A Garganta da Serpente
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Ao sol

(Vana Comissoli)

Às mulheres que amam demais e ficam cegas,
surdas e falantes.

Eu te olhei e estavas tão feliz! Tão plácido! Quase não pude levar adiante meu objetivo. Engoli o desespero. Eras toda minha vida.

Eu te desejei tanto! Eras lindo deitado desse jeito. As pernas no seu ritmo certo, o repouso da cabeça acompanhando. Parei de precisar de Deus, eu tinha a ti.

Aos poucos ficaste tão entregue que eu enlouqueci de amor: abrias a boca e eu te alimentava. Alimentava-me do teu mastigar guloso e lento. O amor que sempre sonhei.

Havíamos nos encontrado no cais, numa tarde de sol e estavas espichado, de olhos fechados. Senti que estavas a me esperar. Sentei-me ao teu lado sem medo do desconhecido em ti.

Olhaste-me com teus olhos verdes e estranhos, eu não podia ler dentro deles. Estavas encouraçado, entendi. A vida faz isso com a gente, criamos couraças duras das quais não podemos escapar. Eu tinha as minhas, talvez não tão fortes, mas tinha. Eu te compreendia e, com certeza, tu me compreendias, ou viria a fazê-lo.

Quem sabe, aos poucos, meu amor te amolecesse e pudesses vir a não sentir a dura mão da dor em ti guardada. Ao sentir a maciez do amor permanente. Para todo o sempre, eu jurei.

Não disseste uma só palavra quando te convidei a ir à minha casa, apenas me acompanhaste arrastando teu peso. Diferente peso! A vontade de descobri-lo me fez apressar o passo. Tu te arrastavas. Olhei-te transferindo certeza.

Não saíste mais de meu aconchegante lado, do apartamento que tinha aquela varanda onde tanto gostavas de ficar quando vinha o sol.

Tudo era perfeito.

Só não entendia como podias comer tanto e manter o mesmo corpo. Será que eu tinha inveja disso? Não, jamais! Apenas reconhecia teu perfeito equilíbrio.

Teus banhos duravam horas e odiavas a água morna que eu tanto amava. Não tinha importância, eu sabia aceitar as diferenças.

Teu pudor era enorme e às vezes eu chegava a pensar que não me amavas tanto quanto eu a ti porque meu sexo latejava por ti todos os dias, todas as horas. Eu te abraçava para me acalmar e me deixavas deitar sobre ti e podia sentir teu corpo ainda encouraçado como uma benção. Tinha certeza que esse fechamento não permitiria que me traísses. Nem teria como porque estavas sempre ao meu lado. Amado meu!

Sorrias com teus mil dentes, um arreganhar na boca. Quanto sofrimento deves guardar para sorrir assim! Eu me apiedava. Que teria acontecido em tua vida? Tinhas aparência de já ter vivido dezenas e dezenas de anos. Arriscaria a dizer centenas. Tanta dor e sabedoria em ti, no teu silêncio.

Aos poucos foste relaxando, meu amor passional te acomodando, te trazendo para perto.

Te chegavas a mim e me cheiravas. Que delícia! Sentir teu bafejar no meu corpo inteiro. Eu suava. Tu não, mas não me importava, eu já sabia que tinhas um distúrbio de temperatura. Meu querido, meu diferente e único amor, aquele que todos desejam e não tem.

Aos poucos, nem sei bem quando começou, me abocanhavas. Doía, é verdade, às vezes o prazer machuca na sua enorme e plena força. Tua ânsia era tão grande! Dava-me prazer só de pensar em teu desejo por mim.

Acordei de manhã, a cama estava cheia de sangue. Te olhei rápido. Terias te ferido? Eu teria te machucado na estupidez de minha paixão?
Me faltava um dedo.

Todos os dias, um dedo a menos.

Uma semana depois eu estava maneta e depois foram os pés. Como eras guloso por mim. Eu ria. Que maravilha!

Comecei a temer quando me levaste um seio. Eu precisava deles para ti. Que se fossem os dedos, os pés! Mas os seios não. Eram para continuar a por na tua boca.

Já não bastava me comeres sem penetração me fazendo arder? Esperar que teus impedimentos internos fossem vencidos?

Fui ao médico, queria consertar, por silicone, prótese, qualquer coisa. O idiota se apavorou. Disse que era amor sádico. Uma paixão animal. O que entendia ele? Disse que queria que fosses ao consultório. Eu jamais voltaria lá.

Era o médico da família, falou com minha mãe. Fui obrigada a te convidar e fomos.

- Mas o que é isso? - Havia horror nos olhos do imbecil. - Um jacaré! Como tens um jacaré em casa?

Revoltei-me, te arrastei para fora daquela pocilga.

Por isso, pela inveja dos desamados, nessa noite te matarei no sono e em seguida me matarei porque prefiro te amar na morte do que te abandonar pela razão idiota dos sem alma.

A insônia rara nesta noite despertou. Ela não consegui esperar e adormeceu ainda recostada nos travesseiros.

No dia seguinte restos de carne e ossos restaram sobre a cama.

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