A Garganta da Serpente
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Quero qualquer coisa

(Thiago Baraúna)

Estava numa rua larga com vários bares e muitas pessoas. A iluminação era fraca, só vinha de dentro dos bares. Farra. Pessoas da faculdade daqui, pessoas de lá, muitos rostos desconhecidos e alguns conhecidos. A rua era de pedra, com duas mãos, separada por um meio fio cheio de árvores grandes com os caules grossos; nas margens, bares e galpões abandonados. De um lado, do meu lado direito, a esquina para o resto do mundo, que começava com uma pizzaria. Para o meu lado esquerdo, a rua dava numa escuridão que eu não sabia o que era. Eu estava me divertindo, bebendo, gritando, conversando. Estava bem feliz.

Aparece uma loira, a loira que eu nunca pensei que fosse aparecer ali, no meu sonho. Chegou e me olhou com um carinho absurdo, absurdo porque nunca aconteceria, absurdo por ser daqueles que só acontecem nessas horas. Me abraçou, colocou minha cabeça no ombro. Estava com amigos, amigos meus também, pessoas ótimas que não lembro quem são. Todas me passaram coisas muito boas, eu estava muito bem ali. Ela me chamou para conhecer o final da rua. "Tá".

Fomos correndo. Um amigo da faculdade de lá estava no meio. Corremos muito. A rua dava no que parecia ser um lago, um lago grande; do lado direito um bosque escuro e profundo, do lado esquerdo uma construção abandonada há muito tempo, tempo demais para ser verdade (parecia coisa egípcia). Para frente o lago fazia uma curva a direita que não dava para saber onde ia. Era noite, falei? Sobre o lago cipós, troncos, folhas, tudo aquilo que serve para mostrar há quanto tempo aquele lugar está vazio.

Todos tiramos as roupas. A loira se jogou logo no lago, fui atrás dela, todos fomos. Depois de duas braçadas, percebo que o lago não tem fundo e fico assustado. Mas eles continuam nadando e vou atrás, afinal se eles estão indo é porque não tem perigo, parece ter alguma para olhar ali, mesmo.

Na construção abandonada, havia um buraco, na verdade um arco que passava sobre a água e era apoiado dos dois lados na construção. Um arco de pedra, quase destruído; mal olhei para ele. Passamos e ali acabava o lago, dava uma praiazinha que era o começo de outro bosque. Alguns foram para a praia, outros sentaram sobre pedaços da casa que pareciam flutuar, perto das margens do lago. Me lembro desse lugar como sombrio, mas lembro de me sentir como num lugar paradisíaco.

Fomos para a pedra, a loira e eu. Lá nos beijamos, nos abraçamos; nesses pequenos segundos da minha duvidosa inconsciência fiquei feliz, de novo. Quero dizer, fiquei feliz de verdade, não só no sonho. Tudo contribuía. Havia um vento fraco que era bom, então eu não devia estar com frio. A nudez era quase irrelevante, já que estávamos todos nus. Não lembro do corpo dela, se tento fazer isso agora, sei que é só imaginação. Mas lembro dela olhando para mim, como nunca aconteceu. De longe, do começo da rua, toacava um reggae tranquilo que de tão tranquilo era só música, nem reggae era. Não sei se transamos, duvido muito, seria movimento demais para um sonho desse. Em uma palavra, foi isso mesmo, de tão bom: um sonho.

Não acabou. A cena acaba e reaparaço no mesmo ponto da rua, fazendo a mesma baderna. Mas vinte anos depois. Eu não estava diferente, ninguém estava, mas eu sabia que longos vinte anos tinham se passado. A situação era muito parecida. Ela chega de novo, a loira, com o mesmo rosto de vinte atrás mas com o olhar de saudade de vinte anos passados. O carinho é diferente, passou a mão no meu rosto com saudade, mas chorava como se aquele instante fosse o único e o último que a gente podia ficar junto de novo. Estranho, porque era, era um sonho. Eu não me mexia. Ela me pegou pela mão e fomos andando até o final da rua. Nos despimos de novo, nadamos de novo, mais devagar. Deitamos na mesma pedra, mas os carinhos eram diferentes mesmo, carinhos de saudade e despedida.

Acordei pensando nela de verdade. Até querendo ela de verdade. Passei o dia triste, alguém me diga porque. O encanto já passou. Mas eu fiquei o dia querendo sentir aquilo de novo. Nem lembro se existe.

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