A Garganta da Serpente
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Black-out
(Ficção negra 1)

(Geraldo Crespo)

Estou condenado. Condenado à viver neste mundo. Não por muito tempo. Não é a minha intenção. Estou condenado. Condenado pelo mundo e todos os seus juizes, com todos os carrascos, com todos os diabos... Estou com os olhos cheios de lágrimas. Não sei se choram por mim ou por este mundo. Eu tive a intenção de salvar o mundo. Eu vivi este sonho. Ainda morro por este sonho.

Estou condenado. Condenado a aceitar todas as hipocrisias, todas as diferenças e as indiferenças que existem entre os homens. Estou assim... Ouvindo o tic tac compassado do digital Kienzle, sem saber o verdadeiro sentido de um tempo que consome a minha imagem improvisada. Estou condenado. O mundo me condenou com toda a covardia de um tribunal incompetente. Mas eu represento...

O que o mundo desconhece a meu respeito é que sou meio infinito... Meio imortal... Não posso desaparecer de uma vez e apenas formalizo o meu cenário. Estou condenado E daí? Tantos outros foram condenados. Condenados... Condenados para que a platéia possa rir. A platéia apenas ri. A platéia ri por coisas diminutas, pois a via da platéia é rir. E o mundo condena. Condena com bombas e os entorpecentes da vida (ou da morte).

A platéia ri. Engraçado... Alguém deve chorar para que a platéia possa rir. Não é assim? Independente de alguém que faça, que pense, que grite, que condene, que dê porradas... A platéia vai rir. Enquanto isso o mundo condena. Condena com ódio, com asco e rancor. Arrogância. O mundo condena com câncer, com sífilis, com todos os diabos. O papel do mundo é este: condenar

A platéia precisa rir. Necessita. A platéia implora para rir. Ajoelha, roga, pede para rir. O mundo condena e a platéia ri. Eu estou condenado. A platéia está feliz. Eu estou condenado, mas estou bem. Estou com os olhos cheios de lagrimas. Lagrimas que não sei pra quem. Lágrimas que não sei porque. Lágrimas que não me deixam compreender. Será pra mim este "bis"? Talvez eu deva sorrir...

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