A Garganta da Serpente
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Na superfície do chão

(Daniel Oliveira)

Uma pedrada nas costas, levei uma pedrada. Não mais me levanto, não mais posso caminhar ereto, não mais guardo rancor dele, e dos outros...

- Quem te acertou a grande pedra?

- Um homem com raiva, com fome, com sede.

- Ele sorriu?

- De maneira alguma. Antes, lamentou.

- Por que?

- Certamente porque não queria fazer aquilo.

- E você, o que fez?

- Fiz nada, em absoluto.

- Nem chorou?

- Um pouco só, pelo homem.

- Valia a pena?

- Tudo vale a pena se a pena não é pequena.

- Ele, o homem, te viu chorando?

- Sei lá! Acho que viu.

- Como assim acha?

- Ele também estava chorando.

- Chorando?

- Sim, chorando. Ele se arrependeu.

- Se arrependeu?!

- Sim.

- E você, o que fez então?

- Fui até ele e estendi-lhe as mãos.

Mas o tempo passou, e, decúbito, já não me levanto há algum tempo. E a pedrada nas vértebras curvadas fez-me sujeito incompreendido, um ser réptil desta terra louca. Fez-me, no tempo e espaço, amigo das coisasimples, igualado à superfície dos objetos amorfos, dos elementos limpos e promíscuos. Inevitavelmente, minhas pernas se atrofiaram, meu corpo metamorfoseou-se em réptil, cobra inofensiva que atrai somente solado de sapato e vara curta.

Para daí em diante: torturas. E ninguém, absolutamente, sabe o que o que é estar atado a uma cadeira dentro de um barraco pegando fogo. Você gritando, pedindo ajuda, socorro, não querendo morrer carbonizado. Atado neste mesmo barraco com o pênis pregado num toco, e com o mesmo fogo ardente, uma faca afiada deixada ao seu alcance. Duas escolhas. Um assassínio. E você, então, decide...(?). Nem sei. Difícil imaginar. Difícil. Tudo. E quem consegue escapar? E quem é capaz de se desvencilhar?

Chão. Poeira. Terra-alimento. Cuspe. Mistura. Contento-me...

E aí, quem me levanta? Nenhuma palavra. O ser agro rejeita minha situação lamentável. Imundo, esperando sustentação. Rejeitado, sozinho. Mania minha de querer continuar me arrastando, seguindo rastros, sestros, medo de me perder. Medo de sair fora do caminho que leva ao cetro. Até onde consigo ir, a força que me limita. O entorpecimento da energia vital. Jovem, e a perna purulenta, uns inchaços. E daí, ademais, a vontade... de querer, de não poder, poder, sorrir, cantar. Sonhar, esta a necessidade que se assume, grita, pede. Em minha idade, verde ainda, sucumbo melancólico. Algumas cólicas, inadaptação de meu estômago. Comendo terra, capim, farelo, o que está à superfície, sucumbo, tudo é melancolia, sem amigos, pai e mãe, irmãos... Onde encontrar água? Onde? Disseram-me que nalguma poça, nalguma esquina por aí. Mas, e a chuva que não chovia? Sequidão, agonia. Vontade... tanta. Sujeira. Queria trocar a roupa. Nova. Roupa. De verdade. Que tudo se aparentava mentira. Que tudo que eu queria era que me tirassem dali, daquele canto, escondido, temendo zombaria, morte, humilhação. Afinal, tantas... Acostumado. Adaptado. Meio confundido com a poeira. Reles. Atingido em cheio pelo grito, o riso escarninho. A solidão. Infiltração dos outros em mim, fazendo-me de atração lúdica, um brinquedo que não manifestava reação repulsiva, que não tinha língua para dizer o quanto... sofria... sentia... uma dor, uma dor... queimando, chamando, pedindo. Auxílio à dor, à dor, à queimação, ao clamor. Ao peditório excessivo. De misericórdia. De ajuda para me erguer. Para tentar ao menos. Caminhar. Lutar. Reagir. Recomeçar. A vida em ferimentos. Cuidar deles. Dos braços, das pernas. Tortos. Deficientes. Uma dificuldade tentar. Receber. Que ninguém olhava, sorria, despendia. Tempo. Bom. Aquele. Sujeito sereno. Pensei ser, mas não era. Porque ante sua mão levantada em minha direção, um sorriso meu, agradecido, esperançoso, ao que depois o choro, a decepção, o ódio, ante a contra mão do aperto e do apoio, o tapa, em cheio, no meu rosto, no meu brio, em minha dignidade. Sujeito inumano aquele. Sujeito. Sem caráter. Fé. Que podia ser encarnado em mim, um dia, Jesus, filho de Deus. De igual forma sujo, largado ao léu, deixado no chão, sozinho, braços tortos, pernas tortas, deficientes, gente também, que respira, que sonha, que endoidece. Pede clemência. Aos céus. Aos homens. Às crianças. Elas. Advertidas pelos maiores, sem visão altruísta, a não se aproximarem, a não presentear deficientes com sorrisos, que é perigoso, que é criatura bicho que come, que pega, que alicia. Ele, eu. Tantos. Por aí, por ali, por debaixo. Das pontes, o rio. Lágrimas que correm por debaixo parecem não mudar nada. Coisa triste isso. A que os outros chamam de afastamento. Porcos espinhos. Nós. Os outros. Eles. Os povos das línguas diferentes. Dos sonhos mortos. Nós. Todos. Tantos. Aqui, ali, bem perto de você. Debaixo, eu. Sempre. Olhando, e você nem vendo. Olhando, pedindo, e você tapando os ouvidos. Suplicando para que me ergam, que me deem uma chance. Uma. Uma apenas. O resto se resolveria depois de erguido. Depois que fosse capaz de ir até lá. Sim, lá. Naquela fonte que dizem que cura, que limpa, que sonda. Talvez... Talvez nada! Talvez nunca, meu anjo... Meu mundo de dúvidas. De incertezas. Estou cansado disso. Em vias de entregar-me. De deitar e dormir sono profundo. Estou é certo de que haverá (sempre há!) uma saída. Um jeito. Um salvador. Um alguém. Santo. Que virá, que pegará em minhas mãos calejadas de tanto utilizá-las como patas. Vai me erguer este alguém. Vai me ajudar. Conversar comigo. Amigo será. Será. Sempre este será. Um dia, creio. Creio. Creio. E creio! Vem a cura, vem o guindaste. Que me erguerá, que me sustentará em pé, ereto, olhos bem abertos, língua eficaz para o protesto, o grito de júbilo e de reação. A resposta flecha reflexo do que se acumula, do que se sustenta. E então poderei caminhar tranquilo até a fonte, e dela beber a boa água que me limpará desta sujeira insigne, que me purificará destes ódios grudados em mim em forma de cuspe.

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