A Garganta da Serpente
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Torso deitado e ventre nu

(Dunia el Hayed)

Não cansava de alisar o torso deitado sobre seu ventre nu. Um calor subia das ancas besuntadas de prazer. Sentia-se cheirando a fêmea.
Acabou e Fabrício a agarrara com aqueles braços fortes, embora pouco musculosos. Dava a Glória um prazer irracional senti-lo fazendo das carnes dela uma bolinha que coubesse entre seus braços gratos depois do ato.
Hoje sentira-se um pouco oprimida, na verdade, mas estava com aquele calor apaziguante entre as pernas. Não conseguiria mais dormir pelo paradoxo, cujo mosaico completo só seria visualizado sete anos depois.
E hoje Fabrício a levara para a parte portuária da cidade, onde havia muitos hoteizinhos com pernoite a dez reais. Aquela novidade a enchia de energia, ele era franco e cheio de defeitos charmosos.
Ou será que Glória sucumbira e finalmente se apaixonara?
Sem conseguir livrar-se do abraço de urso, principiou a fazer cafuné nos anéis negros do cabelo do amante. Amante dela, ora, ele sim não tinha medo de ser livre. Assim como ela, Fabrício deveria se deitar com outras; ela tinha outros.
Algum cacho rebelde entrou no ouvido do homem que coçou o rosto num gesto de impaciência, libertando-a.
Oh, a liberdade, atente-se a ela, Glória! Por pouco ela não escorre entre seus dedos, como já viu acontecer com outras mulheres.

"Vou dar uma volta, conhecer este nicho mundano."

Ruas semidesertas, mulheres de corpo exposto, olhos doces, olhos enjoativos.
Uma palavra perfeita, vamos brincar como na infância, junto da Júlia. Eu tenho medo. Posso ser confundida. Estou sem dinheiro, sem emprego. Olhar? Cupidez.
Exatamente. Olhares como flechas de cupido, com uma conta na rabeta.

A proposta.
Rogério era seu nome.

Encheu-se de nojo.
Voltarei para o hotel.

- Hospedou-se ali sem cobrar pela noite? É a mulher mais burra que já conheci.

Ofendida e desconfortável com a possibilidade de ser verdadeira a proposição, galgou as escadas até o número 23. Esperou o peito parar de arfar antes de abrir a porta. Duas putas passaram sem olhá-la. Os clientes delas sim, de baixo a cima.
Tudo firme e no lugar, Glória é bela e loira natural. Seus olhos são castanhos profundo e não é nem baixa, nem magra.

Outra palavra perfeita, venha Júlia a minha mente, estou perdida como no dia que nos conhecemos, amiga.
Escrutinada, ela estava sendo escrutinada por camaradas parecidos com um amigo seu.

- Glória, que fazes aqui?
E era o Lúcio!

Entrou no quarto, o cheiro do sêmen de Fabrício misturado com sua lubrificação estava impregnado no ar. Reconfortante, e Júlia já estava sendo devolvida à gaveta do armário do passado.

Ali, sob a face do amor consumado, escreveu uma carta de lucidez extrema, para ser lida em sete anos.
Aconchegou o corpo no de Fabrício, que a abraçou cheirando seu pescoço, a soltar grunhidos animais de satisfação inconsciente. Aquele som a reconfortou depois da aventura. Permaneceria neste abraço eternamente, ele murmurava com ternura, e o corpo cálido do macho a devolveu a si. Esqueceu aquele mundo fedorento lá fora, do qual notaria apenas restos pelas calçadas matinais, amanhã. Embalou-se relaxada, amorosa outra vez.

Mas, ao chegar no limiar do Sonhar, uma aflição percorreu a alma de Glória.

Aquele mundo lá fora era a realidade dele, sua liberdade. Até que ponto era seguro continuar a encontrá-lo?

"Deixe para depois." - disse Morpheu finalmente raptando-a.

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