A Garganta da Serpente
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Quem?

(Raymundo Silveira)

Manhã e tarde nebulosas esperaram, preguiçosas, a noite próxima. Estradas esconsas se estendem do nada primordial ao vazio infinito, percorridas por multidões de peregrinos. O horizonte engolia uns sobejos de Sol variegando entre o amarelo-ouro, tons afogueados, até restarem somente alvas nuvens bordadas de centelhas cor-de-rosa. Sentava num mocho de madeira à beira do caminho. Mil palavras dizem nada de uma imagem. Mas quem fosse analfabeto em imagens, não entenderia nada do que cuidava enxergar. Nenhuma nesga de pele não engelhada. Segui, com o olhar, os membros inferiores e o tronco até o busto imóvel. Cabeça ligeiramente abaixada. Cabelos desguedelhados. Impossível ver, com clareza, o semblante. Um trágico passado, porém, se esboçava nas olheiras. Na face lívida, sofrenças mil. Nas funduras das órbitas, a idade. Regulava com uma nonagenária. Nos lábios, uns arroxeados de nostalgia.

Senhora! Não respondeu. Senhora! Nem se mexeu. Quem seria? Encetei exercícios mentais. Alguém abandonada pela família, sobrecarregada pelo ônus anoso do idoso, esse ser que não deveria ser, pois paradoxalmente pesa cada vez mais enquanto a alma fenece e o corpo envelhece? Quem sabe, nunca viveu. Desde criança o espectro da alienação teria lhe acometido os desvãos da mente. Menina, não conheceu infância. Adolescente, cortejada, namorada, beijada, sem entender o significado do amor. Casada, mas não esposa. Muitos filhos e netos, sem experimentar sentimentos maternais. Se essas conjecturas fizerem sentido, jamais recebeu atenção médica. A menos que se nomeie a isto tenebrosas descargas elétricas perpassando fibras nervosas como se fossem fios de cobre, enquanto o corpo vibrava feito um robô de brinquedo. Ou então, doses cavalares de drogas a embotarem a consciência. Sendo mulher, devia ter cumprido muito mais de dez mandamentos. Que se encerravam em um: ganharás o pão com o suor do rosto das vinte e quatro horas do dia. Ignorava isso porque não indagou. Nunca perguntou quem era. Nem sequer se era. E essa carência de curiosidade fora o seu único talvez diante da certeza do incerto.

Podia também ter sido feliz. Se divertido a valer, na juventude. Valsando às margens de vienenses danúbios straussianos. Bailando o bailado das Primaveras de Botticelli, ao som de belíssimas sinfonias com notas entremeadas por bemóis de suspiros e sustenidos de desejos, acompanhada de cavalheiros de cabedais compridos e de cavaleiros de távolas redondas. Prenhe de presentes; de parentes prestantes; de afoitos afetos afeitos a afetações de amizades; de luares prateados; de namorados vestidos de trovões, enlouquecidos de paixões ou de loucuras mesmo; de diademas de diamantes; de amantes ébrios de amores; de oceanos de alegrias; lagos de sorte; rios de sorrisos; invernos de rosas; verões de lágrimas; cascatas de sonhos de fadas, de fados e de delicadas fantasias; primaveras de sonos, dos quais despertara pelos beijos de um príncipe imaculado recendendo a sândalo. Ditosa por ser amada até a raiz dos cabelos; por não ter conhecido doenças desconhecidas; por não ter tido mãe louca, irmão ébrio, pai toxicômano; por não ter vivido durante os sete anos dos esquálidos rebanhos do sonho do Faraó, interpretado por José, o do Egito. Livre de malignas repressões; das cimitarras castradoras de diabólicas inquisições; dos hediondos cozinheiros que flambaram, tostaram, fritaram, refogaram, guisaram, torraram, assaram, cozinharam, sapecaram, esturricaram, carbonizaram o corpo e a alma da Joana do Arco e de milhões de outros inocentes; tanto no passado quanto no presente, nas labaredas dos fogaréus ou das palavras; dos grasnados agourentos do The Raven, de Poe; da guincharia pavorosa dos morcegos das angústias, como devem ser os sons dos cantochãos dos corais do inferno...

Minha imaginação voava solta e não atinava com o mistério. Os dois pontos de interrogação, fazendo as vezes de supercílios, aumentavam as dúvidas. Os tornozelos inchados falavam de coração fraco. Nos vincos da testa, cicatrizes de tormentos. Nas unhas, um "verniz" violeta-fosco, e nas pálpebras, um roxo-cadáver, espelhavam as faltas de fôlego. Os sulcos paranasais, dois profundos regos cavados pelo tempo. Usava brincos e colares baratos: caricaturas grotescas de uma vã idade. Não parecia com ninguém. Apenas um insignificante também. Sim, mas, quem?

Talvez, uma dessas tantas que nada têm a ver, a ouvir, nem a cheirar com estereótipos; com definições indefiníveis através de frases de efeito adereçadas de adjetivos e nuas de substantivos. Uma mulher comum. Traída e subtraída. Submissa assumida. Sentar sozinha à mesa de um bar? nem pensar: convite à prostituição; chegar em casa, mais tarde é tarde em qualquer tarde, noite, manhã ou madrugada. Resignar-se à peculiar e complexa fisiologia: dores pra parir e cólicas pra não parir; tê-pê-emes, pinga-pingas ou biqueiras de cada mês; e lança-chamas, riachos de suores, baticuns de passarinha do quando se acabar; ao (sai) câncer dos úberes, da mãe do corpo e das ovas; a assumir toda a responsabilidade pela cria: dos apojamentos, passando pelas revulsões da infância e da puberdade, até as revoluções e os massacres nos carandirus da vida; a ser vítima preferencial da violência... dos estupros, às vezes dentro da própria casa; ter de expor o corpo à venda como mercadoria vulgar; suportar a assimetria dos direitos entre os gêneros; as discriminações que começam antes mesmo de nascer: "é menina, doutor? ah, que pena".

Mas, quem seria mesmo aquela múmia-viva? Continuava ignorando. Só sabia que se encontrava ali ao meu lado. Estática e absorta. Desmemoriada. Completamente alheia ao mundo em seu redor. Olhos semicerrados olhavam o chão e contemplavam o nada. Mãos entrecruzadas sobre os joelhos, como se orasse, e não murmurava, nem mentalizava prece alguma. Ombros descaídos, sustentados pelos antebraços repousando sobre as coxas, e tórax recurvado ofegando o fim, eram os únicos vestígios de vida. Chamei-a novamente várias vezes: Senhora! Senhora! Falava a uma pedra. Sacudi-a. Ergui-lhe bem a cabeça e forcei a abertura dos olhos. Só então, reconheci: era a minha esperança.

(13/02/2006)
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