baixezas, desprezos, vexames, ultrajes, uma história que ela conhecia e não queria de volta. Foi tendo um gosto estranho na boca, um vazio no coração, falta de forças nos pés. Sua biografia passou em frente aos seus olhos, com uma grande velocidade, como se tudo acontecesse em minutos, uma vida em minutos!

Ravel! Maurice Ravel! Se tiver uma cena em que uma musica de fundo cairia perfeitamente era o Bolero, mais conhecido como O Bolero de Ravel, uma mesma melodia repetida obstinadamente variando em alguns momentos a orquestração. Ela olhou por todo aposento, primeiro a cama foi se movendo depois as cadeiras, a lareira, os jarros, a cômoda, a janela, as paredes, o teto, as luzes, o relógio, o homem. Como se fossem peças independentes, mas harmoniosos entre si eles foram se elevando do chão e ganhando as alturas. Não era a coreografia de Nijinsky e nem mesmo a de Maurice Béjart, era a de um homem que estava pronto a destruir tudo que ela construiu com muito cuidado, todas as peças encaixadas, os nós feitos sobre medida para que parecesse os mais perfeitos, uma trama feita com os dedos de uma mestra em fiar os fios dos destinos para o seu próprio proveito. Perderia tudo, tudo, tudo, tudo! Não! Tinha que fazer alguma coisa teve um firme propósito em seu coração, tinha que fazer alguma coisa!

Os móveis foram descendo do estranho baile, indo cada um para o seu lugar, como no enceramento da peça, os bailarinos foram se colocando em cada canto do palco para o derradeiro movimento. Não era Jorge Donn e nem Ida Rubinstein que faria o último ato, mas ela. O homem continuava a falar, na sua cabeça parecia que tinha passado minutos, mas na verdade foram segundos, segundos para decidir toda a sua vida para fazer alguma coisa para ser alguma coisa além do que sempre foi. Clak!! Bomm!! Silêncio, em todo o quarto. Sossego no banheiro. Mansidão na cama. Paz na cadeira. Mudez na lareira. Tranquilidade na cômoda. Silêncio sepulcral, mortal. Frio! A maçaneta é mexida quebrando a tranquilidade do lugar, varais vezes ela se mexe para tentar dar passagem para quem está do outro lado, mas não cede. Som de uma chave sendo usada. Porta se abre. Um homem de meia idade, mais magro que gordo, mais baixo do que alto, mais branco do que pardo. Entra. Olha ao seu redor. Vê a esposa com o relógio antigo ainda na mão e um homem no chão com uma pequena poça de sangue se formando. A mulher seminua, o homem sem camisa, morto! Olha para ela atônico em busca de uma explicação plausível.

Ela desaba, deixar cair o relógio, corre em direção ao marido, agarrá-o com todas as forças, fitá-o nos olhos, grita, fala, em desabalada corrida diz que o homem queria violentá-la, que ameaçou contar mentiras a respeito dela, colocou a família em risco, não teve outra saída a não ser defender a hora e a dos familiares. Legitima defesa, foi o que o homem falou, para que se acalmasse que não passou de legitima defesa. Mas, ela continuava a gritar e a chora em uma representação que coraria de vergonha Marilia Pêra, Fernanda Monte Negro e Paulo Autran.

O esposo ficou ali com a mulher entre os braços olhando para o cenário, percebendo no chão o relógio antigo, pesado, feito de madeira de lei, que caído como um despojo de guerra tinha nos ponteiros a marca da verdade. Marcava o horário de sempre. De sempre!

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