A Garganta da Serpente
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Ilusão para dois caolhos

(Victor Tales)

Cesário perdeu a visão. Na guerra conta. Dos trinta. Trinta anos ou séculos. - As guerras têm por valor trespassar; as pregas frágeis do tempo. Anjo. Espetou os olhos. - Dádiva maldita, preferia ver putas gordas o resto da vida. Campos de Jordão. Casa miúda. Poltronas vazias. Pratos mais ainda. Não havia quadros. Paredes escuras, escuras; de tão sujas. Sonhando. Cama suada. A mais humana das camas. Fedia como o próprio. Sonhos. Coloridos. Podia ver tudo, luzes, reflexos, homens, mulheres, doce, amargo. O gosto. É mais saboroso comer quando se pode ver. Acordar. Pânico, berro, berro; toda noite. Vê tudo em sonho. - Diabos de acordar cego; trevas.

- Papai acorde vim visitar. Julieta. Tinha tantos poucos anos. Alguns cuidou do pai. Foi embora. Não podia guentar o berro, berro; toda noite. - O senhor é novo inda deveria se casar; alguém para cuidar. - Tem berro, berro toda noite filha. -Mulher linda amorosa não se incomoda. Estrelas gritam alto. Noite. - Vou; mas volto manhã. Sozinho. Come o bolo de fubá. Melhor bolo do mundo. O bolo que nunca se come. - Quede a migalha do bolo sobre a mesa; bonito seria ver. Caminha. Toda noite; pela mesma rua. Como uma regra. Um bale urbano do cego de guerra. Os mesmos passos. As mesmas voltas de perna. Não quer dormir. Anjo sempre volta. Como o raio d'manha volta. Para espetar seus olhos. Berro, berro; amanhece.

- Papai; Madalena. Magra de dar fome em gordos. De dar pena aos próprios ossos. Saltando dos lados. Amorosa. Escuta pouco. - Tem berro, berro; toda noite. - Não tenho medo. - Sou velho, cego; perdido. - Vejo e memória boa. - Bolo de fubá; sabe? - Sim. - Mês que vem; casamos.

- Aceita Madalena. - Ela é bonita padre? - Sim. - Sim. - Aceita Cesário. - Sempre.

- Cesário. Café da manhã. Bolo de fubá. Come, come. - Ouviu a noite? - Não; dormi pedra. - Nem berro, berro; toda noite? - O bolo está bom? - Melhor do mundo!

- Madalena acorde. Cesário. - Vai conhecer hoje. - Mãe; posso visitar? - Quando casar sim. - Ele é cego verdade? - De guerra. - É velho sim? - Mais que papai. - Mãe que é amor? - Tem no dicionário; vamos, vamos.

Acordou. Sonho; conheceu cerejeira. Gritavam quietas no quintal. Não sabia para donde girar. De tanto brilho. Abriu olhos. Berro, berro; toda noite. - Sonho de merda castiga, castiga. Berro, berro; toda noite. Ecoa, ecoando. - Madalena acredita anjos? - Da bíblia. - Eu não. Café. Come, come. - O bolo está bom? - Melhor do mundo!

- Madalena faz sol? - Sim Cesário. Iam mãos dadas. Sob chuva fina. Não mais um bale solitário. Os mesmos passos. As mesmas voltas de perna. - Madalena embora soo muito nesse sol; roupas encharcadas. A casa limpa. Duas poltronas. Quadros floridos. Amarelo, branco e verde. Tudo ao seu lugar. Para saber dormir. - Madalena bonita. - Não sou. - O padre não mente menina. - A mais bela. - Bom seria ver. - Imagine. - Gual cerejeira, cheirosa, frondosa, alta, doce de olhos brilhosos. - Como anjo. - Não. - Queria ser anjo. - Seja anjo ingrata; espeta sonho. - Desculpe.

Badacama. Na caixa velha. Guardada. Fria, fria. Pesava duas vezes mais, mais. Café. Come, come. - O bolo está bom? - Melhor do mundo! - Cesário faz não. Corre, corre. Esconde, esconde. Badacama. Badadosofa. Badadonada. Cesário. Procura, procura. Tropeça tudo. Na limpeza. Nos quadros dormindo. Nas poltronas cheias de sono. Nos pratos cheios de bolo de fubá. - Madalena. - Cesário? - Faz sol? - Sim. - Mentirosa.

Estrelas gritam alto. Noite. Nunca mais. Berro, berro; toda noite. Cabo Madalena Anjo. Maria Madalena. Maria de nada. Madalena de coisa nenhuma. - Merda de Madalena! Sonha para sempre. No meio de cerejeiras. Milhares de belas e quietas Madalenas. Enraizadas sempre no quintal. De Campos de Jordão.

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