A Garganta da Serpente
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Chuvas de Virão

(Roberta Tostes Daniel)

Sabe-se lá de onde escrevo estas linhas de deságua. Ausentei-me de ser, desvestindo-me de mim. Terminei não-sendo. Não me sucedi. Não me recriei.

Desacostumei-me de me: achar, perder, somar e subtrair. Renunciei afetos e rancores. Abdiquei da condição de súdita do tempo. Parei presente. Formei vácuo. Desmaterializei-me. E daqui de onde não-estou, vejo-me, não vendo; antecipo nadas, espero o torpor passar...

Para daí a pouco: tragar cataclismas no meu sopro quente; cantar modinhas - de amor ou desespero; auscultar vida convalescendo, brotando em mim as chuvas de virão.

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