| Lívia Santana |
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Luz
(Lívia Santana)
Há horas estava deitada naquela triste cama de hospital em frente a
uma imagem de Jesus crucificado, daquelas esculpidas em madeira. As paredes
exibiam manchas deixadas pelo tempo e pelos ocupantes anteriores da enfermaria.
Contemplando-as, se perguntava quantos dramas aquelas paredes azuis já
não teriam presenciado ao longo do tempo. Lágrimas, gritos, dores
e até mesmo a morte. Fechou os olhos, suspirando fundo, lutando para
desvencilhar-se dos pensamentos sombrios. Sentia um misto de sensações
desencontradas. O coração estava apertado de medo, angústia.
E ao mesmo tempo, euforia, excitação, ansiedade, tanto que mesmo
cansada como estava não conseguia se entregar à sonolência
que a invadia. Queria levantar-se, ir embora dali, odiava hospitais. Aquela
atmosfera fria, asséptica, cheirando a remédios, onde tanta gente
sofria todos os dias, a apavorava. Outras pessoas com o semblante sofrido lá
se encontravam também, cada um com sua dor, não havia privacidade
nenhuma. Olhou em volta e os olhos detiveram-se na figura abatida de Dona Lurdes,
observando-a atenta duma cadeira dura. A mãe estava a seu lado desde
que as dores principiaram, devia estar tão exaurida quanto ela mesma.
As dores. Como se tivessem ouvido-a pensar nelas vieram fortes outra vez, rasgando-a
ao meio feito lâminas incandescentes. Estavam se intensificando nos últimos
minutos, e ela gritou desesperada. Não agüentava mais. O médico
viera há muito tempo e a deixara lá, esperando e se contorcendo.
Volta e meia aparecia alguma enfermeira desinteressada para checar o seu estado
e ninguém fazia nada. Droga de vida, além de todas as privações
ainda tinha que passar por aquele pouco caso. Nem conseguia se animar ante a
perspectiva de colocar mais um pobre coitado naquele mundo, que nunca dava nenhuma
alegria. Interrompendo estes pensamentos, as dores vieram de novo, piores que
nunca, arrancando um brado que ecoou por toda a enfermaria. Houve um tumulto
em seguida, duas enfermeiras acorreram com urgência, o médico estava
gritando junto da cama sem que ela tivesse visto de onde tinha surgido. A dor
era absurda, parecia que ia morrer. Eles gritavam com ela, diziam pra fazer
força. Não se sentia capaz, a cada pontada sentia-se desfalecer.
Reuniu o que ainda tinha de energia, contraiu o corpo todo e urrou ainda uma
última vez. E então tudo acabou. Ouviu um choro infantil, mas
mal conseguia abrir os olhos. Quando o fez, a enfermeira não mais desinteressada
sorria, aproximando dela uma coisinha pequena, arroxeada, olhando-a com os pequenos
olhinhos pretos arregalados, como se lutasse para divisar-lhe as feições.
Era mãe. Sentiu nos braços o calor do pequeno corpo e chorou em
silêncio, as lágrimas abundantes lavando-lhe o rosto suado, enquanto
contemplava os olhinhos do filho. A luz contida neles era tanta e tão
intensa, que fazia tudo parecer menor. Todo o sofrimento, toda dor, toda tristeza.
E sentiu crescer no peito um amor tamanho que doía, uma felicidade que
não parecia ter limites. A luz inundava o mundo todo, era como se tudo
começasse novamente. E começava! Soluçou, apertando o bebê
contra o peito. "Obrigada, meu Deus".
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