A Garganta da Serpente
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14 Polegadas

(Marco Domingues)

Ela sentia-se perfeitamente confortável com o fato de não ser notada: sentia prazer em ter sido completamente esquecida por todos os seres que um dia conheceu ou amou. Alimenta-se da rotina e da solidão que foi construída ao seu redor.

Vivia numa velha pensão, perto da rodoviária da cidade: lugar dos esquecidos, dos seres em trânsito. Ninguém ficava por ali muito tempo, com exceção de uns poucos, é claro, que tinham conseguido arrumar algum tipo de ganha-pão por ali, ou haviam se perdido no meio do caminho de suas vidas; Viam-se por ali velhos hotéis esquecidos, pensões e restaurantes baratos, lugares decadentes, mal conservados, fachadas do passado, comidas pelo tempo, e ela.

Ela morava em um pequenino quarto. Dentro dele, duas camas de alvenaria, uma sobre a outra, construídas como se fossem uma espécie de beliche. A de cima era usada como suporte para alguns objetos: uma samambaia, que ela colocava todos os dias para fora, um despertador de corda e, no canto, alguns utensílios básicos de cozinha, junto com um filtro de água feito de barro. Nunca, em todo o tempo que morava ali, a cama serviu para seu propósito primário, pois ninguém nunca a visitara. Havia ainda, no canto, uma cômoda, onde guardava suas roupas, um par de chinelos e um par de sapatinhos leves, sem cadarço, e, em cima, uma televisão de 14 polegadas.

A televisão era mantida ligada por quase todo o tempo ficava acordada, e, de certa forma, ela era sua única companheira. Ela não tinha consciência, mas era a televisão que a afastava do sentimento de solidão e também era ela que a impedia de se lembrar dolorosamente do fato de ter sido esquecida pelo mundo e, assim, podia até sentir conforto em sua situação. A televisão tornou-se o único membro de sua família, viviam juntas e compartilhavam quase tudo. Juntas elas riam, choravam, se emocionavam. Às vezes até, empolgada com alguma coisa que era mostrada, falava com a tevê, outras vezes, incomodada ou chocada com o que era mostrado, ficava de mal de sua companheira. Mas sempre, sempre, fazia as pazes, arrependida.

A primeira vez que aconteceu foi na forma de uma linha brilhante horizontal: a imagem se condensou e se distorceu, formando uma faixa bem no meio do tubo; ela foi pega de surpresa em meio a sua novela preferida, o som, porém, continuava funcionando, ainda podia ouvir o dialogo emocionado dos protagonistas. Um pedido de desculpas adiantado e uma leve batida resolveram o problema. Isso a preocupou por um tempo, porém, o problema não se repetiu mais, e foi, algum tempo depois, esquecido.

Todos os dias ela se levantava bem cedo e com dois dedos precisos media sua pulsação, comparando-a com os ponteiros dos segundos de um velho relógio automático que sempre carregava consigo. Esse relógio era a única coisa que sobrou do marido, único e último elo com sua vida passada. Ela tinha sido enfermeira durante muitos anos, fato que a deixava muito orgulhosa; gostava da ideia de ter ajudado inúmeras pessoas desconhecidas e, até hoje, lembrar-se do rosto de muitas delas, que a visitavam em sonho, e algumas vezes, até se lembrava delas acordada.

Depois de conferir o andamento de sua pulsação, ela vestia seu vestido roxo, o único que usava em suas rápidas saídas, e seus sapatos. Corria até o tanque para escovar seus dentes, passava no banheiro e voltava para o quarto, e, assim, estava pronta.

Olhava com cuidado pela janela. Depois, se não percebesse nenhum movimento, saia. Caminhava arrastando um pouco os pés, andava para lá e para cá no corredor, parando de vez em quando para medir sua pulsação. Eram seus exercícios matinais. Assim, ela acreditava manter seu coração saudável, acreditava poder alongar um pouco mais sua vida.

Nunca saia para passear. Apenas atravessava a rua, uma vez por dia, para comprar comida pronta que a cozinheira da pensão separava para ela, e que era incluída no preço de seu aluguel. Não gostava de comer na cozinha, preferia comer em seu quarto. Junto, ela recebia um pedaço de pão e outros mantimentos, que ficavam a cargo da cozinheira escolher, assim, não precisava ir até o supermercado. Além disso, saía uma vez por mês apenas, e andava por dois quarteirões até o banco onde recebia sua aposentadoria, sua única fonte de recursos. Uma pequena aposentadoria, pois tinha sido obrigada a abandonar seu emprego, por pressão de seu marido e agora recebia uma pensão pela morte dele.

Ele não queria que ela trabalhasse. Ainda mais depois que nasceu a filha do casal. Ela era prematura, doente, o pai achou que ela necessitava de cuidados constantes. E assim, abandonou sua profissão e passou a cuidar apenas da filha.

Quando o marido morreu, não dava mais para sustentar a velha casa, então, ela vendeu a casa e se mudou para a casa da filha, onde moraria num quarto nos fundos. Doou todo o dinheiro da venda para a filha, disse que ela precisava mais do que ela do dinheiro, que assim se sentiria menos culpada em morar ali.

Logo, o genro cansou da presença dela. Via nela uma velha que ficava observando tudo, xeretando. Começou a desenvolver pavor da velha. Ela passava por trás da casa, para não atrapalhar as coisas da casa, e ele via nisso uma espécie de provocação. Queria que ela fosse embora, mas não via como.

A dona da casa ficou grávida e ele viu, finalmente, uma utilidade na sogra, ela ajudava a cuidar do bebê, durante os primeiros meses ele a tolerou dentro de sua casa, cuidando de sua filha, mas o sentimento de ser observado permanecia e o incomodava muito. Ele não resistia à tentação de maltratá-la e depois de um tempo, começou a maltratar a esposa também. Queria a velha fora dali, de qualquer maneira.

Um dia, a velha teve que dar banho no bebê, porque a filha não se sentia bem, ela segurava o bebê com gentileza sobre a banheira de plástico, e, carinhosamente ia lavando o pequeno ser. Não havia problemas nisso, já havia feito inúmeras vezes aquilo. O genro reparou naquele ato, na delicadeza com que ela fazia aquilo e por um momento sua implicância quase foi embora, sentiu um certo remorso por tratá-la tão mal. Subitamente, ela sentiu uma pontada, uma dor repentina em seu peito que fez com que perdesse momentaneamente o controle de seus braços, a visão sumiu e, sem que percebesse, deixou a criança cair. Os olhos do homem cerraram, ele não acreditava no que via, a criança caindo das mãos da velha. Seu ódio voltou, exponencialmente aumentado.

Ele exigia que a velha fosse morar em outro lugar, a filha, sempre submissa, acabou cedendo, conversou com a mãe e disse que não tinha jeito, que iam arrumar um lugar bem bom para que ela morasse, que não iria abandoná-la. Saíram para levar o bebê ao hospital. Ela não esperou que voltassem, pegou suas coisas, tudo que podia carregar, e foi embora, entrou em um ônibus para longe dali e alugou o quarto de pensão, onde mora desde então. Disse para si mesma que era temporário, que era só até a poeira baixar, mas a vergonha e o medo do marido de sua filha a afastou daquela casa, a impediu de visitar sua filha e neta, e nunca mais voltou lá.

No início, a velha sentiu-se desamparada. A solidão, a vontade de ver a filha e a neta eram grandes. Agora seu mundo era aquele pequeno quarto de pensão, sempre no mesmo lugar, isolada, com sua companheira virtual, evitando todos os outros moradores. Sentia-se envergonhada por sua aparência, por seus cabelos brancos e cada vez mais ralos, pela falta de cuidados que tinha que impor a si mesma pela escassez de recursos.

Aconteceu de novo. O risco vertical voltou a ocupar a tela da televisão, mas desta vez, o som também se comprometeu. Saia um ruído eletrônico, ameaçador, um ruído de sofrimento de uma coisa inumana que morria. Não arriscou pedir perdão nem bater desta vez. Não teve coragem nem mesmo de chegar perto. De repente, um cheiro de queimado, um pouco de fumaça e a televisão apagou de vez. Num gesto rápido puxou o fio da tomada. Mas já era tarde. A televisão já não funcionava mais.

Naquele dia, não teve vontade de ir até a cozinha da pensão fazer seu prato de comida, ficou em casa, sem saber o que fazer. Não conseguia pensar em outra coisa. Depois daquela noite de insônia, não conseguiu mais retomar sua rotina, fazer seus exercícios. Não tinha fome, nem vontade de sair, nem mesmo para seus exercícios.

O medo de ter um problema sério no coração voltou com toda força, ficava sentindo seu corpo, imaginando que morria a qualquer momento. Cochilou um pouco e acordou depois de um sonho com a televisão: o aparelho diria que ela morreria também, com ela, apagaria para sempre. Desesperada, ela acaba tomando coragem para procurar sua filha, precisava de alguém.

Ela se arruma o melhor que pode e sai. Enquanto espera o ônibus, já sente a vontade diminuir, as lembranças ruins começam a se sobrepor. Mesmo assim ela entra no ônibus, mas não consegue ignorar o cheiro, as pessoas, os barulhos dos sapatos arrastando na areia deixada no assoalho do veículo. Ela, não pode mais continuar, salte na próxima parada, transtornada. Olha ao seu redor, mas não sabe o caminho de volta, começa a andar sem rumo, perdida, confusa.

De repente ela uma loja com inúmeros televisores atraem sua atenção, os televisores mostram a imagem da rua, ela se aproxima e todos agora mostram sua imagem. Isso a faz sentir algo estranho, exerce um poder estranho sobre ela. Ela dividida e multiplicada nos televisores. Ela se ajoelha e coloca suas mão sobre a vitrine, sente vergonha de sua imagem, mas sente-se atraída.

Alguém, um vendedor, vem tirá-la de lá. Ela não quer sair, luta, e sempre volta para o lugar. Acham melhor deixá-la lá. Ela fica até o final do expediente, quando fecham a loja. Então, ela fica sozinha novamente. Confusa ela se senta na sarjeta. O movimento quase cessa, mas depois volta. Estranhas pessoas começam a aparecer, a circular pelo lugar. Ela sente medo e resolve sair dali.

Ela tira o relógio, mede sua pulsação e começa a andar, andar sem rumo. Perdida, ela anda durante toda a noite, anda em círculos, tentando fugir, tentando encontrar seu caminho. O sol começa a nascer e junto com o sol nasce uma pequena dor no braço direito, uma dor que começa a tornar-se mais aguda. Ela apenas continua andando, parece reconhecer o caminho, não saber se ele a leva para a antiga casa ou a casa da filha ou mesmo para o cemitério onde está enterrado o marido. Os pés doem muito, o peito agora também dói, mas não pode parar, não mede mais a pulsação, tem medo de saber. No limite da cidade, ela cai de joelhos, não pode mais suportar a dor. Tenta olhar o relógio, mas ele está parado. Nunca parara antes, ela sente medo, os dedos estão roxos como o vestido, a respiração difícil, o relógio cai de suas mãos, e ela, rezando baixinho, cai também.

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