A Garganta da Serpente
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Sonho de Louça

(Mauricio Duarte)

Liliane estava eufórica. Afinal, chegara o grande dia, seu sexto aniversário. Tinha acordado cedo, pois a ansiedade lhe tirou da cama antes do que de costume. Era uma menina muito humilde, de casa muito simples, onde morava com o pai e a mãe. O pai era cobrador de ônibus e a mãe, costureira. Eram felizes (ou conformados) e unidos, apesar de todos os sacrifícios, dificuldades e privações que a vida pobre lhes impunha.

A garotinha não tinha muitos motivos para se animar, mas hoje era diferente. Era seu aniversário e ela só pensava no momento do pai chegar em casa, às seis da tarde, depois do trabalho, como de costume, para ganhar o seu presente. Tinha pedido uma boneca de louça. Aquela, com vestidinho de renda azul, corpo feito de pano, a cabeça de louça, as faces pintadas de branco e uma bolinha vermelha de cada lado.

Sonhava noite e dia, dormindo e acordada, com a boneca. Nunca desejara tanto assim uma coisa. Sabia e, apesar da pouca idade, entendia que seus pais tinham pouco dinheiro. Mas mesmo assim, tinha esperança de ver o desejo realizado. Mais do que uma esperança, tinha um pressentimento.

Ela estava certa. O pai havia economizado quase o ano inteiro, já que Liliane fazia anos em setembro, para conseguir comprar a boneca e iria lhe trazer. A mãe já sabia, mas não havia falado nada, apesar da insistência da menina em querer saber se ia ou não ganhar o presente. Era um sonho guardado.

Exatamente às seis e quinze da tarde, quando a pobre criança já não agüentava mais de tanta expectativa, o pai abriu a porta e entrou em casa. Ele trazia nas mãos um pacote.

Liliane correu em direção aos braços do seu progenitor, que a beijou, abraçou e lhe deu o presente. Ela abriu com tanta pressa e vontade, que parecia que possuía dez mãos, tal a rapidez com que rasgou o embrulho e o deixou em pequenas tiras de papel espalhadas pelo chão. Ao terminar de abrir o pacote, mal colocou os olhos no que havia dentro, eles brilharam um brilho de estrela e ficaram rasos d'água. A alegria que ela sentiu não cabia naquele corpo pequenino e frágil de criança, aquele momento deveria durar para sempre, era tudo o que ela queria. Era a boneca de louça. Era um sonho realizado.

Liliane não se cansava de abraçar sua nova boneca, com toda a força que uma criança pode ter, e de agradecer a todos: ao pai, a mãe e, principalmente, ao papai do céu, para quem havia pedido aquilo todas as noites, durante muito tempo.

Depois, subiu ao quarto, abriu a janela, e começou a chamar pelo nome da vizinha, sua melhor amiga, para mostrar o presente. Mas a vizinha não ouviu e, num descuido, talvez de tanta euforia, talvez pelas mãos pequenas demais ou talvez apenas porque tinha de acontecer, a boneca escapou de seu poder e foi, em queda livre, se quebrantar inteira no chão.

O rosto branco de louça já não existia, eram apenas pedaços de dor espalhados pelo chão, dor de Liliane. E seus olhos não brilharam de novo, não havia mais o brilho de estrela. Eram olhos foscos, de coisa morta, de coisa finda, que rebentaram num pranto sem fim. Era um sonho estilhaçado.

***

Ontem foi o aniversário da filhinha de Liliane, que por sinal vive muito bem, pois casou-se com um médico de sucesso. Ela quis fazer uma surpresa para a filha e, além de outros presentes, é claro, comprar-lhe uma boneca de louça, que a menina também gostava muito. Mas, apesar de procurar em toda a cidade, disposta a pagar qualquer preço, não encontrou uma só boneca para comprar.

Talvez, a que escorregou de suas mãos fosse a última das bonecas de louça ou, talvez, tenham todas se estilhaçado no chão feito aquela, feito sonho, feito uma pequena menina chamada Liliane.

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