A Garganta da Serpente
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O buquê e esta farsa

(Viegas Fernandes da Costa)

Ofereço-te este buquê de filosofias baratas. Desculpe, mas é tudo que te posso oferecer: o buquê e esta farsa. Senhoras, senhores, não estranhem aquela moça que dança e se entrega, não estranhem se volúvel, não estranhem se caça. Mulheres também caçam, sim senhor, e dizem: te quero, vem! Não estranhem se arregalam os olhos estes machos mamados transpirando álcool. Afinal, é noite, é dezembro, é o fim. E esta moça que tanto se arruma, que tanto procura o banheiro, o espelho, a escova, o batom. O prazer substituído pela expectativa. Necessita que a desejem, que a desejem... todos, sem exceções. Esta farsa, esta farsa! Mas desculpe, porque tudo que te posso dar é somente este buquê, as filosofias caindo em esmaecidas pétalas pelo regaço do teu colo, cobrindo teu seio, escondendo-se entre tuas pernas. Antegozas e te vais, a decepção estampada nos tantos rostos que te roçaram a face, nos tantos lábios que te sorveram o hálito, nos tantos sexos que te tocaram o ventre. Não há mais lugar para estes olhos plenos, talvez nunca o houve. Senhoras, senhores, desculpem, mas os olhos perderam seu lugar, restam estas órbitas vazias e este buquê; estas luzes, este néon, e esta moça potra de coxas bastas e ancas voluptuosas. Ah sim, e esta carne dos lábios tão vermelhos, esta correntinha nos tornozelos. Diana pós-moderna, pós-mulher, porque agora fêmea! Ah mulher, e te escorre a seiva às pernas, o suor ao ventre moreno; teus pés agitados, teus dedos uniformemente comprimidos nas sandálias, o anel neste anelar de pé esquerdo refletindo o brilho do cristal sobre as mesas, o desejo destes homens suados transpirando luxúria contida, a língua que umedece os lábios, que seca a cerveja que se prende aos beiços! E, ridiculamente, ofereço-te este buquê de filosofias baratas, estéreis e assexuadas filosofias baratas. O moço que chega transido de timidez, o colarinho abotoado, um pedido de casamento à moça de volúpia fornida que lhe estimula a bizarrice da figura! Vem de anel, de goma na camisa, os cabelos penteados a gel, um pedido nos lábios e um sexo frágil a lhe balançar anestesiado entre as pernas pálidas de pêlos ralos. E lhe diz sim, e lhe beija a testa tão maternalmente, tão singelamente, que a todos põe a crer amar puro o homem que lhe despeja futuro e casamento. Senhoras, senhores, peço desculpas, devo-as, sei disso. Como sei, repito, que não há mais lugar para estes olhos, e por isto olham sem se fazerem notar, e veem o que há para ser visto, tão óbvio e tão claro que a ninguém se é dado ver senão às crianças e aos devassos! Ah, a moça de costas tão longas, de ombros tão largos e bronzeados! Uma leve e pornográfica penugem escura que lhe desce ao cós e que se perde sob a cintura da saia... Como se mira, como se escapa e convida, e lúbrica farfalha-se fêmea aos corpos machos que lhe tomam para dançar. Ah, é noite, é dezembro, é o fim! E já uma réstia de noite e uma promessa de sol quando busca o segredo do seu quarto, a cama de solteira, a colcha cor-de-rosa, seus bichos de pelúcia, as revistas e as almofadas sobre o carpete. É isto, este quarto de menina, esta farsa e este buquê de filosofias baratas. É isto, a caixinha de música e o calendário na parede esquerda. É isto, desculpem, mas não há mais lugar para estes olhos plenos; por hora respiram, apenas, os reflexos dos espelhos.

(Blumenau, 20 de dezembro de 2004)

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