A Garganta da Serpente
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Quase Dois

(Sónia Bettencourt)

Finalmente, acalmei-me um pouco e conformei-me da tua partida. Da tua ausência. Mais difícil do que saber-te longe, é não saber de ti. E com quem poderás estar. O ciúme é uma serpente feroz que não se pode entender: uma vez que nos morde o pensamento deixa de nos considerar.

Todos os dias quando chego a casa finjo não perceber que ali já não moras - é como uma birra masoquista que me leva a espreitar quarto a quarto, abrir porta a porta, subir e descer andares, percorrer corredores, deter-me em cada esquina equivocada pelo teu vulto ou pela tua voz. Por qualquer razão ou circunstância, que não alcanço, quando percebi que estavas longe, estavas mesmo longe. Então ali fiquei, outra vez e como sempre, sozinha entre quatro paredes, numa casa imensa repleta de janelas e portas de vidro, a imaginar o quão distante aquilo significava.

Sempre pensei que tinha tempo. Tempo para ter todo o tempo. Tempo para ti. Porque no fundo, no âmago, onde agora salta em mim um qualquer bicho estranho de face horrenda, o qual não consigo agarrar, julgamo-nos imortais. A verdade é que sempre nos sentimos atraídos para o alto, para o reino das alturas. Quem não quer libertar-se, para além das suas cadeias e das suas dádivas, da sua vida? Mas então, o que é que nós queremos nas alturas, se quando chegamos lá em cima, sempre nos encontramos sozinhos?

Deixei-te apesar de gostar de ti. Deixei-te porque não compreendias o quanto o mundo é dominado pelo mal, o que se torna um mal maior; o quanto o homem quer fazer sofrer o que o faz sofrer. Deixei-te porque queria desaparecer diante de mim mesma; porque as tuas virtudes ainda me contrariavam mais do que os teus defeitos e as tuas falsidades. Deixei-te porque não compreendias a loucura de querer abrir caminho para fora do mundo; porque na vida tudo muda num breve instante gerando contradições. Deixei-te porque éramos dois.

Mais uma palavra seria ver-te chorar, no momento em que te mandei abandonar a casa, diluída e mínima, agora que não te vejo dormir, que sinto já o vazio da cama e o silêncio pesado é a minha única poesia. Porém, o que deveria ser contentamento tomou o meu corpo em solidão, desejos confusos, desânimo e um pensamento medíocre que se lamentava egoísta: sentia-me melhor se soubesse que ficavas bem. E não hesitei em colocar questões para te saber o rumo, a febre e o destino. "Não me perguntes para onde vou!", exclamaste no dissoluto da despedida. Sim, concordo, é demasiado estranho abandonar uma pessoa e não querer deixá-la sozinha.

Sem intenção me deixei cair numa perplexidade, para não falar no enorme ridículo e na fúria que despertei em ti. Não havia sentido naquilo tudo, mas cansei-me de esperar de mim uma vitória ou uma derrota decisiva, porque te amo, as coisas nunca serão simples e redondas. Fica a loucura, se é que se pode ir tão longe. Mas não é uma questão de distância apenas. É um acumular de ameaças, uma desistência mais aflitiva de tudo o que nos acontece e nos pode acontecer. O homem, esse sonhador definitivo, disse André Breton, cada dia mais desgostoso com o seu destino. Porque leva várias vidas ao mesmo tempo e só o que o exalta é a liberdade - a sua única aspiração.

Cheguei a casa, e por incrível que pareça, não consegui encontrar o caminho para o quarto de cama, para a sala de estar, ou para a cozinha. Muitas portas e janelas à minha volta; móveis, mesas, cadeiras e sofás; quadros, fotografias, peças de madeiras e de vidro, como se passassem por mim a correr, como se andassem ao meu redor perdidas e apressadas. Senti-me insegura, quase histérica a tentar andar pela casa dentro, as paredes desmoronavam-se e todos os objectos empurravam-me porque queriam passar e eu estava no meio do seu caminho. Fecho os olhos. E penso: vou te encontrar.

Naquele momento não houve lágrimas. Estava tudo distante de me alcançar, tudo distante de entrar dentro do tempo e de me tornar parte do irreal presente - voar e não temer a queda - enquanto caminhava à tua procura.

Lentamente fui me concentrando na minha respiração, nas linhas concretas dos objectos domésticos, na luz pálida do fim do dia e fiquei estática, ainda sonolenta, convencida que me esperavas algures, numa divisória qualquer.

Permaneci naquela posição, minha aventura de ser o caos e o labirinto, naquela casa que abriga o nada, porque ali estarei infinitamente só na tua companhia.

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