A Garganta da Serpente

Valéria Nogueira Eik

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Pressentimento

(Valéria Nogueira Eik)

A primavera estava um pouco atrasada naquele ano.

As flores permaneciam em seus minúsculos botões, temendo enfrentar o frio que se arrastava através do mês de outubro.

Somente as mais audaciosas passeavam pelos caules tenros, colorindo de vida a natureza, e mesclando-se aos vagarosos ipês, que não tinham pressa em ir embora.

Helena estava apreciando os primeiros jasmins que se recostavam preguiçosos no batente da janela.

Pela manhã, eles exalavam um perfume branco e suave.

Mas, quando as primeiras estrelas apareciam no céu, os jasmins deixavam no ar um cheiro espesso de melancolia, trazendo de volta todas as lembranças que precisavam ser esquecidas.

- Lucas! Entre no carro!

- Mãe, eu não quero ir!

- Que estória é esta, meu filho? Você sempre adorou ir para a casa da sua avó.

- Eu não quero ir!

- Querido, seu pai e Aninha estão esperando no carro. Vamos logo, menino!

Lucas, em seus dez anos, era um garoto alto e magro, e nunca foi dado a rebeldias sem causas.

Os olhos molhados de angústia contrastavam com o seu temperamento sereno e alegre, e quando se acomodou ao lado da irmã, fechou-se num mutismo absoluto, causando espanto no pai.

- Ei, Lucas! Não me diga que está apaixonado! Isto está me parecendo paixão e muito braba! Quem é ela? Conte para o seu pai. Quem é ela? É da escola? Não fique triste, meu filho! Dentro de uma semana estaremos de volta. E você pode telefonar para ela, lá da casa da sua avó. O que acha?

O garoto não respondeu.

Os pais entreolharam-se com preocupação.

Aninha, a caçula, com apenas cinco anos, encostou-se no irmão, pedindo colo, mas, ele não lhe deu atenção.

- Lucas! Quero deitar no seu colo.

Ele, sempre tão doce, neste momento permaneceu em silêncio.

E Aninha, sentindo a rigidez do corpo do irmão, apenas encostou a cabeça em seu ombro e dormiu.

O dia parecia atormentado, demonstrando todo o seu humor azedo através da semiescuridão.

Depois de um longo período de seca, as chuvas estavam sendo esperadas com grande ansiedade e até com um certo alvoroço.

E as nuvens, cada vez mais densas, ameaçavam desmoronar sobre a vida a qualquer instante.

- Parece que vai cair o maior "pé d´água", Helena.

- Tomara que o aguaceiro espere mais um tempo, já que não teve pressa nenhuma em "dar as caras" nesses meses todos.

- É verdade, respondeu Bruno, rindo do humor alegre e levemente irônico da esposa.

Mas, logo os trovões rugiram com ferocidade.

Os relâmpagos riscavam o céu numa fúria alucinada.

E a chuva desabou, num vômito farto e incontrolável.

Nada mais era visível.

Com as mãos grudadas no volante, o chefe da família tentava enxergar algum indício de estrada.

Helena olhou para os filhos e sorriu, na tentativa de passar tranquilidade.

Aninha dormia, mas, Lucas estava com os olhos fixos em algum ponto muito além da realidade e não pôde sentir o carinho da mãe.

- Lucas! Logo estaremos na casa da vovó. E, pelo que estou sabendo, ela preparou aquele bolo de chocolate que você adora.

Nem respostas ou grunhidos escaparam daquela boca costurada pela ansiedade.

- Meu Deus! Preciso parar este carro, Helena! Fique de olho em algum lugar seguro.

Não sentiram o imenso caminhão esmagando e arremessando o carro abismo abaixo.

Os jasmins, triturados pelas mãos inconscientes de Helena, desprenderam um odor desesperado.

Ela queria ouvir novamente as risadas alegres, as pequenas brigas, o ressonar nas noites tranquilas.

Queria a vida de volta.

E em seu desespero, sentia que a própria morte seria a sua fonte de vida.

Não mais acreditava num deus generoso.

Agora, para ela, o tal Deus era um ser prepotente e sádico.

Era somente um cientista monstruoso e cruel que dava vida às suas criaturas, para depois destruí-las.

- Por que? Por que?

Os vizinhos, muito aflitos, vez por outra escutavam os urros de Helena.

Os amigos temiam que ela não resistisse.

E os familiares cercavam-na de carinhos, mas, nada amenizava a dor da mulher.

E numa noite ainda fria, borrifada pelo cheiro intenso dos jasmins, Helena chamou a morte.

Abriu as torneiras e deixou que a água quente acariciasse a grande banheira, enchendo-a de calor.

Calmamente, pegou um estilete afiado, despiu-se e mergulhou corpo e alma na água tépida.

Fechou os olhos e pensou nos filhos, no marido e no reencontro.

Sorriu.

Estava feliz.

- Mamãe!

Helena abriu os olhos.

Teria a morte se antecipado ao suicídio?

- Lucas! Lucas!

- Estou aqui, mamãe!

O olhar do menino estampava uma tristeza imensa.

- Meu filho! Quero estar com vocês! Lucas!

- Mamãe! Vim para lhe dizer que estamos bem. Vim para implorar que continue a sua jornada.

- Não posso, meu filho. Não sei viver sem vocês.

- Mamãe! Mesmo não entendendo o porquê de tanta dor, você precisa viver! Através do suicídio estaremos separados por um tempo quase infinito. Acredite!

- Lucas! Você sabia que ia morrer?

- Não tinha consciência exata, mamãe, mas, na véspera da minha morte, tive um sonho no qual o céu desabava sobre nós, e eu estava somente com papai e Aninha. Depois eu soube que era o nosso tempo de voltar para casa.

- E por que eu fiquei, meu filho? Por que?

- Por que você ainda tem algumas coisas importantes para fazer, querida. Aproveite e faça, para que possamos estar juntos e felizes novamente. Papai e Aninha mandaram beijos e estão aflitos com o seu sofrimento.

Helena chorou, mas, agora, sem desespero.

Seus filhos estavam vivos, em algum lugar distante e inacessível para ela, mas, estavam vivos.

Seu marido ainda pensava nela. Estava vivo!

Tinha sido possível receber estes presentes: a visita adorada e a prova de que a vida continua após a morte do corpo físico.

- Mamãe! Você vai continuar a sua jornada?

Helena estava emocionada demais.

Olhava para o filho como se a presença dele fosse apenas um sonho.

Queria tocá-lo.

Queria abraça-lo, mas, não ousava.

- Vou encontrar as respostas, Lucas?

- Vai, mamãe. Os nossos amigos espirituais estarão sempre ao seu lado e vão ajuda-la. Tenha fé. Sinta-se alegre.

- Vou ver você novamente?

- Preste atenção aos seus sonhos, querida. Será o nosso meio de comunicação.

- Obrigada, meu filho. Diga ao seu pai e à sua irmã que estou enlouquecendo de saudades, mas, vou continuar o meu caminho, sempre na esperança de poder estar com vocês o mais breve possível. Eu amo você, Lucas.

Ele olhou para a mãe de forma intensa e neste olhar estava toda a doçura e todo o amor que sentia por ela.

- Eu amo você, mamãe. Até breve.

Helena ainda tentou segurar a imagem, mas, Lucas se fora.

Estaria ela enlouquecendo?

Não! Tudo havia sido real demais.

Ora em diante, precisaria compreender os mistérios da existência e da vida após a morte, pois os seus amados viviam em algum lugar inatingível e desconhecido para ela.

Iria aprender.

Sim!

Olharia a vida terrena apenas como um momento fugaz no relógio da eternidade.

Somente desta maneira, conseguiria o seu atalho rumo ao reencontro.

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