A Garganta da Serpente
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As Quatro Estações

(Ricardo A de Lima)

(Para Ilda e Teresa)

- Muito - respondeu ele atrasado.
O vento soprava para qualquer direção. Junho chegava... E com ele o frio... E com o frio a saudade. Ele não sabia por que estava ali. Não sabia por que insistia em querer ressuscita o passado. E sempre colocava a culpa na saudade. Era a saudade que doía e gerava o medo que o acordava todas as noites às três da manhã. Era a saudade que o visitava quando ia àquele lugar frio e sem cor, onde as árvores não eram verdes e o céu era cinza. Era a saudade que explodia quando ele comia... Quando ele ouvia música... Quando ele olhava pra o céu.
Enfim, era a saudade que vinha quando ele respirava, numa respiração onde cada segundo era como uma eternidade sem alegria e sem perdão.
Esse era oi monstro que morava embaixo da cama.
Se tinha medo? Não.
Tinha saudade... E a saudade gerava o medo.

Querida mãe...
Agora parece que tudo realmente acabou. Às vezes paro para pensar e vejo que tudo poderia ter sido diferente. Poderia ter sido tão mais fácil se não tivesse sido tão ruim. Você sabe que foi ruim desde o começo. E que a cada ano se tornava pior. Tudo poderia ter sido tão mais feliz, não só para mim, mas para todos nós. Tudo poderia ter sido mais humano e ao mesmo tempo tão divino.

Sua vida era a vida de um menino de seis anos normal. Brincava, sujava-se, dormia. Gostava da escola primária mais que qualquer outro. Lá era um ótimo aluno. Nas reuniões de pais e professores (aquela baboseira de "seu filho não tem respeito". Os pais já não saberiam disso?) a única reclamação das professoras era sua extrema sinceridade em tudo e sua quietude diante das grosserias dos colegas. Ele nunca retrucava, ele nunca brigava, ele nunca xingava nem dizia palavrões que crianças dizem com frequência. Depois de algum tempo, esses palavrões deixam de ser palavrões e passam a ser palavras do cotidiano, quando não palavras para se dizer na cama para se ter mais prazer. Nisso se vê a diferença excêntrica entre uma criança e um adulto: a criança sempre aproveita bem mais as coisas e as palavras.
Sua mãe orgulhava-se dele. Não porque era o caçula de três irmãos. Mas porque era especial. Teresa não sabia por que, ou não queria admitir, mas ele era especial. Seus olhinhos castanhos diziam muito. Transmitiam para ela algo novo, que seu coração de mãe não conseguia interpretar... Ou tinha medo de fazê-lo.
O pai dele havia morrido há dois, quando ele tinha quatro. Ele mal se lembrava dele. Não sabia seu nome nem como era sua face. Nunca perguntou a sua mãe. E ela nunca puxou o assunto. Sabia que ainda doía no coração de todos. Pelo mínimo que fosse ainda doía. A única coisa eu se lembrava era de sua estupidez e ignorância.

Eu via tudo mudar diante de mim e não sabia o que era. Não sabia nem quem era. Tive medo, tive pesadelos. Minha vida tornou-se um pesadelo. Aquele sonho que eu te contava quando criança era só enquanto eu dormia, pois quando eu acordava tudo mudava. Tudo escurecia. Como agora... Tudo está escuro.

O homem de terno sempre chegava às dezenove horas. Ele sabia que era esse o horário porque era quando começava Castelo Rá-Tim-Bum. E aquela criança de quatro anos adorava esse tipo de programa, era educativo, interessante e até certo ponto engraçado. Atualmente ele assiste esses novos desenhos japoneses para crianças de quatro anos e imagina onde estaria hoje se tivesse passado a infância diante desse tipo de atração.
Sua mãe estava na cozinha, trabalhando para o homem de terno. Trabalhava para ele há quinze anos. Na verdade, usar o termo "trabalho" é errado. Ela não era sua empregada: ela era sua escrava.
Sua irmã ajudava a mãe. Elas eram parecidas em tudo. Na pele, no cabelo, na voz... Na paciência.
Seu irmão estava na rua, andando de bicicleta. Essa era a única coisa que ele fazia bem: andar de bicicleta. Futuro promissor.
E todos os dias ele via o homem de terno entrando. Com ele chegava o cheiro de álcool. Até hoje ele não suporta esse cheiro. Até hoje ele sente náuseas com ele. O homem entrava e deixava cair a pasta cheia de papéis no chão. A escrava pegaria dali dez minutos. Os sapatos ficavam jogados no cano perto do banheiro, onde Teresa os pegava onde minutos depois. Doze minutos depois do homem de terno entrar ela pegava seu palita do sofá e levava tudo para o quarto. E ele sempre pensava por qual motivo e razão a mãe demorava sempre dez minutos para iniciar esse ritual. A resposta veio quando ele percebeu que enquanto ela fazia tudo isso, o homem já sem terno, devorava seu sagrado prato de jantar. E isso jamais poderia esperar.
Ele comia. Depois tomava uns goles de cachaça ou cerveja ou as duas coisas. E o inferno começava.

- Sua vaca! - foi o primeiro grito daquela noite.
- Eles estarão secos amanha - disse a voz suave e cheia de medo.
- Não me interessa! Não sabe que saio cedo - saía sempre às dez da manhã, o que é relativamente cedo para quem quer que seja cedo, ou então não encontraria motivo para brigar naquela noite de verão - que inferno você é capaz de fazer por causa de um simples detalhe, mulher!
- Amanhã eles estarão secos e...
- E se chover? E se fizer frio? E se eles estiverem úmidos? Como vou usá-los?
- Coloquei para secar atrás de geladeira. Estarão secos...
- Imprestável! É isso que você é. Como sua mãe e suas irmãs: todas imprestáveis. Por isso que fizeram tanta questão que eu me casasse com você. Ninguém mais iria aceitar algo como você. E ouça o que vou dizer: se esses sapatos estiverem úmidos amanhã, eu te arrebento, mulher! - agarrou seus braços e disse bem perto de seu rosto, cuspindo em seus olhos e exalando o delicioso cheiro de álcool e mau hálito - Entendeu? Eu te arrebento, porque parece que você só entende assim. E você sabe que eu faço você entender rapidinho e muito bem.
- Eu sei... - disse ela sendo libertada e com a voz chorosa - eu sei...

Teresa chegou no quarto e pegou seu filho caçula vendo televisão. Realmente, era uma criança normal. E, apesar de muitos falarem o contrário, ela acreditava e via claramente que ele era normal.
- Vamos dormir?
- Ele não vai gritar mais? - perguntou os olhinhos castanhos brilhantes.
- Não... - disse Teresa querendo chorar mais - Não vai.
- Mas e amanhã?
- Não sei... Vamos dormir para ver se sim?
- Então não quero dormir...
- Filho, ele não faz por mal. Olhe para mim. Acredita em mim? Ele não faz por mal. Ele nos ama e trabalha para ganhar dinheiro. O trabalho o deixa nervoso e às vezes ele grita. Só isso.
- Ah... - suspirou ele, parecendo ter achado naquela cabeça de quatro anos uma explicação lógica e racional para os sofrimentos de sua família e, principalmente, de sua mãe - Nunca quero trabalhar então...
Teresa riu. Riu tímida, amando o filho mais que nunca.
- Te amo.
- Eu sei... Conta história?
E Teresa se levantou, pegou o livro na estante. Era grosso, com a capa azul bebê cheia de figuras e desenhos de personagens importantes da Sagrada História dos Clássicos Infantis. Lá estavam Bambi, Dumbo, a Bela e a Fera, a Bela Adormecida, Branca de Neve ao lado de sete pequenos homens que ele chamava de "crianças de barba". Havia homens com espadas, príncipes, fadas, duendes. Porém também havia monstros, morcegos, vampiros, lobos e alienígenas. Mas o que ele mais odiava era o Palhaço que ficava no canto esquerdo superior da contracapa. Sempre odiou palhaços. E piorou depois de assistir a um filme onde um palhaço, chamado de A Coisa, perseguia crianças. Esse nome, Coisa, já não lhe agradava por causa daquela gosma da década de oitenta. Mas essa Coisa, esse palhaço, esse demônio...
Teresa continuou lendo. Essa história não começava com "era uma vez..." e nem terminava com "felizes para sempre...". Ele nunca gostava nem desses começos nem desse tipo de final. Era uma história de um mundo mágico, cheios de pássaros e flores coloridas. Havia flores vermelhas, azuis, laranjadas, violetas e amarelas. Ah... as flores amarelas. Como ele gostava das flores amarelas. Amava girassóis e margaridas. E aquele mundo era colorido, o eu fazia dele um mundo perfeito. Havia um rei e uma rainha com seus filhos. Uma família feliz, que se amava, que se respeitava, que se bastava.
O mundo mágico não era na Terra. Nem ao menos na Via Láctea. Não era um mundo do Mágico de Oz, nem uma parte mágica de um mundo rela como o Castelo Rá-Tim-Bum. Era um planeta diferente. Era um planeta distante. Era o planeta Cupio. Era o planeta mais belo do Universo. Possuía em si a harmonia da Natureza e a felicidade dos homens. Todos se respeitavam... E se respeitando se amavam.
- E você... ama a mamãe? - perguntou ela sem tirar os olhos da página aberta na figura da Rainha com seu bebê no colo.
Mas ele já havia dormido. Ela se levantou, deixou o livro no criado, apagou as luzes e saiu. Ele abriu os olhos e teve tempo de ver as mãos de Teresa fechando a porta. Teve vontade de chamá-la, mas não teve coragem. Sempre lhe faltou coragem. E iria faltar muito mais.
Resolver dormir de verdade.

Tive que depender de você para tudo. E você nunca se cansou de fazer tudo. Porém, mesmo muitíssimo agradecido por isso, vejo que tudo não foi o bastante. Tudo não foi o suficiente. Minha dor era tão grande que necessitava de mais. E me doía o coração e a alma ver que você fazia o impossível para me ver feliz. Mas meus olhos não mentiam, você percebia e sofria com isso.

Ele viveu nesse ambiente por quatro anos. E esses quatro anos estariam dirigindo sua vida até os dias de hoje. debaixo daquele céu cinza ele ainda sentia o cheiro e as dores daqueles quatro anos. Viu sua mãe apanhando árias vezes. Seu pai queria que ela entendesse bem quem mandava e como ele queria que fossem as coisas. Às vezes era porque o feijão estava quente ou duro, ou porque a roupa estava quente demais (Por que não passou antes?) ou porque os sapatos estavam úmidos... Ou apenas frios por causa da noite de inverno.
Existia somente uma verdade: todos na casa entendiam junto com Teresa. E só pararam de entender num verão. Seu pai morreu num verão. Numa estação onde todos se lembravam de amigos, de viagens, de praias. Mas para ele lembrava a morte do homem de terno que batia na mãe que ele amava. E aquele homem de terno perdeu tudo naquele jogo de cartas. Apostou tudo, até a vida. Pena que só tinha um Cinco de Copas nas mãos. Como ele desejou ter um ás. Como ele desejou que fosse pelo menos um Rei de Paus. Mas ganhou apenas um Cinco de Copas. O pior foi que não aceitou aquilo. Não quis pagar, não queria perder. Todos já estavam bêbados. Pagou com três tiros no peito. Morreu ali, numa garagem quente, com seu precioso palito no chão. Teresa não estava lá para pegar.
Para ele, ver seu pai jogado naquele chão imundo pela graxa foi o encontro de vários sentimentos: dúvida, medo, saudade, dor, alivio. Porém, o que mais o tocou foi ver aquela lágrima descer rápido pelo rosto de Teresa quando ela tocou o caixão onde um homem de terno dormia silencioso. Era seu pai. E ela era sua mãe. Não entendia a morte ainda, e pensou como a mãe pode chorar mesmo com o pai dormindo. E ele sabia que aquele sono iria ser longo. Via aquela única lágrima, sozinha, breve, seca, saindo do olho direito e se encontrando com o canto direito da boca sem cor, onde morreu. Morreu...
E naquela morte Teresa encontrou a vida. Junto com a lágrima muita coisa morreu. Menos Teresa... Muito menos Teresa.

Ele continuou crescendo. Era um menino de seis anos que crescia saudável. Brincava na maioria das vezes sozinho, quando brincava. Tinha seus brinquedos e com eles se divertia. Os amigos eram raríssimos e disso ele senti falta. Quase nunca via os irmãos. Sua vida era um doa em casa, junto da mãe. E depois que jogaram terra sobre o homem de terno, depois que aquela lágrima morreu naquele verão, ele teve que dizer adeus ao ócio junto da mãe. Teresa teve que arrumar um emprego e seu caçula descobriu pela primeira vez duas coisas que o acompanhariam pelo resto da vida: a saudade e o amor.

Porém, agora estou só. E vejo o quanto me faz falta. As lágrimas que agora derramo nessa terra são parte do suor que minha alma transpira por correr sozinha. Uma pessoa pode se sentir realmente mal e fraca por saber que está sozinha, que não ocupa um lugar no coração de alguém. E, mãe, às vezes penso e não encontro ninguém mais depois que você se foi.

Sua irmã mais velha tinha quatorze anos a mais que ele. Via nela um exemplo intelectual e ético a ser seguido. Ela foi sua primeira professora. E quando sua mãe se ausentou, ela foi também sua mãe. Seus traços físicos eram parecidos. Principalmente os olhos castanhos brilhantes, parecendo que sempre estavam lagrimando. Foi ela uma das pessoas que mais sentiu a dor e o sofrimento do machismo do pai. Teve que vestir o que ele mandava e dizer o que ele queria ouvir. Mas mesmo assim ela era a filha mais amada. Talvez por ser a primogênita. Ou por ser a única que estava no casamento dele com Teresa (que estava com três meses). Não se sabe. Só se sabe de uma coisa: ela era quase perfeita.
E com ele não foi diferente. Ele encontrou naquela mãe substituta uma amiga. Nesse momento, com seis anos, ele descobriu algo grandioso: descobriu que uma alma poderia ser uma só com outra pelo laço incorruptível da amizade.
A amizade sempre fora para ele algo divino. Era a essência do homem enquanto ser social. Algo que, da filosofia grega à mais fiel crença cristã, era visto como necessário ao pobre homem carente de algo que o preencha. Alguns descobrem isso na bebida, ou no cigarro e outras drogas, outros ainda no sexo ou na solidão. Ele descobriu isso na amizade. E sabia que estava preenchido totalmente.
Não era apenas um laço de sangue. Esse laço, por mais que se queira romper, sempre vai existir. Não importa se você odeie ou não seu irmão, ele sempre vai ser seu irmão. Na amizade ele descobriu que seria diferente, metafísico. Poderia se escolher a quem daria esse laço. Por isso seria um laço mais forte. Um laço mais sincero. Um laço mais eterno.

Agora, naquele lugar frio e sombrio, ele pensava em tudo isso. Pensando a dor aumentava. Com mais dor mais choro. As lágrimas caiam com a esperança de um florescimento daquela grama seca.
O céu cinza pairava sobre ele e pesava sobre ele, escondendo o transcendente. Existia um Deus naquele céu? Existiria realmente algo sobre sua cabeça? Algo maior que ele e maior que qualquer outro homem. Algo criador de tudo e de todos, principio do Universo?
Aquela não era a melhor hora para respostas...

Ele não queria lembrar do outro irmão. Sabia que não poderia parar aquela série de lembranças. Logo ele veio em sua mente. A dor veio, mais uma vez, visitá-lo.
Ele, como o pai, lhe trouxe muita dor. Via naquele menino de boné uma miniatura a lembrança monstruosa que lhe representava o pai. Parecia que ele também gostava de ver medo e dor nos olhos das pessoas. Parecia que sua alma era parte de uma experiência diabólica, masoquista.
O menino de boné nunca falava com ele. Por isso sua infância foi tão distante do irmão. Ele passou a ser parte da vida dele na adolescência. Não por causa da diferença de dez anos de idade. Mas a diferença de pensamentos e princípios, de valores e de virtudes. Passava por ele, trombava nele, continuava e nada falava. Nem um olhar. Era como se um cachorro estivesse ali e não o irmão caçula. E acreditem: se o cachorro latisse ou ao menos gemesse seria sacrificado sem dó e sem pena. O menino de boné não teria medo nem receio de chutá-lo para longe.
E o chute veio pesado e forte quando tudo foi mostrado.

O homem de terno já havia morrido há quatorze anos. E pela primeira vez ele realmente agradeceu a Deus por ele ter morrido antes daquela cena. Teresa estava na sala, tricotando. A irmã, já casada, preparava-se para se despedir da mãe. O menino de boné acabava de chegar da rua e foi direto para o quarto. Dez minutos depois ele chegou do emprego que tinha arrumado para ajudar na casa. Seu jantar estava num prato no forno. Já havia anoitecido. O inverno não era tão generoso como o verão, onde os dias duram pelo menos duas horas a mais.
Ele se sentou e começou a comer. O menino de boné veio e, sem nada dizer mais uma vez, esmurrou sua bochecha direita. Seu braço bateu no prato que se espatifou no chão, atirando feijão no chão, misturando com os cacos. Teresa veio correndo e levou as mãos à boca ao ver o filho no chão entre os cacos, como se não passasse de mais um caco no chão. E era isso mesmo que ele se sentia, pois ele sabia porque ganhava o murro. Ele sabia que o frio do inverno iria congelar muito mais do que a água no quintal.
- O que foi? - foi o que Teresa conseguiu soltar.
- Ele é gay! - explodiu o menino com o boné na mão.

Escolhi o caminho que escolhi e, acreditem, sangrem sozinho por isso. E o pior não foi sangrar. A dor maior foi sangrar sozinho. Mãe, você não estava lá! Você no pode ir ao meu quarto ler naquelas noites. Você não pode pegar a porcaria do sapato no meio da sala. E eu chorei... Como choro agora.

Parecia que uma flor sorria para ele no meio daquela aquarela fria em que ele estava mergulhado. Achou estranho, pois era inverno e as flores não tinham aquela coloração viva. Era uma florzinha simples, mas viva e colorida. Ela surgiu por trás de uma árvore e brilhou no meio da escuridão. Lembrou-se da lágrima que acabava de cair na terra. Teve saudade. Sentiu que não estava tão sozinho. Pelo menos não naquele momento vendo aquela flor amarela.
Teresa sorria.

Naquela noite em seu quarto os demônios pareciam mais vivos. As sombras pareciam mais assustadoras. E apesar dos dezoito anos teve medo. Medo de abrir os olhos e ver a triste realidade. Medo de viver. Medo de dormir e acordar no dia seguinte. Enfim, o medo era dominador de sua alma; e alma e corpo choravam.
As lágrimas cessaram quando ouviu as batidas na porta. Não emitiu som algum. Somente olhou para a porta, mas continuou sentado na cama, abraçado com suas pernas.
Viu então o rosto de Teresa surgir na fresta que se abriu. A luz do corredor irritou seus olhos acostumados coma escuridão (foram dezoito anos de trevas!). ela levou a mão ao interruptor e...
Fiat lux
... a luminosidade tomou conta do quarto. Seus olhares se encontraram. O silêncio continuou. Porém as lágrimas que inundaram ambos os olhares disseram tudo.
Teresa aproximou-se e sentou-se na beira da cama.
- É verdade? - perguntou quebrando o silêncio.
- O que você acha? - respondeu ele não com rispidez e muito menos com ironia, mas em tom de coragem e fraqueza, ciente da resposta que a mãe lhe daria.
- Acho que somente soube... mas preferi ser ignorante e não acreditar.
- E agora? - a voz emitia medo e saudade.
- Agora o quê?
- Como ficaremos?
- Como ficaremos? Em quê?
- Isso... Como ficaremos em tudo, a partir disso.
- Sabe o que me vem a cabeça?
- O quê?
- Uma frase de Saint-Exupèry: "O essencial é invisível aos olhos. Só se vê bem com o coração". Não podemos nos prender aos detalhes da vida, mas ao essencial. O detalhe disso tudo é que você é... que você é o que escolheu ser. O essencial é que você é meu filho. Eu te amo. E você? Me ama?
E o silêncio reinou soberano novamente. As lágrimas e o abraço que se seguiram disseram por si mesmo. Eles foram a resposta.

Sempre dependi tanto de você. O tempo passou e não vi que envelheci. Há doze anos caminho sozinho... Sem você. Fracassei inúmeras vezes. Culpei o mundo, culpei os outros, culpei os acontecimentos e culpei a Deus. apesar de tudo, acreditei que eu poderia me destacar em tudo e com todos, pois você me disse que isso seria possível. E eu coloquei toda minha fé nas suas palavras.

O sol parecia ter parado de brilhar. As nuvens cobriam o céu, bloqueando a passagem dos raios e do calor. Uma forte corrente de ar gelado rompeu sobre ele. O casaco balançou e o ar entrou por sua roupa. O dia ficou escuro.
Via que a vida dele era como aquele lugar: frio e escuro. Tudo isso porque o sol tinha sido coberto pelas nuvens. Não sabia mais quem era. Não sabia mais o que era. Não sabia mais o que queria fazer, nem o que deveria fazer, muito menos o que iria fazer. Viu-se a beira do desespero; no fundo do poço, lá onde o céu parece tão pequeno. Só tinha uma certeza, e era essa certeza sua grande fonte de força e esperança: atrás daquelas nuvens o sol continuava a brilhar.

Se amei?
Amei.
Se fui feliz?
Tentei. Fiz o possível.
Sei que era isso que você queria ver de mim.
Mas o medo do escuro era maior. Sempre foi. E creio que sempre será.


Teresa foi internada às 14:32 no Hospital Municipal, ou Santa Casa de Misericórdia se preferir. Se bem que lá não se vê muita misericórdia. Os médicos detectaram uma forte enxaqueca. Mas não tinham certeza do que era. Os exames foram feitos. Os homens de branco andavam de um lado para outro com pranchetas nas mãos. O resultado veio cruel e impiedoso.
Há coisas que só acontecem em filmes: milagres, amores eternos, amizades verdadeiras. Teresa representava para o seu filho caçula um amor eterno e uma amizade verdadeira. E agora teria que ser também o milagre.

- Câncer - disse o homem de branco - Mas eu chamaria de tumor, já que não possui todas as características de um câncer. Sua mãe tem um nódulo do tamanho de uma ameixa no córtex central. Aparentemente não vai crescer mais. Parece estável. As dores piorarão. Na verdade, não sei como não as sentia antes. Há dois caminhos: a cirurgia e a espera. Os filhos escolhem...

A primeira escolha foi a espera. Esperaram por três meses, sem nenhuma melhora. Mas todos sabiam que a única coisa que esperava era a morte de Teresa. Depois dos três meses todos se cansaram de esperar. Menos ele. Ele era paciente.
Dois meses após a noticia Teresa foi morar numa clínica. Um mês lá e tudo parecia perdido. Lá ela andava pelos corredores quase todos os dias. Mas começou a perder a sanidade mental e tiveram que a prender na cama. Ele nunca havia chorado de pena ou de dó pela mãe doente. Mas chorou naquele dia, quando entrou no quarto e viu não só sua mãe, mas também sua alma presa naquela cama de lençóis listrados... Ele chorou. Chorou por ele, pelos irmãos e pelo pai, que nunca havia chorado.
E, por ela, o adeus aconteceu nesse dia.
- Quem é você? - perguntou Teresa por trás daquela estranha.
- Teu filho... Lembra-se?
- Filho? - e olhou para os seus olhos castanhos. Parecia que seu cérebro não o conhecia, mas viu que seu coração palpitou mais que o normal. Ela o reconheceu e o amou.
- É... Seu filho... - uma lágrima caiu.
- Se é um filho meu, tenho que te amar...
Ele riu, mas o tímido sorriso foi interrompido pela segunda lágrima.
- Sim... Acho que sim.
- E você?
- Eu o quê?
- Me ama?
O homem de branco entrou no quarto com uma pasta cheia de exames nas mãos. Sua expressão transmitia o que havia lá. E Teresa teve medo.
- Posso falar com o senhor por um momento? - perguntou o homem de branco, sem ao menos olhar para Teresa. Parecia que tinha mais medo que ela.
- Claro - respondeu ele, também com medo.
E foi dado o veredicto.
Realmente só restava esperar.

O frio que sinto agora é do seu cadáver abaixo dessa grama cinza. Tudo nesse cemitério é tão triste. Tudo na minha vida durante os últimos doze anos foi tão triste. Tudo depois daquele outono foi tão triste. Aquele outono mudou muito mais coisas do que aquele verão em que ele se foi por causa das cartas... E muito mais do que aquele inverno em que tudo foi descoberto. Naquele outono não foram só as folhas que caiaram. Eu cai com elas.
Sei que você quer que eu seja mais, que eu seja feliz de verdade. Sei que minhas lágrimas não vão te ressuscitar. Sei que sua mão no vai sair dessa terra úmida e tocar meus pés. Sei que uma luz do alto nó vai cair sobre sua lápide e ordenar: "Levanta-te". Sei que só me resta esperar... Como sempre.
Aqui, agora, te prometo: serei feliz. Serei vitorioso. Farei o possível e o impossível (como você fez) para derrotar o medo do escuro. Para matar aqueles monstros que habitam meu armário. Para derrubar de uma vez por todas os gritos que inundam minha alma. Tudo isso por você... Você não fez o que fez para me ver chorar e fugir de medo. Você não me acolheu e me amou com todas suas forças para me ver no chão. Você não me segurou e me fez voar com você para que eu caia logo agora.
Mas mãe... Às vezes o planeta Cupio parece tão distante...
Com amor...
Seu filho.


Teresa descansava em paz. E lá estava ele, ao lado de sua mãe... Sua amada mãe. Aquela primavera estava tão fria e tão sombria. Estava uma mistura de outono com inverno. Mas lá estava ele, como todos os anos. Como todos os meses. Como todas as semanas... Lá estava ele, fazendo companhia para o cadáver já decomposto da mãe.
O por quê disso?
Ele sempre tivera uma dívida com ela. Sempre tivera uma conta a ser paga. Nunca pagou. Nunca tivera coragem para pagar. Naqueles anos todos ele nunca tivera coragem para dizer. E isso que o maltratava tanto. Era isso que tirava dele toda a vontade de viver: a falta de coragem.
Inúmeras vezes ela perguntara. E ele nunca respondia. Fugia, se esquivava, fingia. Como aquela noite, lendo aquela história fantástica daquele planeta maravilhoso. Ou como daquela vez, quando a bomba de Hiroshima explodiu dentro dele revelando seu precioso segredo. Ou ainda naquela tarde no hospital. Ela sempre perguntava. Ela sempre questionava. Mas ele nunca dizia. E esse foi o seu tumor, esse foi o seu câncer.
Agora estava liberto. Agora estava curado. Agora a primavera abria suas flores. Agora ele respondia. Atrasado, mas respondia:
- Muito!

(Conto premiado em 1º lugar no concurso Dedic Escreve, em 2005)

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