A Garganta da Serpente
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Pingado

(Dunia el Hayed)

- É menino ou menina? - Marilu lascou de novo uma pergunta de abertura, antes de suas bundas encostarem na cadeira.
- Báh, louca, não deixa mesmo tempo do papo esfriar, tá certo, tá certo... mas não sou cliente, não irei embora.
- Hábitos da profissão. - e empinando a grande poupança para guardar o troco no bolso de trás da calça branca, justa - mas ainda não me respondeu.
E a voz secou na garganta da Glória. Ela tentava falar, mas um acesso de tosse a impediu. Ainda não havia se acostumado com o cigarro novamente.
- Nem fuma mais, que loucura a minha te oferecer, tu deve até estar amamentando!
Com a voz sumida:
- Não sou radical. Daniel.
- Hum?
E Glória, recuperando o fôlego num gole de água:
- Daniel, é o nome de meu filho.

Os pingados chegaram. Verteram o açúcar em silêncio, pequenas e singelas quantidades. Naquela que não era uma esquina muito movimentada. Assim, as colherinhas faziam tilim-tilim docemente.

Régias! Absolutas!

- A Samira também ficou grávida. Foi mês retrasado, acho. Assustou-se com o seu despejo e tirou.
- É mesmo? - mas o que acontecia com as gurias de lá não a emocionava mais. Que coisa.
- Quase morreu, Glóóóória, como aquela guria sangrou! Usou a buchinha, como tu mesma disse uma vez.
- Sim, ficam querendo usar canela, louro, esses chazinhos, e nada disso tem a força. Ou é buchinha, ou é raiz de romãzeira.
- Mas ela quase morreu! Eita força!
- Tomou muito de uma só vez,não foi? Chá tem que ser na insistência, não na pancada.
- Então tu devia ter explicado pra nós.
- Eu lá ia saber que outra guria do Rogério ia pegar barriga? E logo a Samira, ela usava pílula, ué.
Mas Marilu, numa voz abafada pelo cigarro entre os lábios, explicou a sina da colega:
- A pobrezinha apaixonou-se por um cliente. Eu mesma já havia atendido ele certa vez, é muito atencioso.
- Fazem isso para transarem sem camisinha, que boba.
E sentiu tristeza pela antiga colega, que era gente boa.
- Mas, e a pílula?
- Resolveu que ia ter um filho daquele almofadinha. O Rogério perdeu um bom cliente e se emputeceu.
- Como assim? - Glória lembrava do temperamento colérico de Rogério.
- Ficou puto, ao jeito dele, sabe como é... botou a menina a trabalhar sozinha numa esquina e pagou um grandalhão para pedir serviço. Viu a menina subir as escadas de cabeça baixa... - e Marilu arremata, dramaticamente, a largar baforadas redondas e furadas, como num filme da sessão da tarde.

Que situação humilhante, pensou Glória, agora sim chocada.
Mas ainda não havia terminado, a danada da Marilu:
- A coisa já se ia longe, e o Rogério resolveu ir espiar pela fechadura o porque da demora. Vi o negão dar boas risadas com a guria. Hum...
Agora só faltava uns dois goles do café com leite, estava bem açucarado. E quase frio. Ambas olhavam de vez em quando para o fundo de suas xícaras, relutantes em beber agora o restinho e assim não mais pretexto para conversa, ou nem tomar depois, pois estaria insuportável o gosto.
Marilu deu uma tragada funda e ficou lembrando da amiga em comum de ambas ali presentes.
Quase sussurrou, era para si mesma: "e a Samira aguentando a banana, se é que me entende, ...hempf"
E com o tino da profissão saiu das próprias entranhas e retomou o fio da meada:
- Daí ficou tão, tão furioso que entrou no quarto no meio da função mesmo e saiu a esbofetear a guria; deu dois socos na cara dela.
- Na frente do cliente?
-Não era cliente!
- Hum... era contratado.
- Sim, mas o cara ficou com o saco cheio, huahuahuahua... -Marilu ribombava na cadeira, quase às lágrimas, lembrando do tamanho que devia ser o saco roxo daquele homem imenso - e ameaçou matar o Rogério.
- Caraca!
- Sim! Duas semanas depois a Samira tomou mais dois socões, que foi quando o grandalhão parou de rodear o Continental.
- O louco tomou as dores da mina?
- Sim, querida Glória... tomou as cãibras de seu escroto, ué.

- O amoreco da Samira pulou fora, né?

Nem precisava responder. Oh, ele não teria cabeça para enfrentar as circunstâncias que moveu! Esses mão-macia, sempre nessas.
- E Samira, conseguiu esquecer? - e Glória anelava as pontas ainda loiríssimas do cabelo.
Nem precisava responder.
Como as palavras podem ser inúteis às vezes. Muitas vezes.

Os fundos das xícaras já eram vistos.

E de Glória pouco foi falado.
Olhava Marilu como olhara sua placenta. Agora não era mais parte dela.
- Levar ponto na periquita é pior que dois paus.
- Ui, tu vai tirá-los agora, né?
- Quer ver? Vamos lá no banheiro.
- Eu pagaria para ver.
Olhando-se cúmplices, e abafaram suas risadas infames.

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