A Garganta da Serpente
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Abyssus Abyssum Invocat

(Viviani Ketely)

Táxi!

Nunca o caminho de casa pareceu lhe tão longo.

"Será que o senhor poderia ir mais depressa?".

Ela não queria chegar atrasada, a babá era resmungona, reclamava, ameaçava não dar mais as caras, em todo caso, ela confiava na garota.

Aquela noite estava: um tanto estranha algo lhe sufocava o peito, algo obscuro, inexplicável, 'lembrando' um destino premeditado.

Assim que o táxi parou diante do elegante prédio, ela sacou o dinheiro: da bolsa, entregou ao pobre homem, e saiu rapidamente do carro, não fazendo a mínima questão do polpudo troco.

Chamou pelo elevador, este insistia em demorar, ela proferiu:

"Este desgraçado está preso em algum andar".

Decidiu subir as escadas, as malditas estavam à meia luz, quase a penumbra.

"Economia inútil".

Ouvi passos que vinham na direção contrária, cruzou com um homem que descia calmamente, com um estranho ar de quem acabara de deliciar-se de uma alma. Ela sentiu algo estranho como nunca sentira antes, em sua boca, um gosto amargo, férreo.

"Boa noite - ele disse".

Ela respondeu com a cabeça, lembrou-se dele: morador do sexto andar - um aspirante a fama nas artes plásticas - bonito estava na casa dos quarenta anos, ainda não se podia dizer que era rico, mas estava a caminho - sua suposta namorada morava no sétimo.

Assim que colocou a chave na fechadura, percebeu que a porta estava destrancada.

As luzes estavam apagadas. Ela levou a mão ao peito, prosseguiu em passos lentos, de repente percebeu que algo obstruía seu caminho, ela mal conseguiu engolir a saliva, suas mãos tatearam a parede em busca do interruptor.

Agora havia luz nas trevas, iluminando o corpo inerte da babá.

Saria levou as mãos à boca, sufocando um grito de horror.

Saiu desesperadamente, buscando pelo menino, foi até seu quarto.Tudo estava tão perfeito, que ela suspirou aliviada, ninguém seria tão cruel, pensou.

Saria estava errada.

A policia não demorou mais que dez minutos para supostamente 'definir' quem era o cruel assassino. Descobriu-se que exatos três dias antes, dos assassinatos, o porteiro abandonará o emprego sem motivo aparente. Descobriu-se também que o endereço, que o mesmo dera não conferia o que aumentou ainda mais a certeza da polícia. Seis dias depois, após uma denúncia, o dito cujo, foi encontrado: enforcado em um cubículo asqueroso chamado de lar. Sobre a mesa: copos, garrafas vazias e um cinzeiro cheio de pontas de cigarro, de duas marcas diferentes.

O caso deu-se por encerrado.

Dois anos depois a vida de Saria estava muito diferente, andava feito um zumbi pelo apartamento, dormia no assoalho do quarto do menino, não chorava mais, suas lágrimas deram lugar ao seu ódio. Não houve um dia sequer em que ela não se perguntasse por quê? Não houve um dia sequer que ela não questionou a verdade sobre os fatos. Ela duvidava da culta do porteiro - por si mesma o julgava inocente.

Em uma manhã de setembro Saria folheava uma revisa de artes e deparou-se com uma bela gravura - um anjo rodeado de notas musicais, na via publica.

Ficou embevecida com a aparência do pequeno anjo, lembrava seu filho. Era seu filho!

"Ele matou meu filho - aquele desgraçado matou meu filho!".

Saria sem mencionar a gravura procurou a polícia e contou suas suspeitas. Ninguém lhe deu crédito, "Suspeitas infundadas" era o que ela mais ouvia, disse a polícia que cruzou com o fulano nas escadas no dia do crime. Mas este tinha um álibi a namorada, que tinha uma vida boa demais para dizer o contrário, acabou contando da gravura, foi motivo de chacota.

O próprio advogado de Saria, a advertiu que ela não tinha nenhuma prova e agia sobre forte emoção, não daria em nada. Além do mais 'agora' o dito cujo, era um homem muito rico e respeitado. Só faltou dizer que Saria estava ficando louca.

A justiça exigiu que ela mantivesse distância do ricaço.

Foi depois que todas as esperanças de Saria fracassaram que ela recorreu a "ele" - só "ele" a atendeu - só "ele" a ouviu - atendeu seus pedidos. A um preço baixo demais julgou Saria.

"Fiat Voluntas Tua".

Durante uma homenagem, o artista que Saria acusava, trancou-se no banheiro e deu um tiro na boca - em seu bolso encontraram uma carta de próprio punho confessando o assassinato do menino e da babá.

A velha gorda abria as cortinas empoeiradas do apartamento, para que a luz pudesse entrar.

"Esta sala está com o bocal da luz quebrado... Sa...".

"Saria".

"Nome diferente, vou mandar arrumar... a luz".

"Não, não se incomode, deixe assim... me mudo amanhã".

"A senhora quem manda".

Como de costume as luzes estavam apagadas, apenas as luzes da cidade frenética adentravam através da grande vidraça do 17º andar. Sentada em sua confortável poltrona, Saria fumava um cigarro após o outro, enquanto ingeria vários comprimidos regados a muita vodca.

Pouco tempo depois, seu convidado, esperado... Há muito, mas não bem vindo, adentrou a sala vindo do inferno.

Um homem belo, magro, sorridente com grandes olhos verdes. Ele se manteve na penumbra, e ela arriscou dizer:

"Sua outra 'roupa' lhe cai melhor".

Ele se aproximou tomou-lhe a mão e a beijou, afagou seus cabelos, aconchegou a em seu peito, o corpo de Saria respondia ao seu chamado, sua razão a abandonará. Subitamente a vidraça se abre, um vento gelado varre o local - acabando com aquele calor mundano, e o desapego de Saria.

Ela se desvencilha dele, e leva a mão no peito.

"O que fiz com minha vida?". Suas lágrimas cobriam-lhe a face - mas não o comoviam.

"Seu larapio de almas - não coloque mais suas mãos malsãs em mim!".

Ele a envolveu com o manto negro das trevas - a deixou pronta a sucumbir seu cruel destino.

Ela balbuciava lamentações enquanto ele vociferava perversões.

"Ser ferino, descrente de amor, corrupto, filho da iniquidade, afaste-se de mim".

Ele olhou bem no fundo de seus olhos, e disse:

"Beneficium accipere libertatem est vendere".

"Você é a ruína do mundo". Ela respondeu.

"O homem me da às forças de que preciso: inveja, luxuria, arrogância, ambição, mentiras e toda sorte de maldades - só quero o que e meu! Nunca pego mais do que preciso, ou do que me é oferecido".

"Es um ré-probo".

"Se engana - minha amiga - nunca fui tão aceito".

"Ser imundo, atormentado, criatura das trevas, tuas forças não me causaram dano - Deus esta comigo - não me levarás para a ruína - volte para junto das tuas víboras - você não vai se alimentar do meu pavor".

Ele delicadamente lhe ofereceu pedaços de um copo, anteriormente quebrado, ela respirava freneticamente, enquanto corta o próprio corpo, vomitando sangue e arrependimento.

"Deus pai tenha piedade de minha alma - perdoe-me - livra-me das garras do mal...".

O Diabo olhou bem no fundo dos olhos de Saria, cheios de terror.

"Quer para você o que não deu ao outro, PIEDADE".

Ela olhou sem entender coisa alguma.

"Mandou um homem para o inferno, não se arrepende?" "Deu a ele um julgamento justo?".

"Julgamento? Ele matou dois inocentes!".

"E você por si mesma, julgou a um inocente".

Ela levou as mãos ao rosto, tudo era muito confuso.

"Tem certeza de que aquele homem matou seu filho?".

"Claro que tenho".

"Como pode ter tanta certeza?".

"Eu senti, eu sei que foi ele".

"Então um homem estoura seus miolos, simplesmente porque a 'princesa' sentiu, porque sua dor a cegou. Então: ela julgou o primeiro infeliz que cruzou seu caminho".

"Não!... foi ele... o vi na escada, 'seu olhar'... e depois a pintura".

"Ele a pintou muito antes do seu filho nascer".

Foi o que ele disse, e ela por que não deveria acreditar?

"Meu Deus".

"Não perca seu tempo chamando por ele - foi você que julgou e executou um homem, um inocente, não ele".

"Não!".

"Não foi o pobre artista que matou seu filho - e mesmo assim você o matou".

"Eu não matei ninguém - eu não matei ninguém - eu não toquei em ninguém".

"A vingança toca mesmo quando não se está presente - eu o 'fiz' porque assim você o quis". "Ele confessou como você queria, não confessou?".

"Então quem? Quem? Preciso saber antes de 'morrer', por favor. - Falou aos prantos".

Ele soltou uma gargalhada, se divertindo com a dor e o remorso de Saria.

"Aquele a quem, você absolveu".

Saria caiu de joelhos, sozinha.

Nada mais lhe restava a não ser sucumbir ao destino que ela escolheu.

"Quando tudo lhe falha, quando teus desejos não são atendidos, quando aquele a quem você estima lhe virá às costas, recorreres a mim, eu sou tua saída eu sou teu Deus".

Estava muito frio naquela noite, mais do que deveria estar em uma noite de verão.Saria perambulava pela sala vazia de um lado para o outro, em busca de vida perdida, estava possuída pelo ódio.

"Aqueles desgraçados não entendem, ele matou meu filho eu sei que foi ele, mais que inferno, eu sei... eu sei... Por que...? Por que...? Por que meu Deus, o que foi que eu lhe fiz, porque não me levou no lugar do meu menino...".

"O que foi que eu lhe fiz? Responda-me! Me diz alguma coisa, fica parado assistindo a morte de inocentes e não faz nada... ah! Deus me ajude, por favor...".

Saria ajoelhou no chão e viu um objeto brilhando embaixo do sofá, pegou seu pequeno broche de prata em forma de estrela que seu filho usava para fingir que era xerife. Ela sorriu ao lembrar que prometeu tantas vezes comprar, uma estrela de xerife para o menino, mas sempre se esquecia, porém não se incomodava de dividir com ele sua joia. Segurou a joia bem próxima ao peito.

Lentamente se levantou, foi até a janela e a abriu, o vento frio varreu toda a sala, levou os olhos aos céus e disse:

"Que o Diabo! Que o Diabo então o faça. Que o Diabo seja uma: sombra, em sua podre vida, que estoure os miolos daquele desgraçado, que ele confesse que os matou que matou meu anjo. Se não por Deus que a justiça seja feita pelo Demônio...".

Saria ouviu um barulho estranho que vinha da cozinha, como algo se quebrando, seu corpo gelou, ela lentamente fechou a janela, e foi ver o que havia caído na cozinha, acendeu a luz e aparentemente tudo estava normal, deu um passo e cortou o pé com cacos de um copo.

"Droga! De onde está porcaria caiu?".

Abaixou-se recolheu os cacos e jogo-os no lixo, marcando o chão da cozinha com seu sangue. Foi até o banheiro abriu a torneira da banheira e enfiou o pé lá dentro deixando a água quente levar seu sangue embora. Fez um curativo, precisava voltar à cozinha para limpar o sangue antes que este secasse, quando passava pela sala, um sopro de ar quente varreu todo seu corpo, ela olhou e viu que a janela estava aberta, balançou a cabeça fazendo sinal de negativo.

"Eu fechei! Ou não fechei?".

Quando entrou na cozinha viu ao lado das manchas de sangue que deixará, claramente pegadas de uma criança. Saria levou as mãos no rosto e fechou os olhos quando abriu não havia mais nada.

"Estou ficando louca!".

Apanhou um pano sobre a pia, molhou e colocou detergente abaixou-se e começou a limpar as marcas de sangue, quanto mais limpava, mais a manchas pareciam se fixar, o sangue brotava das mesmas, em poucos segundos, o vestido branco de Saria estava todo sujo de sangue.

Ela levantou-se rapidamente, tentava gritar, mas algo sufocava sua garganta correu até a porta, tentava abri-la, mas não consegui suas mãos tremulas não encaixavam a chave na fechadura.
Ela sentiu! Ela sentiu seu bafo quente em suas costa, virou-se e ele estava lá.
De ore tuo te judico

As lágrimas de Saria, não lhe pertenciam mais, o corpo de Saria não lhe pertencia mais, tampouco sua dignidade.

"Tudo o que eu queria: era que meu filho estivesse vivo... que aquele dia jamais tivesse existido. Como pude pedir a morte de um inocente... como? Como pude julgá-lo. Ah! O que foi que eu fiz?...".

Saria se levantou olhou para a janela, tudo parecia estar calmo lá fora, respirou fundo, abriu os braços e disse.

"Quer minha vida... - ele sorria esperando o predestinado final de Saria - então toma, toma desgraçado toma".

Ela saltou, pela janela, seu corpo pesado pela culpa caia velozmente, Saria ainda viu o rosto de seu anjo sorrindo, chamando "mamãe" - ela estendeu a mão tocando levemente o rosto de seu menino, este sorriu. Ela sentiu seu corpo encontrar o chão, e antes de fechar os olhos eternamente disse. "Perdoe-me Deus. Perdoe-me".

Victús honos.

Da janela ele observou a tudo se deliciando com seu fim, calmamente como a um mortal, sentou-se no sofá e acendeu um cigarro, oferecendo ao mais novo amigo.

Aquele que para satisfazer o demônio tirou a vida de inocentes e deu a sua própria.

O filho da iniquidade causou-lhe danos perpétuos a alma.

"Obrigada, mesmo agora... continuo não fumando".

Os dois sorriram mutuamente, selando toda cumplicidade.

Mestre e discípulo juntos, até o fim.

Cadunt altis de montibus umbrae.

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