A Garganta da Serpente

Dostoiévski

Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski
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O mujique Marei

(Dostoiévski)

Numa segunda-feira de Páscoa, uma tepidez impregnava o ar, o céu estava azul, o sol, vivo e quente, mas minha alma permanecia mergulhada em trevas. Eu errava para lá das casernas, contando as estacas de maciça paliçada que formava a muralha da prisão, mas sem muita vontade de contá-las, se bem que isso fosse para mim uma ocupação habitual. Os detentos "tinham repouso" por ocasião do segundo dia de festa; muitos estavam embriagados, a cada instante injúrias e golpes violentos eram trocados pelos cantos. Outros cantarolavam canções obscenas, jogavam cartas debaixo das baias; alguns detentos, meio brutalizados por seus companheiros devido a excessiva turbulência, permaneciam no leito, cobertos com uma pele de carneiro muito fina, esperando que voltassem a eles; diversas vezes já as lâminas das facas tinham brilhado . . . tudo isso, durante esses dois dias de festa, me torturava a ponto de me deixar doente. Nunca, de resto, pude suportar, sem asco, o espetáculo dos excessos do povo, e neste lugar menos que em qualquer outro. Nesses dias faltavam sentinelas; abstinham-se de revistá-las, para ver se descobririam aguardente, compreendendo que era bom dar folga, uma vez por ano, mesmo a esses réprobos, sem o que teria sido pior. Por fim, senti o ódio inflamar-se em meu coração. Encontrei um polonês, M-cki, preso político; lançou-me um olhar sombrio, olhos faiscantes e lábios trêmulos: "Odeio esses canalhas!", disse-me em voz baixa, rangendo os dentes; depois se afastou. Voltei à caserna que acabava de deixar há um quarto de hora apenas, como um insensato, no momento em que seis camponeses esquentados caíam de uma vez sobre um tártaro embriagado, chamado Gázin, para o acalmar. Batiam brutalmente, tanto que semelhantes golpes teriam bastado para derrubar um camelo; mas, sabendo que seria difícil matar esse Hércules, malhavam sem piedade. Agora, de volta à caserna, notei Gázin lá no fundo, a um canto sobre a baia, inanimado e quase sem dar mais sinal de vida. jazia coberto por uma pele, e todos lhe passavam ao lado, em silêncio: esperava-se que no dia seguinte despertasse; "todavia", diziam "pode ser também que o pobre-diabo arrebente". Alcancei meu lugar e deitei­me de costas, com as mãos atrás da cabeça, fechando os olhos. Gostava de ficar assim estendido: não se incomoda os que dormem, assim pode-se divagar e meditar à vontade. Mas eu não divagava: meu coração palpitava ansiosamente, e eu tinha sempre no ouvido as palavras de M-cki: "Odeio esses canalhas!" De resto, para que descrever essas impressões? Ainda agora me acontece sonhar com elas de noite, e não há, para mim, pesadelo mais horroroso. Ter-se-á talvez observado que até hoje quase nunca falei da minha vida na prisão. Quanto às minhas Recordações da casa dos mortos, há quinze anos que as publiquei como sendo de uma personagem imaginária, de um assassino que teria matado a mulher. Acrescento, a esse propósito, a título de simples por­menor, que muita gente crê e sustenta, ainda hoje, que estive exilado na Sibéria por ter matado minha mulher!

Pouco a pouco, caí numa espécie de torpor e abandonei-me ao fio das minhas recordações. Durante meus quatro anos de trabalhos forçados, lembrava-me incessantemente dos dias passados, e acredito ter vivido minha vida uma segunda vez por essas recordações. Elas nasciam de si mesmas; raramente as evoquei com propósito deliberado. O ponto de partida era uma coisa insignificante, um traço por vezes imperceptível que, pouco a pouco, se desenvolvia em imagem, tornava-se uma impressão viva e completa. Eu analisava essas impressões, acrescentava novos toques a essa matéria vivida há tanto tempo e, mais ainda, modificava-a e corrigia-a sem cessar. Toda a delícia da coisa consistia nisso. Lembrei-me, de repente, aquela vez, de uma época imperceptível da minha infância, quando eu tinha apenas nove anos de idade. A esta hora, acreditava bem ter esquecido tudo, mas aprazia-me então nas recordações da minha primeira infância. Lembrei-me desse mês de agosto no campo. Fazia um tempo seco e claro, mas um pouco frio, porque havia vento. O verão chegava ao fim, e logo seria preciso retomar o caminho de Moscou, aborrecer-me ainda todo um inverno a estudar francês; por isso sentia o coração opresso à ideia de deixar o campo. Atravessei a eira onde se amontoavam os feixes de trigo e, transpondo uma ravina, subi por uma mata espessa que se estendia para além da ravina, até a floresta. Como me internasse mais na mata, ouvi não longe, a trinta passos, na clareira, um mujique que trabalhava sozinho. Sabia que ele trabalhava ao longo de uma rampa que o cavalo se esfalfava terrivelmente por escalar, porque de vez em quando chegava até mim o grito do camponês: eia! eia! Conhecia quase todos os nossos mujiques, mas não sabia qual deles trabalhava, e de resto isso me era indiferente, tanto a minha lida me absorvia. É que eu também estava ocupado: quebrava varas de aveleira para fustigar as rãs. As varas de aveleira são muito bonitas e bem mais resistentes que as da bétula. Escaravelhos e besouros prendiam também minha atenção porque eu os colecionava. Há alguns ricamente enfeitados. Gostava ainda dos vivos e pequenos lagartos, de um pardo avermelhado, malhados de minúsculas manchas negras; mas tinha medo das cobras. Aliás, encontram-se bem menos cobras que lagartos. Havia poucos cogumelos por ali; para colhê-los, era preciso ir para o lado das bétulas, e eu me preparava para isso. Em minha vida, nada amei tanto quanto a floresta, com seus cogumelos e suas bagas selvagens, seus insetos e seus pássaros, seus ouriços e seus esquilos, com o úmido e suave odor de suas folhagens putrefatas. Ainda hoje, escrevendo isto, aspiro todo o perfume da nossa floresta, lá longe, na aldeia; essas impressões durarão tanto quanto minha vida. De repente, em meio ao grande silêncio, percebi muito distintamente este apelo: "Ao lobo!" Soltei um grito e, louco de terror, berrando com quanta força tinha, precipitei-me na clareira, em direção ao mujique que estava trabalhando.

Era o nosso camponês Marei. Ignoro se existe tal nome, mas toda a gente o chamava de Marei. Um camponês de uns cinquenta anos, robusto, muito alto, com uma barba ruiva e espessa, já grisalha. Eu o conhecia, se bem que mal lhe tivesse falado até esse dia. Ouvindo meu grito, ele parou a égua; e como eu, chegando até ele, com uma das mãos me agarrasse à sua charrua e com a outra à sua manga, ele percebeu meu terror.

- Um lobo! - gritei eu, sem fôlego.

Ele levantou a cabeça e involuntariamente olhou em torno; por um instante quase me acreditou...

- Onde está o lobo?

- Gritaram... alguém gritou: "Ao lobo!" - balbuciei.

- Vamos, vamos, não há lobo, você sonhou; que viria fazer um lobo por aqui? - murmurou ele para me sossegar. Mas, todo trêmulo, agarrei-me ainda com mais força à sua blusa, e minha palidez devia ser muito grande. Ele me olhou com um sorriso inquieto; tinha medo por mim e se alarmava visivelmente com o meu estado.

- Ah! como você teve medo, ora, ora! - disse ele meneando a cabeça. - Vamos, já acabou, menino. Vejam como ele é valente!

Estendeu a mão e subitamente me acariciou a face.

- Vamos, está acabado, vamos, Deus esteja com você: faça o sinal-da-cruz.

Mas eu não me persignei; meus lábios estavam crispados nas comissuras, e creio que foi isso o que o chocou mais. Aproximou seu dedo grosso, de unha negra, sujo de terra, e com doçura aflorou meus lábios convulsos.

- Vejam isso, ora, ora! - disse-me ele com um largo sorriso, quase maternal. - Senhor, mas que é isso então? Você bem vê que não há nada, ora!

Compreendi enfim que não havia lobo e que esse grito: "Ao lobo!" não era senão uma ilusão. Entretanto, esse grito tinha ressoado tão distintamente! Mas gritos semelhantes (e que não tinham somente relação com lobos) eu já tinha ouvido uma vez ou duas e sabia que se tratava de uma espécie de alucinação (mais tarde, quando cresci, esse fenômeno desapareceu).

- Vou-me embora - disse eu, olhando para ele, com um ar interrogativo e tímido.

- Vamos, vá, eu o seguirei com os olhos. Não deixarei que o lobo o apanhe! - acrescentou, sempre com o mesmo sorriso maternal - vá, que Deus o acompanhe, vá - e, fazendo sobre mim o sinal-da-cruz, ele mesmo se persignou. Parti, não sem lançar olhadelas para trás, a cada dez passos. Enquanto eu me distanciava, Marei permanecia imóvel com sua égua, e olhava na minha direção, fazendo um sinal com a cabeça, quando eu me voltava. Devo confessar que estava um pouco envergonhado por ter feito alarde de tal terror; mas o meu medo do lobo não diminuiu enquanto não subi a outra rampa do barranco e não saí junto aos primeiros feixes; ali, todo sinal de pavor se esfumou, e meu cão Lobinho subitamente se atirou contra mim. Com Lobinho eu me sentia plenamente garantido. Uma derradeira vez, voltei-me para Marei; não podia mais distinguir seu rosto, mas sentia que ele continuava a me sorrir com a mesma doçura e que me fazia sinal com a cabeça. Acenei com uma das mãos, ele acenou com a sua e voltou ao trabalho.

- Eia! Eia! - ouvi-o de longe gritar, enquanto a égua puxava de novo a charrua.

Tudo isso me voltou de uma só vez à memória, não sei por quê, mas com uma rara precisão de pormenores. Reabri subitamente os olhos e me assentei sobre a baia. Reencontrei então, nos meus lábios, lembro-me, o sereno sorriso que estas lembranças tinham feito nascer. Durante alguns instantes, continuei a evocar sua imagem.

Depois de ter deixado Marei, de volta à nossa casa, não abri a boca sobre tal "aventura". E que espécie de aventura era essa? Aliás, bem depressa esqueci Marei. Quando, daí em diante, voltava a encontrá-lo -em raras ocasiões -, nunca lhe falava, não somente do lobo, mas fosse do que fosse - e eis que de repente, vinte anos depois, na Sibéria, lembrei-me desse encontro, até os mínimos pormenores. Era preciso, pois, que ele tivesse ficado gravado na minha alma, de maneira muito imperceptível, por si mesmo, e sem o concurso da minha vontade, para que a lembrança voltasse na hora em que eu dela necessitava. Revia o terno sorriso maternal do pobre camponês, nosso servo; recordava-me dos seus sinais-da-cruz, seus meneios de cabeça: "Como você tem medo, menino!" E sobretudo aquele grande dedo, sujo de terra, com o qual, docemente e quase timidamente, ele tinha aflorado o canto da minha boca. Não importa que, certamente, falhasse ao tranquilizar uma criança; mas esse solitário encontro se revestia para mim de um sentido particular; tivesse eu sido seu próprio filho, e ele não teria me olhado com expressão de um amor mais puro. Quem, entretanto, o obrigava a isso? Era nosso servo, e eu o filho dos seus amos; ninguém jamais saberia que ele me havia acariciado, ninguém o recompensaria por isso. Amava então a esse ponto as criancinhas? Alguns são assim. O encontro ocorreu num lugar solitário, em pleno campo, e só Deus, do alto do céu, terá visto de que profundo e radioso sentimento humano, de que ternura quase feminina pode estar cheio o coração de um simples camponês russo, ignorante e selvagem, ainda preso à gleba e que nem mesmo entrevia a aurora da sua libertação.

Dizei-me, não é isso o que entendia Konstantin Aksakov, ao falar da alta educação do nosso povo?

E subitamente, distanciando-me do meu catre e lançando um olhar em torno, senti que doravante eu poderia considerar esses desgraçados de maneira inteiramente diferente, e que de repente, como que por encanto, todo o ódio e toda a cólera acabavam de desaparecer de meu coração. Eu ia perscrutando os olhares dos meus companheiros. Esse mujique de cabeça raspada, aviltado, de rosto marcado de estigmas, que na sua bebedeira urrava uma canção obscena, talvez não fosse outro senão o camponês Marei: como posso eu, com efeito, saber o que se passa na sua alma? Uma vez ainda, nessa tarde, reencontrei M-cki. O desgraçado! Não tinha ele a lembrança de um camponês Marei, e tudo o que podia dizer dessa gente era: "Odeio esses canalhas!" Sim, os poloneses deviam sofrer muito mais que nós!

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  • Publicado em: 11/09/2005
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