A Garganta da Serpente
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17 madrugadas

(Douglas Tedesco)

Não havia qualquer sinal de nuvens, mas certamente poderia chover, não havia o mínimo indício de estrelas, mas possibilidades do astro rei brilhar ao som das nove badaladas não eram descartadas... Eram estas as maiores preocupações de Da Veiga, preocupado com a instabilidade do clima, para assim tentar ausentar da memória a própria instabilidade emocional. Sentado de pernas cruzadas no banco da pracinha em frente ao velho coreto, ele buscava inspiração para uma nova obra literária, (acreditava ser onde estava o local ideal, pois seu último livro fora concebido num local como aquele, e era tudo exatamente igual... Mas quem sabe fosse o clima). Desistindo do local, não da ideia, preparou-se para partir: guardou a caneta de grife no bolso, e o bloco de notas no terno. Levantou e foi. Já dirigindo o carro, que deixara estacionado a alguns quilômetros de onde estava, pensou na esposa que certamente o esperava com desejos carnais, de baby doll, sentada no sofá. Mesmo que ele negasse fogo á Leia, ela continuaria feliz, ou não tão triste quanto ele, já que depois de Dr. Euclides, era o único que sabia da doença cerebral da esposa, doença incurável e perigosa, descoberta pelo dito médico da família á poucos pares de anos. Da Veiga subornava periodicamente Euclides para que nada contasse á Leia, e assim, fosse contra tudo que jurara na cerimônia de formatura, mas a voz do dinheiro tinha maior potência, assim quando chamado á casa do casal para atender aos ataques dela, fingia ser coisa pouca, segundo Da Veiga, para o bem da mulher... Chegou em casa.

Ao abrir a porta, ouviu a doce voz. Leia arrumou a alça do baby doll , levantou-se cínica e enérgica:- Perdão meu marido, mas quando nos casamos não ouvi o que o juiz ou o padre disse sobre a função de musa.

A este ponto, as janelas dos vizinhos se enchiam de luz, despertados pelo começo de confusão na "casa do escritor" como chamavam os próximos do local. - Realmente não falaram nada, mas você sabia de minhas condições de literato, da sede da minha imaginação, poderia cooperar! Ou prefere que encontre uma musa?

- Por tudo Da Veiga, eu não mereço... - E sua voz foi calada por suspiros, e goles em seco, Leia caiu inconsciente.

Dr. Euclides não tardou a chegar, a acordou, medicou e pediu para que a mesma se ausentasse da sala, com a desculpa de sempre: era cansaço, stress, e nada mais. A sós com o dono da casa, Euclides foi franco, frio:- Como estamos juntos nessa Da Veiga, tenho que lhe dizer que sua esposa não está nada bem, ela não tem tomado os medicamentos como indiquei e seu quadro se agravou muito... - os olhos de Da Veiga era púrpuras, e pelo azul lembrava um lago límpido - E está em fase terminal, infelizmente não há nada que eu, ou qualquer oura parte da medicina possa fazer!

Não, não podia ser, ele não ouvira aquilo, algo tão rotineiro como assinar o cheque contendo o valor combinado, não lhe trazia notícias tão ruins, mas agora, poderia nascer o sol dentro daquela casa e o impacto, o nada, a ausência premeditada, o pesar e arrependimento o corroíam vorazes:- Quanto... Quanto tempo ela tem doutor?

- Não há como lhe dizer precisamente, mas viverá apenas em torno de mais dezesseis dias, no máximo dezessete, e a morte virá de forma súbita, de repente e a levará sem dor, ou perguntas.

- Menos mal se não irá sofrer...

- Sim, mas agora precisamos mais do que nunca contar a ela.

- Agora mais do que nunca é que não podemos contar. Vamos deixar que assim seja, que acabe e pronto, e para garantir seu silêncio, tome isto! - Da Veiga lhe entregou o cheque em altíssimo valor que preenchera enquanto o médico manifestava a ideia contrária á sua. - A quem já fez isso durante tantos anos, não será difícil fazer por mais alguns dias.

Leia acordou, e vendo a ausência do marido na cama, o procurou, estava sentado junto à máquina de escrever, feliz por estar redigindo uma nova obra, não sabia Leia mas a obra tratava-se da vida dela, da tragédia que aconteceria logo em poucos dias. Festejando a distância do esposo, voltou ao quarto ligou dali mesmo pra a casa de Laus, uma grande escritora, que há tempos era o segundo lugar nas listas de mais vendidos, já que Da Veiga tirara seu maior título desde que surgira no mercado. E para obter vingança, reverter a situação, Laus aproximou-se da esposa dele, passando de amiga á amante, já que secundariamente nutriam desejo pelo próprio sexo, e Da Veiga sabia da amizade, mas nem imaginava que a falsa concorrência planejava seu fim. Laus atendeu sonolenta, e o outro lado da linha foi logo lhe dando a informação sobre o novo livro, que estaria pronto em breve, que seria enviado á ela, registrado, publicado, e assim de toda forma vingado! Ninguém além do que a esposa de Da Veiga apaixonada por ela, poderia ser mais útil no caso. Dias passaram-se rapidamente, a vida de Leia inconscientemente passava-se, o livro estava pronto, ao primeiro afastamento do real autor, ambas encontraram-se no apartamento onde a ideia fora materializada, e os originais glorificados. Tomaram um bom drinque, doses e mais doses de uísque, e já com as sulfites contando uma história dentro de sua bolsa, Da Veiga chegou.

Cumprimentaram-se, por parte de Laus a falsidade gritava, Leia foi ao quarto tomar medicamentos e teve a magnífica ideia de colocar na vitrola seu vinil de tango. Da sala os demais puderam ouvir, encantaram-se.

No dia seguinte, ao meio-dia, Laus já havia registrado o livro, e encaminhado á editora, dentro de poucos dias estaria nas bancas satisfazendo fãs e fustigando a concorrência devida. Almoçava sozinha, simulando comemoração, enquanto Da Veiga procurava a dita obra nos locais mais imprecisos, e Leia repetia as palavras de que nada sabia sobre o sumiço dos papéis. Já á beira da insanidade, e tendo noção de momentos presentes com a insanidade, Da Veiga ligou para a editora de costume, e antes que perguntasse se por acaso não havia deixado nada lá para publicarem, o diretor geral, muito amigo seu lhe informou:- Amigo, meu caro amigo, você tem que ver a nova obra de Laus, é incrível, tão simples e tão fantástica...

E lhe deu todas as informações que ele precisava para ter certeza de era seu livro a estar sendo impresso, no nome de outro, no nome da outra. Manifestou-se contra e argumentou quanto á falsificação, o amigo lhe respondeu que nada era possível fazer, pois estava registrado, e lhe aconselhou a saber perder.

No auge da impaciência conseguiu esperar mais alguns dias, e viu nas livrarias, nas revistas, na TV, o novo livro de Laus, comprou e leu poucas partes, sim era o seu, e nada poderia ser feito. Foi até a praça do coreto, onde a autora autografava para imensa fila, atormentando, atendendo á todas as expectativas dela, ele fez escândalo, tentou agredi-la, mas foi afastado, mal visto, e poucas horas depois ainda teve de aguentar TV, rádio, e outros meios de comunicação que noticiavam o fato, até mesmo um coro na sacada de seu apartamento que gritava o clamando péssimo escritor... Era o fim. Quatro livros, quarenta e poucos anos, alguns bens valorosos, conta bancária gorda, nenhum filho pra deixar tudo, apenas parentes distantes. Poderia se suicidar e na outra vida chegar acompanhado da esposa, por falar nisso, tinha de encontrar forças, pois ainda havia a esposa e sua futura morte. Leia tentou consolá-lo, mas não sabia ela, que era o fim de uma carreira, de anos de trabalho, de um sonho... O sonho: como qualquer escritor, a vontade vem desde criança, é o melhor em redação na escola, as professoras sempre o incentivam a participar dos concursos e recitais da escola, escreve de tudo, odeia encomendas, mas as realiza, também odeia matemática, e ama português e literatura, ajuda os amigos nesta questão. Tem um arsenal de lapiseiras e canetas, conhece o melhor grafite e todo o material necessário para boa escrita, quando adolescente colabora com a imprensa local e se apega na amizade de grandes escritores, até que por obra do destino, e por puro mérito é lançado ao verdadeiro mercado, e se realmente for bom, continua até o fim de seus tempos, caso não seja, o público o despeja sem piedade... Despertado por um grito de Leia, Da Veiga a procura, vê a porta aberta e Laus que na verdade era esposa de Euclides, contou toda a verdade sobre a doença dela, e se foi. Passando mal, Leia faleceu ali mesmo no corredor, Da Veiga viu tudo, e como se fosse nada, fechou a porta, colocou na vitrola o vinil de tango e pôs se a dançar sozinho.

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