A Garganta da Serpente
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Lembranças

(Vilma Corrêa da Silva)

Do 18º andar do seu apartamento, em Paris, Val Mossian contempla extasiada a Torre Eiffel. É um belo espetáculo, pensa. Nunca se cansava olhar essa maravilha.

Enquanto observa a Torre, começa a pensar em sua vida e, de repente, uma nuvem de tristeza apaga o brilho dos seus lindos olhos castanhos. As lágrimas teimam em descer e ela não faz nenhum esforço para controlá-las. "Por que fui pensar nisso agora? Estava tão bem, tão feliz há alguns momentos atrás!"

Parecia que nada podia estragar aquele dia agradável. Mas as lembranças são assim mesmo, nos pegam a qualquer hora e em qualquer lugar. E as suas eram fortes demais. Subitamente lembrou-se que havia marcado um encontro com a sua melhor amiga para o almoço e tentou pensar em outra coisa. "Caramba!". Já são 12:30h e tenho que estar pronta em meia hora!"

Começou a vestir-se rapidamente para o encontro com Janice, sua amiga francesa. Gostava muito dela e toda vez que vinha a Paris almoçavam juntas e ficavam num agradável bate-papo até à tardinha. "Ah, Paris! Como é bom estar nesta cidade linda!" Quando chegou ao restaurante, Janice aguardava-a ansiosa:

- Poxa, como você demorou, Val! Mas valeu à pena esperar. Você está linda!

- Ah, que é isso Janice? Muito obrigada. Você também está muito bonita!

- Ô, Val, pode ir me contando logo as novidades porque estou super curiosa. O que a trouxe aqui nesta época do ano? Geralmente vem em dezembro...

- Ah, Janice! Vim para esquecer. Paris me ajuda a cicatrizar minhas feridas. Sem contar que tenho você como amiga...

- Nossa, Val... tá malzinha mesmo, hein? O que aconteceu amiga? Não me diga que se apaixonou de novo?

- É, amiga. Só que dessa vez foi p'ra valer. Me dói muito, sabe?

- Hummm... Acho que você nasceu para sofrer por amor, Val... que sina a sua!

Val olhou em volta, absorta em seus pensamentos... como doía pensar nele! Constatou distraída que nada mudara naquele restaurantezinho que ela adorava. Os garçons eram muito gentis e alegres, a comida uma delícia! Nem a disposição das mesas mudara. Sentia-se aconchegada naquele ambiente. Pelo menos isso continuava do jeito que ela gostava...

- Eh, Val! O que há com você? Perguntou Janice.

- Hã? Nada Jan, nada. Desculpe-me pela minha distração, amiga. E obrigada por estar aqui comigo. Pegou carinhosamente nas mãos de Janice e ficou fitando-a por um bom tempo que pareceu longo demais a Janice.

- Val, que tal almoçarmos e depois sairmos para dar uma volta?

- Claro, amiga. Já estou ficando com fome. Vou pedir escagort, e você?

- Também, amiga. Você sabe que adoro!

Almoçaram alegremente e depois foram para o Park Avenue. Val adorava aquele lugar. Aliás, adorava Paris inteira!

- Vai ficar quantos dias Val?

- Não sei, talvez uns três ou quatro... eu realmente não sei, Jan.

- Eu estarei ao teu lado sempre que precisar, amiga. Sabe que te adoro, não?

- Eu também te adoro Jan! Obrigada por você existir em minha vida. É minha grande amiga.

- Oh, Val, assim eu me emociono...

Jan começa a chorar.

- Não chore amiga, diz Val, enxugando-lhe carinhosamente as lágrimas com os dedos.

- Estou chorando de alegria , amiga. Ter você como amiga é uma dádiva de Deus.

Val sente-se um pouco cansada e diz a Jan que pretende voltar para casa, a fim de descansar.

- Nos vemos amanha? Pergunta Jan.

- Com certeza, diz Val beijando-lhe as faces.

- Então vá, amiga. E procure descansar.

Então Val volta para o seu apartamento, toma um longo banho com sais aromáticos e percebe que já está anoitecendo. Sente-se realmente cansada...

Recosta-se nos travesseiros e começa a olhar as estrelas que despontam no horizonte. Fica observando-as por um bom tempo, e sem querer, começa a chorar. De novo as recordações...

Que dor no coração lhe dava ficar recordando coisas que já estavam tão longínquas... e tão perturbadoras, no entanto! Era como se ela estivesse assistindo a um filme em preto e branco e a personagem central falando com ela.

Parou de chorar e prestou atenção no que se desenrolava à sua frente. Era preciso exorcizar os demônios! Ela tinha vindo a Paris com esse objetivo e não se desviaria dele. De jeito nenhum que ela seria fraca! A fraqueza deprime o espírito e ela sempre fora uma mulher de fibra.

Deixou-se tomar pelas lembranças, por mais que elas lhe doessem a alma. Vinha tudo num "flashback" alucinado, porém ordenado.

Viu-se aos quatro anos de idade. E foi nesse tempo que começou a conhecer o mundo podre dos adultos. Suas angústias começaram a partir daí.

"Nossa, como a Torre Eiffel está linda hoje", desviou subitamente o pensamento. Era um refúgio... e ela sempre conseguira se desvencilhar de suas angústias dessa maneira...

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