| Lourenço Dreyer |
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Até que a morte os reúna
(Lourenço Dreyer)
Apartamento térreo. Sala. Sofá velho e rasgado, mesa com 4 cadeiras,
porta para pequeno pátio cercado por paredões altos, úmidos
e mofados. Ele, 79 anos, sentado numa das cadeiras. Ela, 77, sentada no sofá.
Rádio ligado. Ele tosse repetidamente. 'Essa tosse incomoda', diz ela.
'Ah, não enche o saco, sua chata!'. 'Até os vizinhos já
reclamaram', ela insiste. 'O que é que eu poderia fazer? Não vou
gastar meu dinheiro com remédios inúteis, e também não
vou ficar freqüentando hospitais junto com um bando de velhos doentes e
deprimentes'. 'Podia ao menos ir tossir no banheiro, então'. 'E você,
pintar esse cabelo. não agüento mais essa aparência, consegue
ser pior do que esse apartamento'. Ele diz isso e vai sentar numa cadeira de
plástico no pequeno pátio. Acende um cigarro. Ela aparece em seguida.
'Seu velho estúpido, tentando se matar, agora? Esqueceu do enfisema?'
'Não, eu não esqueci, nem esqueci do teu, também.' Ela
fica parada um tempo, olhando pra ele, com raiva, então arranca o cigarro
dele e começa a fumar. Ela senta na cadeira ao lado dele. Ele acende
outro cigarro. 'Nós estamos casados há mais de 40 anos. É
bastante tempo', diz ela. 'Acho que é tempo suficiente', responde ele.
E os dois ficam sentados de mãos dadas, fumando, tossindo e olhando pro
paredão à sua frente.
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