A Garganta da Serpente
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A Caverna

(Vanderlei Antônio de Araújo)

Certa vez, quando menino, resolvemos visitar uma caverna nos arredores de nossa cidade. Acordamos bem cedo, juntamos toda a tralha que precisávamos para a nossa jornada e partimos. Quando o dia amanheceu, já estávamos longe, dentro da mata, em uma trilha de três quilômetros, que nos levaria a gruta. Quando chegarmos ao local, descobrimos que a entrada da caverna era um buraco no chão. Ela ficava lá embaixo, escondida. Com alguma dificuldade, descemos pelo buraco até um amplo salão. Ali se acumulavam no teto e no chão, enormes estalactites e estalagmites. Gotas de água escorriam sem cessar das extremidades das pedras penduradas, pulsando e reluzindo sem parar.

Um lampejo clareou o interior do salão, a luz precária do ambiente nos obrigou a acender a primeira vela. Então, divisamos a nossa direita, uma passagem estreita para um outro salão, mostrando que a gruta era grande. E, à medida que avançávamos para o seu interior, novos ambientes eram descobertos, porém, a escuridão tornava-se mais intensa e o nosso deslocamento ficava mais difícil. Acendemos uma segunda vela.

A cada passo, uma nova visão deslumbrante surgia, recompensando todo aquele desconforto. Descortinava-se ante nossos olhos, em silêncio, uma paisagem que aliava mistério e beleza. Cada elemento que compunha aquele quadro era formado por pedras de todos os formatos, tamanhos e cores. E para completar, surgiu no meio da gruta, um córrego de água gelada e límpida, correndo, rapidamente, por um plano inclinado e desembocando num pequeno lago escavado na rocha, deixando a mostra alguns peixinhos esquisitos. Jamais imaginei que uma caverna possuísse coisas tão intrigantes. O único inconveniente, naquele momento, era a presença dos morcegos que ao passarem por nós, apagavam as velas.

De repente, desastradamente, um companheiro pisou em falso e torceu o tornozelo. Gemendo de dor pediu para voltar. Então, para o nosso desconforto, notamos que das três velas que levamos, duas já haviam sido consumidas e só restava uma. Uma vela e dois tocos, além de quatro palitos de fósforo talvez, fossem insuficientes para nossa volta e, aquilo nos perturbou. Entendemos, que não foi prudente ir tão longe dentro da uma gruta com tão escasso material de iluminação.

Veio também, a dúvida quanto à direção exata da saída. Andamos por muitos corredores e salões. Poderíamos estar perdidos. Só nos despreocupamos, quando vimos que, apesar da fraca claridade, os nossos passos marcados no escasso solo da gruta, nos indicavam o caminho de volta.

Para piorar a situação, os morcegos perturbavam nosso retorno, apagando as velas com rasantes sobre nossas cabeças. Alem disso, sabíamos que nas cavernas, as velas consomem-se rapidamente. Por isso uma vela era muito pouco para enfrentar aquele labirinto de rochas. Nova revoada dos morcegos e, para o nosso desespero, a vela se apagou. Ao acendê-la, ficamos com apenas três palitos de fósforo. Assaltava-nos então, o medo de que não conseguiríamos sair daquele lugar, pois a saída ainda estava longe e a vela apagava facilmente por causa do pouco oxigênio e dos morcegos.

A situação se tornava assustadora. Resolvemos acelerar o passo. O companheiro machucado se queixou. Novamente, os morcegos apagaram a vela. Restavam dois palitos. Por causa do ferido, andávamos devagar, torcendo para a vela não apagar. Uma vez ou outra, o silencio era interrompido pelos gemidos do ferido ou pelo guinchar dos morcegos, que toda vez que passavam por nós apagavam as velas.

Depois de acender a vela, mais uma vez, restou-nos o último palito de fósforo. Agora, mais do que nunca tínhamos que conservar a vela acesa ou morreríamos dentro da gruta sem poder sair. As pedras pareciam crescer a nossa frente como verdadeiras inimigas, prontas a ocultar o caminho para sempre, dificultando nossos passos, nos atrasando até consumição do ultimo palito de fósforo.

A vela, que lentamente diminuía de tamanho, mais uma vez se apagou. Ao acendê-la, com o ultimo palito, havia em cada semblante uma dose de pavor, pois não tínhamos noção da distância que nos separava da saída. O medo de que a vela se apagasse novamente era simplesmente insuportável. Se isso acontecesse, seria um mergulho na escuridão e aí, não haveria mais saída.. Sem luz, nos restaria a noite eterna da gruta. Com medo ninguém falava nada. Rezar era o único remédio para tanta aflição. Tirante os gemidos do companheiro ferido, o silêncio era quase total. De repente os morcegos desapareceram. A vela estava chegando ao fim. Um toco quase queimando a mão de quem a levava. O medo de não sair da caverna chegou ao limite máximo. De repente uma claridade, era a saída.

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