A Garganta da Serpente
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Abado

(Ivan Abreu)

Quando eu morri, o meu coração bateu forte e forte e mais forte e acelerado até que, na virada de um segundo exato, parou por completo. Estancou o passo.

Enquanto ia a tal ritmo, acima, no domo de ossos de meu crânio, soava uma música desconexa, bem dentro, uma composição de melodias tortas e inventadas. Um rock and roll de guitarras elétricas que rebatia nas paredes daquele zimbório inadvertido, reverberando por todos os ossos, um rock egocêntrico e depravado, que crescia tapando todas as saídas de sentido. Furiosamente destorcido. Real. E músculos brandos. Todos os músculos calmados sem espasmos. Tudo fazia com que eu começasse e terminasse inteiramente e apenas em meu próprio corpo. Nenhuma referência de fora, nem brisa, nem luz, nem nada. Nenhum cheiro, nenhum brilho de ouro, nenhum outro som. Imagine, foram os últimos instantes meus como ente vivo e eu estava trancafiado, completamente encerrado, sem tocar nada de exterior. E, menos, sem ser tocado.

E meu coração parou. Parou de repente, como disse, na virada de um tempo marcado. Mas já faz tempo isto. Bastante tempo. Na noite antes desta árida sentença, antes de minha morte chegar num ponto final exclamado sem tom de relevo, me lembro, não consegui dormir. Não pude fazê-lo, embora não me ocupasse de nada em pensamentos. Absolutamente nada passava por minha cabeça, nada de palpável tomava-me o momento, entretanto, sem poder conciliar-me com o sono estive ali, estirado sobre os lençóis. Horas e horas partidas. Havia sido, sem que me desse conta, meu primeiro branco total em anos de existência. Talvez mesmo pude ali haver meditado. Talvez, sem dar-me conta e estar inteiro, pude iluminar-me naquela noite que se fez igual a tantas outras antes de minha morte. Algumas, ordinárias noites de insônia. Nunca se saberá. Mas, é certo, a esperada conexão não veio, não ocorreu nada, nada fantástico, nada que valesse o registro em livro porque aquele instante não havia sido o mesmo, a hora exata da minha morte. Não coincidiram em mim quietude e fim. Apenas recordo estar cansado. Bastante...

Dois dias antes de minha morte, bem ao cair da tarde, posso recordar-me, me senti invadido por uma ternura absurda pelo mundo. E paz. Sim, estou seguro que era paz aquilo que me paralisou o dia quase que em uma única mirada. Olhar profundo e atento a tudo, que fez com que eu apenas observasse os pássaros, aos saltos disputando comidas mínimas sobre o asfalto, e os velhos ao sol sentados na praça. E a praça com seu mundo inteiro, o movimento nas escadarias do prédio dos Correios e o resto que nos cercava a todos. No entanto, como falei, isto ocorreu dois dias antes de minha morte.

No dia exato em que morri, na hora precisa apontada nos relógios não me lembro de nada parecido chegar até mim. Nem paz, nem nitidez ou luz cegante. Apenas a música desgarrada, aquela musica sem fleuma, ácida dentro da cabeça, e o coração no cume acelerando. No dia de minha morte, infelizmente, não pude deixar de pensar até o ultimo instante. Morri digerindo imagens e palavras encarrilhadas. Uma sobre outra e outras. Quem sabe mesmo coisas inteiras de toda uma vida. Isto até que parou. Tudo cessado.

Já na manhã seguinte à minha morte estava frio, muito frio. E, embora fosse dia claro, marcado por uma luz tíbia e azulada, nevou por primeira vez aquele ano.

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