A Garganta da Serpente
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Beleza

(Daiane de Gasperi)

Aquela monotonia corroia meus sentidos há uma semana. Pais dos pais, filhos dos irmãos, a família inteira. Todos. Todos os dias, as mesmas pessoas e as mesmas ações. A perspectiva era enorme a cada raiar do sol. Eu só vendo da varanda. Mas aquele dia ia ser diferente, São Pedro iria lavar a terra de areia. As nuvens dançavam um balé maravilhoso e escureciam a praia, lindo. Talvez a primeira vez que admirei tanto uma tempestade. Os raios de sol me cansaram os olhos, precisavam ver algumas descargas elétricas.

Sai da varanda. Vesti um moletom. Era um dia sem sentido, apenas esperando um estalo para não ser mais um. A areia beijava meus pés. Minhas pegadas logo sumiam da areia tapeada pelo vento. Aquele paraíso estava deserto. Era essa tranquilidade que eu queria, apenas para pensar na vida.

Sentei-me frente ao furioso mar. Tentava entender aquela frase, daquela música, daquele presente dele: "A beleza de tudo é a certeza de nada". Eu buscava aquela beleza, que no fundo é o desejo subliminar de muitos. Aquela beleza de simplesmente viver, sem buscar um porque pra tudo, um motivo, uma certeza. Mas eu não sei viver assim, apenas não sei. Só queria poder levar a vida como aquela frase suspensa. Já caia alguns pingos do temporal. O vento há tempos já havia arrastado toda a vida daquela praia. E aquela frase fazia eco. O mar parecia responder algo, mas eu não entendia. O vento formou um turbilhão sobre o mar, engolia tudo. A praia não era mais aquele cenário paradisíaco. Não era mais praia. As ondas se convertiam em labaredas de fogo. Parecia algo profético, alguém ter ouvido meus sussurros e por meio do mar me inundava alma. Não ouvia resposta, só ouvia aquela revolta. Eu ardia. Aquilo virou um inferno. A areia era um rochedo e não se via fim no horizonte. O céu era negro. Eu estava sozinha.Queria me agarrar a algo. Senti dor, senti saudade. Algo estava se afastando de mim. Eu estava comigo mesma e ninguém mais, somente fogo. Estranhamente só, quando:

- Oi, Laura.

- Rafael?

Seu sussurro me puxou daquele cenário. Tirou-me do inferno e me trouxe de volta a praia. Era só ele que tinha esse estranho poder, de aparecer do nada e me fazer bem. Só ele batia a minha porta do nada. Sentou-se ao meu lado.

- O que voc...

Calou-me. Matou a sede com um beijo ardente. Era saudade.

- Você é louco!

- Louco? Saudade apenas, meu bem.

Eu não sabia como ele estava ali. Era perda de tempo pedir. A lucidez não é e nunca foi o forte dele. Essa loucura que me prendia, que me fazia querê-lo sempre um tanto mais.

- Não esperava te encontrar por aqui. Na verdade...Não esperava te encontrar mais. - Disse

Houve uma pausa. Mas aquele olhar...Aquela voz...Aquele silêncio me vazia viajar.

- Imagine se o mar fosse ao invés de ondas, labaredas de fogo...A areia rochedo. Lavas quase a te engolir. Nós dois aqui. O que faria?- Disse ele.

- Ora...Imagine? Esse paraíso um inferno? Poseidon cedendo lugar a Hades. Você e suas paranoias...

Às vezes penso que lê meus pensamentos, mas nunca quando realmente quero que o faça.

- Paranoias nada! Apenas um solo de guitarra invertido.

Fiz que não ouvia, apenas viajava no seu olhar. As lembranças de suas mãos em meu corpo eram muito novas para servirem de agasalho ao esquecimento. A chuva começou a cair forte. O céu parecia desabar sobre nós. Aquele temporal embriagava meus olhos. Amantes, apaixonados.

Puxou-me. Deitou meu corpo na areia.

O mar virou inferno. Poseidon passeou sobre a lava com sua carruagem. Mas não vimos. O chão sucumbiu, um abismo abriu perto de nossos corpos, Hades surgiu majestoso e bravo do interior da Terra. Não vimos. Travaram uma sangrenta batalha. Poseidon deu cajadadas em nossos corpos. Não sentimos. Escravos de Hades esbarravam correntes, enroscavam-nas em nossos corpos. Nada percebemos. Piratas mortos ressuscitaram das profundezas, capitães mareados rastejavam pelo rochedo. Não vimos. Não vimos irem embora e foram.Hades voltar para o mundo subterrâneo e fechar o abismo no chão. Não vimos e foi. Poseidon voltou a reinar no mar e deu sossego aos piratas. Os deuses foram e voltaram, nos fizeram companhia. Nem vimos.

Nos amamos. Lavados pela chuva e pelo mar. Sem vaga noção de nada. Todo o temporal se afastou. A praia já havia chorado, mas o sol agora beijava nossos corpos. Aquela bagunça já havia deixado o horizonte e veio o amanhã. Deitada em seu peito, entendi. Aquela foi a resposta que não consegui ouvir do furioso mar. Precisei viver pra saber que existia. Apenas vivi e aquilo sim foi intenso."A beleza de tudo é a certeza de nada".

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