A Garganta da Serpente
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Gatíssima!ca

(Rita Velosa)

A estrada cortava a cidade perdida no meio do nada.

Eu já ia meio sonolento dirigindo minha carreta na madrugada. Diminuí a velocidade e comecei a procurar por um lugar para encostar meu caminhão e puxar uma "palha". Um posto de combustível serviria: não pretendia parar por muito tempo pois já estava atrasado para a entrega da carga.

A noite estava fria, úmida e com muita neblina. Não conhecia os detalhes da rota. Era a minha primeira vez por aquelas bandas.

Procurava por alguém para que me indicasse um bom local para parar. As calçadas estavam completamente desertas devido ao adiantado da hora.

Nisso vi a garota. Custei a crer em meus olhos: linda, loira, gatíssima!

Usava vestido preto, salto agulha, meias pretas, cabelo com corte reto e franja bem aparada. Elegante, sexy, muito sexy!

Xi! - pensei - é agora! Tirei a sorte grande!

A moça parecia imóvel, com o olhar perdido e desamparado.

Parei o caminhão, desci e dirigi-me a ela. Nossa! Era realmente uma tetéia! Gatíssima!

- Boa noite moça! Não se assuste! Só quero uma informação.

Ela não respondeu nada. Permanecia silenciosa.

Não tenha medo, falei.

Então ela virou-se lentamente para mim, e ,como uma deusa, dirigiu-me um olhar penetrante que me paralisou.

- Como? O que quer? Quem é você?

- Raimundo dos Anjos, a seu dispor, senhora!

- Pode me chamar de senhorita. Maria da Luz do Prado. Prazer!

- Maria... o prazer é todo meu! Você, por acaso, sabe de algum lugar seguro onde eu possa estacionar o meu caminhão para descansar um pouco?

- Sei sim, respondeu a gata, com um olhar de naja hipnotizadora.

Eu já estava totalmente encantado. Até já perdera o sono. Que mulher! Que seios! Que pernas! Que corpo!

- Quer me indicar o caminho? Você mora aqui perto? Posso levá-la até em casa.

- Aceito, obrigada. Tem um posto de gasolina logo ali na frente.

Rodamos alguns quarteirões e ela disse:

- É ali! E apontou o pátio escuro do posto.

Estacionei o caminhão e logo a gata me agarrou e foi logo me beijando a boca com furor. A mulher era um vulcão! E eu não resisti. Fizemos amor ali mesmo na minha cama, na cabine do caminhão.

Passado algum tempo, resolvi seguir viagem, não sem antes deixar a preciosa em casa. Ela foi mostrando o caminho e logo disse:

- Pode parar. Aqui está bom! Já estou em casa.

Eu olhei espantado para ela e disse:

- Mas aqui é o cemitério da cidade!

- É aqui que eu moro. Obrigada. Até mais ver!
- Espera aí, você está de palhaçada comigo, não é?

- Não. Não estou não. Prazer em conhecê-lo. Adeus!

Fiquei sem reação por alguns segundos enquanto via a Maria abrir o portão do cemitério, me acenar sorrindo e tranqüilamente caminhar para o interior.

Muito intrigado e movido pela curiosidade, peguei minha lanterna, desci do caminhão e a segui por entre os túmulos, já muito irritado com a palhaçada da Maria: será que ela queria mais? Queria transar num túmulo? Muito exótica, pensei. Para mim iria ser a primeira vez, num cemitério.

Confesso que estava amedrontado, mas a Maria valia a aventura esquisita.

Maria passou por algumas ruas, contornou alguns túmulos e de repente sumiu por trás de uma lápide. Chamei em voz baixa:

- Maria, gatinha! Maria! Seu garanhão chegou!

Silêncio! Nenhuma resposta.

Contornei o túmulo e iluminei a lápide.

Lá estava Maria, sorridente, olhar maroto, em uma foto. Havia uma inscrição. Comecei a ler:

"Aqui jaz Maria da Luz do Prado,
vida ceifada em plena juventude,
no auge da alegria de viver.
Que Deus lhe dê vida eterna!"


Desmaiei!

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