A Garganta da Serpente
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Ana, a Mulher Magricela

(Dunia el Hayed)

Parte I

Era uma vez uma mulher que nunca havia almoçado ou jantado: sua vida tinha sido sempre de lanchinhos. A mãe dela, para que não brigassem na sua infância, sempre a deixara comer o que quisesse, o que resumia suas refeições... a meros lanchinhos!
O que são "lanchinhos"? Pães, sanduíches, bolos, bolachas, biscoitos, leitinhos, refrigerantes, chocolates, balinhas, pirulitos, docinhos, barras de cereais, salgadinhos, coisinhas do gênero! Olha, Ana até percebia que serviam outras coisas em restaurantes, mas não se interessava em ver de perto do que se tratava. Comer sempre foi perda de tempo para ela.

Como era muuuuuito magra, parecendo um cabide, deram a Ana, logo que lhe apareceram os seios, um emprego de manequim. Ela achava essa profissão pra lá de interessante, pois tiravam muitas fotos de seu corpo esquelético; estava sempre aparecendo em outdoors, nas revistas e na TV, além de propagandas de banco. Sem contar com os caras lindos que apareciam para paquerá-la, geeeeente!, eram tantos! E belíssimos, meu bem, de arrasar!!! Só era uma pena que nunca quisessem ficar a sós com a menina: apareciam sempre em duplas, e tão compenetrados um no outro que Ana terminava por dormir sem desfrutar de nenhum deles.
Aí Ana se cansou de viver apenas essa vidinha. Foi quando percebeu que quase não se mexia mais. Não que estivesse sempre no mesmo local, não. Sua vida exigia constantes viagens de avião. Uau, suas retinas viam o brilho de megalópoles hipnóticas por todo o globo! Todavia, Ana estava sempre socada em lugares fechados, com muitas pessoas junto. E todo gesto que quisesse fazer deveria ser muito bem pensado, pois poderia lhe custar milhões.
Não dava para relaxar nunca! Ora essa, ela não caminhava nem respirava mais sem que houvesse alguém explicando como Ana proceder em toda e qualquer circunstância! Os holofotes a faziam suar tanto que nunca se sentia disposta para uma refeição.
Bem, por muito tempo ela, como outras de sua profissão, nem sequer notara que se poderia respirar melhor, se mover com mais largura, rir espontaneamente, ter os músculos exercitados sem aparelhos de academia e um personal trainer. O mundo encerrado numa bolha cosmética.

Entretanto, numa bela manhã, a Magricela teve de esperar sentada pela montagem de um cenário. Aquele arremedo de banheiro vitoriano não havia ficado pronto no prazo. A equipe parecia quebrar a cabeça para fazer os fios passarem por dentro da banheira de louça antiga. Ela estava, por coincidência, na sua terra natal, numa grande metrópole brasileira. Olhava para o céu azul das nove horas, e a Mia, amigona, não iria para a mesma sessão de fotos, ela havia pegado as tiragens da cozinha, em estilo rupestre. Foi então. Quase sem querer. Parou a vista na montagem do mundo de mentira de que logo iria participar como personagem central (não!, não pode ser mentiroso: oferece tanto dinheiro em troca!). Homens, anônimos, cuidavam de detalhes práticos da empreitada fotográfica. Sua íris azul achou curioso que aqueles lá pudessem ser tão elásticos e fortes, sobretudo fortes!!! Uau...
Reparou que uma parte da equipe carregava pesados pedaços de cenário. Eles corriam e gritavam, berravam uns com os outros, riam alto. Liberdade horripilante essa... Haja visto sempre ter sido orientada para não demonstrar mais emoção do que uma boneca. Sua pele parecia ser de plástico. As pessoas da equipe tinham uma pele rude que parecia couro, de longe. Eram, para seus olhos acostumados a modos altamente refinados, crus e brutos, mas a cachola pensava nestes termos por desconhecer que o termo roots (raízes) aplica-se muito bem a essas pessoas de bastidor.
"Talvez não tenham tido oportunidade de processarem a realidade", compadecia-se Ana, a mulher mais magra do mundo, e estava certa! O mundo tocava essa gente de forma integral, derramando-se forte pelos poros.
"Então é possível!!! É possível" - pensava ela, sofregamente - "que haja coisas que não possuo!".
"Como podem se permitir risadas tão claras?" - ela concatenava, febril, num contraponto a sua rotina de ganhar uns bons tostões para cada vez que afrouxava os lábios e mostrava seus dentes brancos e retos.
Onde está o erro?
Onde está o erro?
Algo só pode estar errado, oras.

A falta de uma alimentação adequada começou a fazer efeito sobre o corpo de Ana, e sua mente enfraquecida secretamente passou a invejar aquele povo que podia rir livremente, o que a tornou doentia. Numa análise de alcova feita com seus produtores, Ana concluiu que o confuso sentimento no peito era desprezo e piedade. Comiseração pela ignorância dessa gente, a qual não sabia calcular o tempo, achando valer a pena simplesmente desfrutar da alegria. (Relógio do celular: meio-dia) Essa gente tem prazer em comer! Imagina! Ana sempre achara um sacrifício colocar qualquer naco de comida na boca, ela, que julgava a fome uma inimiga ferrenha, pois precisava ser magra para ganhar mais e mais dinheiro e ser invejada.
Da felicidade?, hum, ela só conhecia o termo naqueles idos tempos, mas sabia o que era ter muita gente querendo ser como ela! Embora fosse uma situação desconfortável, toda essa coisa de ser observada era uma loa entoada à sua vaidade. E, por associar assim o desconforto à satisfação, foi que cansou de namorar homens da sua categoria e se valeu de sua imagem para ter encontros furtivos com seres do sexo masculino daquela gente para a qual fora orientada a desprezar. Com um macho, em especial.
Uma noite, em meio ao equipamento e às peças de um cenário que seria fotografado no dia subsequente, pegou-se sorrindo à toa, deitada ao lado de um homem de braços grandes e definidos e tez muito escura. Ela havia aprendido a burlar todo o esquema vigilância montado para lhe proteger, e Ana sentia-se satisfeita ao contemplá-lo dormindo, roncando, como sempre fazia depois de uma série de trocas afetivas com que ele a presenteava nos últimos tempos. Supunha que ele ferrasse assim no sono por ter carregado muito peso durante o dia e estar cansado, mas para Ana isso era mera divagação; ela não sabia o que era cansaço. Então esta observação durou pouco tempo dentro de sua cabeça, e logo já prestava atenção apenas em si mesma, como fazia desde que se conhecia por gente. Aquele sorriso em seus próprios lábios a atordoou, já que nenhum dólar entraria em sua conta bancária. Ah, se seu empresário soubesse... (e a extensão dos lábios de Ana aumentam) Sapeca! Feio! Feio! (heheheheh...)
Sentiu-se rebelde e isso lhe deu prazer sincero. Tão verdadeiro que se levantou animada, olhando tudo ao redor: o homem e todos aqueles fios e caixas e painéis. Vasculhou pela memória e relembrou o caminho que a equipe de produção executava diariamente à sua volta, anônima, esquivando-se dos holofotes como lhes haviam ordenado tantas e tantas e tantas e tantas e tantas e tantas e tantas vezes quantas vezes foram necessárias para que eles as executassem automaticamente, num balé sincrônico e carregado.


Parte II

Ana quis sentir um pouco mais do gosto daquela vida fora dos limites. Não sabia que direção tomar. Pensou em pedir ajuda ao negão que a havia levado à loucura momentos antes, mas, como já disse, ele descansava o sono dos justos. Estava por si só, em frente aos objetos encantados do seu dia a dia e uma força secreta a animou. Parecia mesmo uma voz advinda do interior de suas carnes, incitando-a a executar a dança diária da plebe. Com um prazer subversivo chegou-se numas caixas que não pareciam tão pesadas assim, porquanto pequenas, e levantou resoluta uma delas.

Chocante foi conhecer o peso desta forma! Aquela caixa cheia de equipamentos metálicos resvalou de sua mão macia e foi chocar-se, certeira, sobre seu pé esquerdo!
Coitadinha!
Gritando como nunca havia se permitido, terminou por acordar o gigante adormecido. Vociferou ordens confusas, relembrando o timbre de seus assessores (ela própria nunca abrira a boca, só quando poderia lucrar com isto), mas o homem, ignorando o tom estridente daquela voz pouco usada, ocupou-se em levantar para fora do pé de Ana aquele trambolho.
- O que estava fazendo? - perguntou, ainda tonto de sono.
Mas ela estava em choque com a imagem de três dedos do seu pezinho lindo quase que seccionados, ainda pertencentes a seu escultural corpo por uns fiozinhos que, horrorizada... eram nervos! Oh, que náusea... Seu seguro corporal não cobria os pés. Achou que nunca iria precisar, e só fizera seguro para o básico: glúteos, seios, barriga, e lógico, do seu perfeito rosto.
O homem, despertando plenamente, compreendeu a cena e sem demora a pegou nos braços, chamou um táxi, com o intento de levá-la para um hospital. Mas, antes de alcançarem a porta, Ana teve o sangue-frio de pagar ao cara uma boa nota para que não adentrasse no saguão de recepção acompanhando-a (seria o fim de sua carreira). Ao entregar-lhe o dinheiro ousou encarar uma última vez os olhos daquele homem tão diferente de si, e o que viu foi algo inexplicável: eram humanos - tão vivos e humanos! E, sobretudo, magoados. Aquela riqueza de sentimentos anestesiou seu pé ferido: o que doía agora era um pedaço do peito, e Ana levou pouco tempo parada na observação do homem indo embora, sentou-se depressa no banco traseiro do carro vermelho. Numa vertigem ficou achando que a falta de sangue afetava também o coração.

Devido à debilidade de seu corpo acostumado a comer apenas lanchinhos, Ana precisou de muitas transfusões de sangue, além de uma série de antibióticos que deixaram seu cabelo e sua pele opacos, pois de fato chegara ao hospital anêmica e subnutrida. Ouvia os sussurros do corpo hospitalar pelos corredores, questionando:
- Como alguém com o capital que ela possui, essa aí..., a mulher mais invejada do mundo...creeeedo! Como pode estar com uma saúde tão precária?
Ela ouviu que precisaria ficar muito tempo internada, pois alguns nervos romperam e haviam atrofiado. Aos poucos as visitas dos contatos fotográficos foram minguando, até sumirem por completo. Visto que o nicho de trabalho de Ana requer um giro temporal muito acelerado, o tempo que ela permaneceu hospitalizada, em proporção, foi de quase eternidade.

Então o mundo em que Ana vivia empoleirada despencou. Seu empresário a abandonou e assinou contrato com Mia, aquela que se dizia sua melhor amiga. Sua mãe fazia muito estava morta, e ela própria nunca fora mãe, por causa de uma ojeriza a viscosidades orgânicas (além de que ia destruir sua carreira).
E o que via para si acontecendo?
Sua carreira arrasada.
Na solidão daquele quarto pintado de verde pastel muitas coisas passaram em sua cabeça.

Bom, na verdade a princípio nada se passava. O choque havia sido profundo. Contudo, sem ninguém para lhe dizer constantemente o que fazer seu cérebro aos poucos passou a trabalhar por conta própria. Primeiro num turbilhão confuso, devido à falta de treino. Os pensamentos ou vinham atropelando uns aos outros, ou demoravam horas para se completar. Ana era motivo de risos por ter sido famosa e subnutrida ao mesmo tempo. Não sabia expressar-se direito, e agora que não havia mais quem fizesse essa função por ela, acabara se obrigando a aprender. Ana parecia, no mais das vezes, uma debilóide. Idiota.
A equipe do hospital demonstrava à Ana um outro aspecto da outrora admiração massiva: um coletivo inteiro descontava nela o desprezo pelo mundo que ela representou, um mundo de bonecos vivos, com silhueta definida e alma amorfa. Diariamente, em todos os mass media, os produtores deste espetáculo insano militavam para que o povo amasse formas como as de Ana, para que as mulheres quisessem ser como Ana, para que os homens desejassem mulheres como Ana! Enquanto esta, em meio à verdade catártica que sem querer desnudou, apenas se perguntava, o foco voltado para o passado, lembrando daqueles seres anônimos transitando concentrados no trabalho:
- Como podem ser tão fortes?

Parte III

Apenas uma auxiliar de enfermagem percebeu que Ana também desconhecia a realidade por si mesma desnudada. A moça notava a cara de espanto da ex-modelo toda vez que chegava a bandeja do almoço ou da janta. "Parece até que já passou fome! Assim tão seca." - raciocinava Maria do Socorro. "Como uma coisa destas pôde acontecer?!"
Discretamente passou a observá-la.
Percebeu, por exemplo, que Ana não tinha propriamente um problema mental; era perceptível que aquela pobre mulher apenas desconhecia o mundo. Quando indagavam coisas simples para aquele saco de ossos, esperando que fizesse aquela cara já conhecida de abobada, Maria percebia nela a falta de familiaridade com o tema em questão. Itinerários, por exemplo: Ana desconhecia todas as linhas de ônibus da cidade, apesar de ter afirmado inúmeras vezes que nascera naquela metrópole (toda a equipe duvidando, perguntavam sem descanso: qual é sua origem?).
Devido a este clima hostil, foi aos pouquinhos que Maria se chegou à Ana. Temia tornar-se parte dos deboches. Como a fortuna da magrinha foi sendo aos poucos desmantelada! Uma lástima, uma lástima! A maior parte foi para o empresário, uma outra, as marcas para as quais Ana vendera o corpo reclamaram. E teve uma parcela também para Mia, que abriu um processo contra ela por calúnia e difamação, coisa que Ana não sabia direito o que era; o advogado contratado às pressas pelo seu antigo pessoal não soube explicar tão bem o significado dos termos, ficando o filho do diabo também com um montante razoável do espólio. Ana notara, nas últimas visitas de seus produtores, que a realidade de suas relações fortuitas havia vazado e se espalhado em mil fofocas, e ela suspeitava fortemente de estar sendo alvo de zombaria na nata da sociedade mundial.
Esta conclusão a fez sentir uma miserável vergonha, e Ana jamais teria coragem de enfrentá-los de frente outra vez, mesmo que saísse perfeita do incidente. Ela não suportaria mais encará-los face a face. E também porque sabia que, para o público-alvo, a lembrança de seu próprio rosto foi deliberadamente apagada. Já havia visto outras como ela serem expurgadas.
"Sejamos realistas", raciocinou. "Meu quotidiano do momento é este hospital". A beleza do corpo anêmico fulgurava nas primeiras semanas, trazendo algum conforto para Ana, a despeito das ironiazinhas sussurradas pelos cantos. Todavia, com a falta de uso, a imagem da ex-modelo foi ficando gradativamente ordinária aos olhos das pessoas comuns e ela cansou de enxergar apenas um pedaço de si no espelho do banheiro. Já se fazia bem enorme penteando os próprios cabelos.

As piadas foram ficando cada vez mais comuns e descaradas, à medida que o glamour da vida anterior de Ana perdia o brilho. Era difícil para qualquer mortal compreender: como alguém que não sabe nada-de-nada pode ganhar tanto dinheiro só para ser admirado? Achavam que Ana era uma exceção à regra, e dentro de cada um a certeza da desgraça dela como um castigo merecido os tornava mais e mais debochados, mais e mais cruéis.
Ademais, logo que sua imagem foi soterrada sua presença tornou-se pouco mais do que um incômodo. Inclusive porque. As despesas hospitalares ficaram significativas demais, e os administradores do hospital passaram a temer que Ana não tivesse recursos para pagá-las. Pois sim, aquele era um hospital de alta classe! Seu corpo magrinho ocupando um leito era um estorvo. Conversando a administração com os médicos acertaram entre si que quando fossem tirados os alongadores de nervos já estaria bom para mandá-la para casa. Nada de fisioterapia, nada de acompanhamento psicológico. Nada. Ir embora era o suficiente.

Ana, a magrela esverdeada, recebeu esta notícia como um abalo sísmico. Casa, desde quando? Ana não possuía um lar! Em imagens desconexas, lembrou com um calorão daquele homem negro com quem estivera no início de sua tragédia. Às vezes pensava que ele devia andar por aí acompanhado de um demônio. Sim, sim... fora o mesmo que havia sussurrado em seu orelhinha perfeita aquela sugestão inglória, a de segurar uma caixa pesada. Ele devia ter feito um batuque para prender suas coxas nas dele. "Que calor! Será febre?"
As lembranças do mundo fashion perderam o sabor muito rápido, uma desilusão insensível. Descascaram da memória como tinta ressecada.Terminou sua incursão ao reino das lembranças com a sandice com que provocou toda a desgraça em que se afundara. A parte interna de suas pernas esquentava toda vez que lembrava do trabalhador braçal, a despeito do ódio forçado. Em sua curta visão de mundo, ligava fatores que, olhados a fundo, percebe-se serem distintos.
E não é que o cheiro do homem não desgrudava da memória?! Não tinha mesmo outra coisa com o que ocupar a cachola! O curioso era que não havia raiva em seu coração, não. Aliás, a lembrança mais presente dele nela era a de seus olhos doridos antes de abrir a porta do táxi, tristes com a ignorância que Ana apresentava. A ausência de sentimentos negativos para com ele a confundia, afinal, tinha todos os argumentos necessários para culpá-lo para todo o sempre pela sua humilhação! Ela perdera tudo de mais valioso na sociedade por querer conhecer o mundo sub daquele... o mundinho dos ninguém abaixo do nível dela e... mas o pensamento hesitava naquele ponto. Algum elemento fundamental faltava, oh, sim.
Pesquisava-se a fundo, surpresa com essa desconhecida, afinal, agora tinha todo o tempo do mundo. Ao contrário de sua vida anterior, debaixo de flashs fotográficos, o tempo ali não era escasso, lavando-a por dentro, generoso, umedecendo abundantemente suas mucosas uma vida inteira ressecadas.

E então sua alma passou a usar o coração como solo para brotar.

Gradativamente, com o treino da percepção, foi se dando conta de que encontrava em Maria do Socorro alguém para desabafar todas essas novidades que sua alma descobria. Esta, por sua vez, sentia-se digna do nome que portava, conduzindo de um jeito singelo uma alma ingênua como a desta mulher, privada de realidade por anos a fio!
Maria do Socorro queria o nome do homem daquela noite em que Ana chegara ao hospital com três dedos do pé pendurados, para que pudessem conversar e descobrir qual o teor verdadeiro de daquele coração de mulher recém-iniciado. Ela tinha lá suas suspeitas... contudo tinha o cuidado de não professar este teor para Ana por intuir, como legítima fêmea que era, que aquela não compreenderia a profundidade dos próprios sentimentos. Todavia o nome do dito cujo escapava à memória de Ana; ela sempre encarara seus momentos de sedução ocultos com leviandade.

Parte IV

Quando soube que Ana iria embora, Maria ficou com uma pulga atrás da orelha.
Ela já havia conversado um monte com Ana, e ensinado várias coisas sobre o mundo, para que esta não caísse nas mãos de outros salafrários como seu antigo empresário. As duas haviam desistido de relembrar o nome do querido de Ana, esta chegando mesmo à conclusão que o mundo era grande o bastante para encontrar outro alguém com o calor daquele negão lindo. Maria dava um jeito de estar no turno de levar a acidentada para tomar um sol, e no amplo pátio daquele hospital burguês elas encontravam um cantinho com sombra e aroma de flores para fumar um cigarrinho depois das refeições. Trocavam-se histórias de vida e davam risadas da incompreensão geral do hospital. A vida era simples e lúcida para Ana agora, como nunca o fora antes. Era sempre uma série de detalhes que tinha que observar para não sair de padrões, cuja origem, aliás, nunca questionara.
Dois dias antes da partida de Ana, Maria não se conteve e começou:
- Ana, você olha para o almoço e a janta de um jeito tão estranho... Desculpe, não quero caçoar de ti, mas mesmo eu achava muito hilária a sua cara em frente à bandeja logo que chegou aqui.
- Oh, Maria, não se preocupe, eu sei que não há má intenção em suas palavras. - ajeitou-se melhor na cadeira, a perna esquerda ainda esticada dava uns fisgões nos músculos que careciam de fisioterapia - É que eu nunca tinha visto uma refeição de verdade assim perto do nariz antes de parar aqui.
Maria do Socorro, consternada, percebia aos poucos a inutilidade do capital. Afinal, dá para entender uma frase destas saindo da boca de uma criança que vive nas ruas, de um retirante a muito perdido na cidade grande, ou de uma africana com um bebê pendurado na teta murcha, mas da boca daquela que já fora o ícone de beleza mundial?! Grave!! Grave!!! Gravíssimo!!!!
Parecia deboche, e um ímpeto de fúria subiu pelo seu braço, contido apenas pela análise racional antes de chegar à mão, a tempo de não largar uma enérgica bofetada na face esmaecida daquela estranha criatura infeliz. O raciocínio que veio certeiro em sua cabeça acostumada com o objetivo dos fatos é que Ana nunca havia sido de si mesma, e quem merecia aquela bofetada provavelmente possuía nervos de plástico, e um corpo movido a combustível fóssil.
Sem muita delonga chegou a sua boca um nojo indistinto. Ela amava a humanidade de forma simples, sem muitos conceitos e definições intelectuais, era um amor de coração. Rezou baixinho, na verdade em seu íntimo, com uma paixão ardente por essas almas que não sabiam o valor real das coisas. Olhou para sua mais recente amiga e compreendeu que havia salvado uma alma. Seus olhos encheram-se imediatamente de lágrimas, que Ana colheu em seus dedos murchinhos de pele lisa. Naquele momento seu coração sangrava junto do de Maria, compreendendo a extensão do mal alastrado na humanidade. Agora, mas somente agora, depois de toda essa difícil travessia, Ana conhecia o que era a compaixão. Sentia-se afogada por uma vontade gigante de alterar o ritmo dessa ruindade burra, que a fizera de pateta por tanto tempo, que fazia a todos de pateta ininterruptamente.
Chorou junto da amiga, mão com mão, uma só consciência. Então Maria levantou a cabeça sacudindo-a, respirou umas duas golfadas de ar para reestruturar-se, e numa voz outra vez forte perguntou:
- Ana, você quer passar uns dias na minha casa quando sair daqui? Se a comida do hospital espantou você, que dirá uma refeição de verdade!
- Mas estas aqui são de mentira?
- Não são, mas comida caseira é outra coisa, hahahaha...! - e com uma piscadinha de canto concluiu: - Vai ver!
Ana preocupou-se porque não queria ser despesa morta para Maria. Afinal, agora que se dera conta de que nunca havia tido um lar, percebia que este ainda não fizera falta porque tinha muita grana para entupir-se de porcarias. Estava sempre tão ausente da realidade que não carecia conscientemente de nenhuma relação humana verdadeira. Ficou matutando horas sobre como poderia conseguir ganhar a vida de agora em diante, sentada nos limpos e brancos lençóis da (nem tão sua mais) cama.

Depois veio o sono da tarde. Nele Ana sonhou com uma pessoa de quem nem lembrava que havia existido, mas que muito a havia amado no passado. Lembrou-se da mãe de seu pai, que lhe fazia visitas esporádicas quando era pequenina. Lembrou-se de duas agulhas em suas mãos pequetitas, e a voz macia de vovó lhe falando como proceder com elas para formar um pedaço de tecido, mansamente... isso. Isso. Ao acordar, assim que Maria veio lhe oferecer um chá, contou o sonho e pediu ajuda para decifrar que espécie de agulhas eram aquelas. Pelo tamanho e descrição chegaram à conclusão que deviam ser agulhas de tricô. Que curioso, Ana lembrava-se de agulhas do tamanho de seus braços, mas Maria nunca vira agulhas tão grandes como os braços da ossuda! Os braços de Ana é que eram menores naquela época, claro! Deram risada do teor capcioso da memória. Como nos engana às vezes.

Último dia de Ana no hospital: Maria chega com um par de agulhas e um novelo de lã. Secretamente. A amiga estava feliz a mais de metro. Ensaiou, ensaiou, umas dez vezes. Quase desistiu. Nem um tiquinho de pano saia das agulhas. Cansou-se, fazia muito tempo que não se exigia tanto, e teve que sonecar. Sonhou novamente com sua avó, mas agora ela lhe falava diretamente, para a mulher já adulta que Ana Havia se tornado, e as agulhas tinham uma proporção realista. A boa velhinha ensinou-lhe novamente o básico do tricô e pediu que tentasse novamente ao acordar.
Quando os médicos chegaram para tirar os alongadores de nervos, pegaram a macilenta em flagrante. Riram abertamente - na cara dela! -, feito hienas desvairadas. "Que absurdo! Que absurdo, hohohohohoh, que absurdo, que absurdo, que absurdo, que absurdooooo...".
- Mas, oh, vejam! Ela está conseguindo de fato! - Maria entra com lençóis limpos e vê a cena, visivelmente emocionada.

Parte V

Maria levou Ana para morar com ela, e esta aí conheceu o que é um bom prato de comida! Ô! Arroz com feijão, batatas, mandioca, polenta, cozidos mil, carne de panela, frango assado, bife na chapa, massas, verduras e legumes, tudo preparado com temperos e mais amor.
Engordou, e ficou ainda mais bela do que antes, mas nunca conseguiu casar porque causa da perna manca, pois Ana nunca teve a oportunidade de fazer fisioterapia nela. E ela chegou mesmo a cruzar de novo com aquele tipo gostosão que mudou a sua história, mas descobriu que ele já era casado. Não obstante, pegou um vício por pele morena que nunca mais vai querer perder. E depois, com o passar dos anos e com o aumento da sabedoria, percebeu também que o bom negócio é ser livre mesmo, não ter que aturar alguém a lhe dizer quando e o quê fazer para o almoço ou a janta.
Ainda tinha uma réstia de dinheiro quando saiu do hospital, com o qual pagou a imensa fatura, e também comprou umas roupas numa avenida apertada que Maria denominou de "shopping chão".
E passou algum aperto até conseguir fazer alguma coisa para sobreviver além de tricotar. Apesar da perna torta aprendeu a fazer malabares, com o que ganha a vida hoje em dia. E todas as crianças da vila em que mora com Maria as amam profundamente.
Teve três filhos, de cores diferentes: uma indiazinha, quatro anos depois do acidente, de nome Naiama; um polaquinho como ela, três anos após a primeira, de nome Maurício, o Nininho, o céu em seus olhos.
E hoje, doze anos passados, uma mulher madura e inteira, olha para trás e se sente repleta de vida. Ela embala um embrulho minúsculo, um cobertor azul enroladinho. Sorri enternecida para a razão da existência da humanidade.

O bebê que hoje tem nos braços é da cor de seu amor, e seu nome é Natan. Quando olha aquela riqueza, soltando seus barulhinhos guturais de bichinho que é, Ana entende que não foi nenhum dimonho que tentou ela naquela noite, não. Quem é que a teria feito entender o que é amar senão o próprio Destino?

Livre-Arbítrio? Ela teve de aprender a dosá-lo, mas só o conseguiu bem depois.

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