João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto
O bebê de tarlatana rosa
(João do Rio)
- Oh! uma história de máscaras! quem não a tem na vida?
O Carnaval só é interessante porque nos dá essa sensação
de angustioso imprevisto... Francamente. Toda a gente tem uma história
de Carnaval, deliciosa ou macabra, álgida ou cheia de luxúrias
atrozes. Um Carnaval sem aventuras não é Carnaval. Eu mesmo este
ano tive uma aventura...
E Heitor de Alencar esticava-se preguiçosamente no divã, gozando
a nossa curiosidade.
Havia no gabinete o barão Belfort, Anatólio de Azambuja de que
as mulheres tinham tanta implicância, Maria de Flor, a extravagante boêmia,
e todos ardiam por saber a aventura de Heitor. O silêncio tombou expectante.
Heitor, fumando um gianaclis autêntico, parecia absorto.
- É uma aventura alegre? - indagou Maria.
- Conforme os temperamentos.
- Suja?
- Pavorosa ao menos.
- De dia?
- Não. Pela madrugada.
- Mas, homem de Deus, conta! suplicava Anatólio. Olha que está
adoecendo a Maria.
Heitor puxou um longo trago à cigarreta.
- Não há quem não saia no Carnaval disposto no excesso,
disposto aos transportes da carne e às maiores extravagâncias.
O desejo, quase doentio é como incutido, infiltrado pelo ambiente. Tudo
respira luxúria, tudo tem da ânsia e do espasmo, e nesses quatro
dias paranóicos, de pulos, de guinchos, de confiança ilimitadas,
tudo é possível. Não há quem se contente com uma...
- Nem com um, atalhou Anatólio.
- Os sorrisos são ofertas, os olhos suplicam, as gargalhadas passam como
arrepios de urtiga pelo ar. É possível que muita gente consiga
ser indiferente. Eu sinto tudo isso. E saindo, à noite, para a pornéia
da cidade, saio como na Fenícia saíam os navegadores para a procissão
da Primavera, ou os alexandrinos para a noite de Afrodita.
- Muito bonito! ciciou Maria de Flor.
- Está claro que este ano organizei uma partida com quatro ou cinco atrizes
e quatro ou cinco companheiros. Não me sentia com coragem de ficar só
como um trapo no vagalhão de volúpia e de prazer da cidade. O
grupo era o meu salva-vidas. No primeiro dia, no sábado, andávamos
de automóvel a percorrer os bailes. Íamos indistintamente beber
champanhe aos clubes de jogo que anunciavam bailes e aos maxixes mais ordinários.
Era divertidíssimo e ao quinto clube estávamos de todo excitados.
Foi quando lembrei uma visita ao baile público do Recreio. - "Nossa
Senhora!" - disse a primeira estrela de revistas, que ia conosco. "Mas
é horrível! Gente ordinária, marinheiros à paisana,
fúfias dos pedaços mais esconsos da rua de São Jorge, um
cheiro de arroz, rolos constantes..." - Que tem isso? Não vamos
juntos?
Com efeito. Íamos juntos e fantasiadas as mulheres. Não havia
o que temer e a gente conseguia realizar o maior desejo: acanalhar-se, enlamear-se
bem. Naturalmente fomos e era a desolação com pretas beiçudas
e desdentadas esparramando belbutinas fedorentas pelo estrado da banda militar,
todo o pessoal de azeiteiros das ruelas lôbregas e essas estranhas figuras
de larvas diabólicas, de íncubos em frascos de álcool,
que têm as perdidas de certas ruas, moças, mas com traços
como amassados e todas pálidas, pálidas feitas de pasta de mata-borrão
e de papel-arroz. Não havia nada de novo. Apenas, como o grupo parara
diante dos dançarinos, eu senti que se roçava em mim, gordinho
e apetecível, um bebê de tarlatana rosa. Olhei-lhe as pernas de
meia curta. Bonitas. Verifiquei os braços, o caído das espáduas,
a curva do seio. Bem agradável. Quanto ao rosto era um pouquinho atrevido,
com dois olhos perversos e uma boca polpuda como se ofertando. Só postiço
trazia o nariz, um nariz tão bem-feito, tão acertado, que foi
preciso observar para verificá-lo falso. Não tive dúvida.
Passei a mão e preguei-lhe um beliscão. O bebê caiu mais
e disse num suspiro: - ai que dói! Estão vocês a ver que
eu fiquei imediatamente disposto a fugir do grupo. Mas comigo iam cinco ou seis
damas elegantes capazes de se debochar mas de não perdoar os excessos
alheios, e era sem linha correr assim, abandonando-as, atrás de uma freqüentadora
dos bailes do Recreio. Voltamos para os automóveis e fomos cear no clube
mais chique e mais secante da cidade.
- E o bebê?
- O bebê ficou. Mas no domingo, em plena Avenida, indo eu ao lado do chofer,
no burburinho colossal, senti um beliscão na perna e uma voz rouca dizer:
"para pagar o de ontem". Olhei. Era o bebê rosa, sorrindo, com
o nariz postiço, aquele nariz tão perfeito. Ainda tive tempo de
indagar: aonde vais hoje?
- A toda parte! respondeu, perdendo-se num grupo tumultuoso.
- Estava perseguindo-te! comentou Maria de Flor.
- Talvez fosse um homem... soprou desconfiado o amável Anatólio.
- Não interrompam o Heitor! fez o barão, estendendo a mão.
Heitor ascendeu outro gianaclis, ponta de ouro, continuou:
- Não o vi mais nessa noite e segunda-feira não o vi também.
Na terça desliguei-me do grupo e caí no mar alto da depravação,
só, com uma roupa leve por cima da pele e todos os instintos fustigados.
De resto a cidade inteira estava assim. É o momento em que por trás
das máscaras as meninas confessam paixões aos rapazes, é
o instante em que as ligações mais secretas transparecem, em que
a virgindade é dúbia e todos nós a achamos inútil,
a honra uma caceteação, o bom senso uma fadiga. Nesse momento
tudo é possível, os maiores absurdos, os maiores crimes; nesse
momento há um riso que galvaniza os sentidos e o beijo se desata naturalmente.
Eu estava trepidante, com uma ânsia de acanalhar-me, quase mórbida.
Nada de raparigas do galarim perfumadas e por demais conhecidas, nada do contato
familiar, mas o deboche anônimo, o deboche ritual de chegar, pegar, acabar,
continuar. Era ignóbil. Felizmente muita gente sofre do mesmo mal no
Carnaval.
- A quem o dizes!... suspirou Maria de Flor.
- Mas eu estava sem sorte, com o azar, com o caiporismo dos defuntos índios.
Era aproximar-me, era ver fugir a presa projetada. Depois de uma dessas caçadas
pelas avenidas e pelas praças, embarafustei pelo S. Pedro, meti-me nas
danças, rocei-me àquela gente em geral pouco limpa, insisti aqui,
ali. Nada!
- É quando se fica mais nervoso!
- Exatamente. Fiquei nervoso até o fim do baile, vi sair toda gente,
e saí mais desesperado. Eram três horas da manhã. O movimento
das ruas abrandara. Os outros bailes já tinham acabado. As praças,
horas antes incendiadas pelos projetores elétricos e as cambiantes enfumadas
dos fogos de bengala, caíam em sombras - sombras cúmplices da
madrugada urbana. E só, indicando a folia, a excitação
da cidade, um ou outro carro arriado levando máscaras aos beijos ou alguma
fantasia tilintando guizos pelas calçadas fofas de confete. Oh! a impressão
enervante dessas figuras irreais na semi-sombra das horas mortas, roçando
as calçadas, tilintando aqui, ali um som perdido de guizo! Parece qualquer
coisa impalpável, de vago, de enorme, emergindo da treva aos pedaços...
E os dominós embuçados, as dançarinas amarfanhadas, a coleção
indecisa dos máscaras de último instante arrastando-se extenuados!
Dei para andar pelo lago do Rocio e ia caminhando para os lados da secretaria
do interior, quando vi, parado, o bebê de tarlatana rosa.
Era ele! Senti palpitar-me o coração. Parei.
- "Os bons amigos sempre se encontram" disse.
O bebê sorriu sem dizer palavra. - Estás esperando alguém?
Fez um gesto com a cabeça que não. Enlacei-o. - Vens comigo? -"Onde?"
indagou a sua voz áspera e rouca. - Onde quiseres! Peguei-lhe nas mãos.
Estavam úmidas mas eram bem tratadas. Procurei dar-lhe um beijo. Ela
recuou. Os meus lábios tocaram apenas a ponta fria do seu nariz. Fiquei
louco.
- Por pouco...
- Não era preciso mais no Carnaval, tanto mais quanto ela dizia com sua
voz arfante e lúbrica: - "Aqui não!" Passei-lhe o braço
pela cintura e fomos andando sem dar palavra. Ela apoiava-se em mim, mas era
quem dirigia o passeio e os seus olhos molhados pareciam fruir todo o bestial
desejo que os meus diziam. Nessas fase do amor não se conversa. Não
trocamos uma frase. Eu sentia a ritmia desordenada do meu coração
e o sangue em desespero. Que mulher! Que vibração! Tínhamos
voltado ao jardim. Diante da entrada que fica fronteira à rua Leopoldina,
ela parou, hesitou. Depois arrastou-me, atravessou a praça, metemo-nos
pela rua escura e sem luz. Ao fundo, o edifício das Belas-Artes era desolador
e lúgubre. Apertei-a mais. Ela aconchegou-se mais. Como seus olhos brilhavam!
Atravessamos a rua Luís de Camões, ficamos bem embaixo das sombras
espessas do Conservatório de Música. Era enorme o silêncio
e o ambiente tinha uma cor vagamente ruça com a treva espancada um pouco
pela luz dos combustores distantes. O meu bebê gordinho e rosa parecia
um esquecimento do vício naquela austeridade da noite. - Então,
vamos? -"Para onde?"- Para a tua casa. -"Ah! não, em casa
não podes..." - Então por aí. -"Entrar, sair,
despir-me. Não sou disso!" - Que queres tu, filha? É impossível
ficar aqui na rua. Daqui a minutos passa a guarda. -"Que tem?" - Não
é possível que nos julguem aqui para bom fim, na madrugada de
cinzas. Depois, às quatro tens que tirar a máscara. -"Que
máscara?" - O nariz. -"Ah! sim!" E sem mais dizer puxou-me.
Abracei-a. Beijei-lhe os braços, beijei-lhe o colo, beijei-lhe o pescoço.
Gulosamente a sua boca se oferecia. Em torno de nós o mundo era qualquer
coisa de opaco e de indeciso. Sorvi-lhe os lábios.
Mas o meu nariz sentiu o contato do nariz postiço dela, um nariz com
cheiro de resina, um nariz que fazia mal. - Tira o nariz! - Ela segredou: Não!
Não! custa tanto a colocar! Procurei não tocar no nariz tão
frio naquela carne humana.
O pedaço de papelão, porém, avultava, parecia crescer,
e eu sentia um mal-estar curioso, um estado de inibição esquisito.
- Que diabo! Não vás agora para casa com isso! Depois não
te disfarça nada. -"Disfarça sim!" - Não! procurei-lhe
nos cabelos o cordão. Não tinha. Mas abraçando-me, beijando-me,
o bebê de tartalana rosa parecia uma possessa tendo pressa. De novo seus
lábios aproximaram-se da minha boca. Entreguei-me. O nariz roçava
o meu, o nariz que não dela, o nariz de fantasia. Então, sem poder
resistir, fui aproximando a mão, aproximando, enquanto com a esquerda
a enlaçava mais, e de chofre agarrei o papelão, arranquei-o. Presa
dos meus lábios, com dois olhos que a cólera e o pavor pareciam
fundir, eu tinha uma cabeça estranha, uma cabeça sem nariz, com
dois buracos sangrentos atulhados de algodão, uma cabeça que era
alucinante - uma caveira com carne...
Despeguei-a, recuei num imenso vômito de mim mesmo. Todo eu tremia de
horror, de nojo. O bebê de tarlatana rosa emborcara no chão com
a caveira voltada para mim, num choro que lhe arregaçava o beiço
mostrando singularmente abaixo do buraco do nariz os dentes alvos. -"Perdoa!
Perdoa! Não me batas. A culpa não é minha! Só no
Carnaval é que eu posso gozar. Então, aproveito, ouviste? aproveito.
Foste tu que quiseste..."
Sacudi-a com fúria, colocando-a de pé num safanão que a
devia ter desarticulado. Uma vontade de cuspir, de lançar, apertava-me
a glote, e vinha-me o imperioso desejo de esmurrar aquele nariz, de quebrar
aqueles dentes, de matar aquele atroz reverso da Luxúria... Mas um apito
trilou. O guarda estava na esquina e olhava-nos, reparando naquela cena da semitreva.
Que fazer? Levar a caveira ao posto policial? Dizer a todo mundo que a beijara?
Não resisti. Afastei-me, apressei o passo e ao chegar ao largo inconscientemente
deitei a correr como um louco para a casa, os queixos batendo, ardendo de febre.
Quando parei à porta para tirar a chave, é que reparei que a minha
mão direita apertava uma pasta oleosa e sangrenta. Era o nariz do bebê
de tarlatana rosa...
Heitor de Alencar parou, com o cigarro entre os dedos, apagado. Maria de Flor
mostrava uma contração de horror na face e o doce Anatólio
parecia mal. O próprio narrador tinha a camarinhar-lhe a fronte gotas
de suor. Houve um silêncio agoniento. Afinal o barão Belfort ergueu-se,
tocou a campainha para que o criado trouxesse refrigerantes e resumir:
- Uma aventura, meus amigos, uma bela aventura. Quem não tem do Carnaval
a sua aventura? Esta é pelo menos empolgante.
E foi sentar-se ao piano.
| 5965 visitas desde |
Publicado em: 06/12/2005 |
|
|