| Marlon Vilhena |
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Crepúsculo
(Marlon Vilhena)
Agora nada mais importa, criança. O sol já se pôs, estou
morrendo também, a luz está distante. Sob esta janela minha cabeça
pende para o lado, enquanto ainda ouço os pássaros cantarem nos
galhos do ipê amarelo. É engraçado como a vida se torna
tão importante e, ao mesmo tempo, tão mesquinha em todos os sentidos.
Na verdade, tudo perde o sentido, não sei se você consegue compreender
o que digo. Devo estar delirando, talvez a última febre. Minha voz está
fraca, e meus pensamentos se cruzam e se afastam muito rápido um do
outro, as imagens se turvam, as cores se fundem, e a tosse vem e sacode meu
corpo. Não, é já uma carcaça, não passa disso,
daqui a pouco será um cadáver. É a isto que se resume tanto
esforço, tanta luta, tantos dias, tantas noites. E sabemos que esta é
a última para mim, aqui deitado, sentindo já o frio que se me
aproxima; e é primavera. Tive início na primavera e morrerei nela.
Não, criança, não chore, não valem a pena as lágrimas.
A morte é apenas ela. Sei que não estarei aqui quando você
tiver enfrentado todos os seus medos e tiver triunfado sobre si mesma, após
tanto esforço e luta, como eu. Não plantei minha árvore,
como diziam que deveria ter feito; não escrevi meu livro como disseram
para fazê-lo; não gerei um filho, como seria de praxe. Mas tenho
você aqui a meu lado, esse é meu consolo. A amizade nunca morre,
pode esmorecer, mas jamais desaparecer por completo. E você aqui está.
Faça um favor a si: leia as aventuras de Gulliver, especialmente a parte
de sua convivência com os cavalos. Eu não consegui atingir o estágio
de natureza pura descrito ali, pois sei que sou fraco para tal. Porém
ao menos tentei, e sei que você gostaria também de tentar. A minha
vida realmente se resume a esta cama sob a janela, e minha tosse, e minha fraca
voz, e a derradeira contemplação do ipê tão florido.
E seus olhos sobre mim. Contudo a diferença entre cada um de nós
é o que fazemos para preencher o tempo entre o início e o fim.
Quero que você siga seu próprio instinto, acredite mais, viva.
Não tenho do que me queixar, exceto que poderia ter trabalhado menos:
mas até isso me fez diferente de todo o resto, eu sei. Mas por que estou
lhe falando essas coisas? Não devo me meter, isso foi a minha vida, e
você, criança, tem de continuar a ter a sua, como sempre. O sol
está se arrastando, o amarelo do ipê agora já está
alaranjado, eu também estou indo como o astro, embora esteja muito certo
de que não voltarei amanhã com ele. Segure minha mão. Ouço
um piano em minha mente, uma melodia suave, uma voz entoando algo que não
distingo, entretanto doce como o instrumento. Sim, choro, mas de contentamento,
porque o fim destas horas é indolor. Não se preocupe, eu não
estou preocupado. Por que deveria estar? Apenas desligue a luz, por favor.
Desejo somente a luz do crepúsculo, enquanto o piano toca. Enfim, é
apenas isto, criança. E neste momento compreendo que a perfeição
começa e termina aqui.
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