A Garganta da Serpente
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A estátua de barro

(Viegas Fernandes da Costa)

No princípio era apenas uma massa disforme de barro descansada sobre um pedestal. E recaiu sobre si o olhar e um par de mãos. Moldaram-na, deram-lhe a forma perfeita de um ser humano. E isto muito orgulho trouxe ao artista, que a venerava sem se cansar. Não havia dia em que deixasse de ter com ela, e por mais perfeita que parecesse, havia sempre algo que lhe pudesse ser acrescentado. Um detalhe além na orelha, um músculo a mais na perna, e assim foi-se melhorando aquela massa de barro originalmente disforme. E de tal forma foi melhorada, que a quem se apresentasse, apenas a muito custo poderia reconhecer ali uma massa de barro moldada pelo olhar e pelas mãos. Com o tempo foi-se acreditando mesmo ser aquela a mais perfeita de todas as estátuas de barro. Não havia defeitos perceptíveis, e não se reconheciam mais as marcas das mãos e do olhar que a tornaram tão perfeita. Parecia até que havia se feito a si própria, mãe de si mesma; engano, era apenas mais uma estátua moldada de barro disforme, comum a qualquer outra estátua de barro, destoante apenas na aparência, e se a alguém ocorresse a ideia de descascá-la com as unhas, perceberia a verdade, o engodo. Havia, é necessário que se diga, aqueles que discordavam de toda aquela perfeição, que alertavam para o fato da estátua ser de barro comum e que toda aquela excelência residia no olhar, mas estes eram minoria e não eram levados a sério. E a fama da estátua alçou-se a tal ponto, que mesmo aqueles que só a conheciam através dos olhos de terceiros, criam realmente não haver outra estátua tão perfeita quanto aquela.

Certo dia, porém, o vento enveredou pelo salão. Enorme salão construído exclusivamente para a estátua. Enveredou de tal forma, com tal intensidade, que a estátua ensaiou um tímido movimento. Consta que alguns dos presentes testemunharam o movimento sem se darem conta do vento que havia soprado, e espalhou-se então o boato de que além de perfeita, a estátua agora estava tentando, de vontade própria, descer do pedestal. Tal evento foi interpretado como um ato de profunda humildade da estátua, que apesar de toda a sua perfeição, não se considerava digna de um pedestal, muito menos de veneração. Isto só contribuiu para que fosse ainda mais venerada e considerada ainda mais perfeita. Mas o vento, como tão bem se sabe, não se cansa, e em uma nova tentativa, enveredou-se ainda com mais força pelo salão. Neste dia a estátua estava sozinha porque as pessoas refugiaram-se em suas casas. A força do vento e a escuridão impediam-nas de sair à rua. E a estátua caiu do seu pedestal.

Passada a tempestade, retornaram todos ao salão e encontraram somente um pedestal vazio. A estátua fora empurrada pelo vento e morrera no chão. Sobraram apenas inúmeros pedaços, impossíveis de serem juntados; mesmo que o fossem, a estátua jamais teria a mesma perfeição. E ao ver a multidão o que sobrara da estátua, descobriu-se que ela era, realmente e tão somente, uma massa de barro disforme moldada pelo olhar e um par de mãos. Houve aqueles que choraram, houve aqueles que se revoltaram e houve aqueles (minoria) que sorriram de satisfação.

O tempo passou, e hoje ninguém mais se lembra daquela estátua de barro. Satisfazemo-nos com novas estátuas.

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