A Garganta da Serpente
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A curiosidade matou o Osvaldo

(Victor Tales)

É pequenino. Nasceu mais embrulho que menino. - Corre, correria, ele respira com dificuldades. Aqueles tubinhos na boca. A mãe quando viu. Quase louca. Achava que doía. - Não se preocupe, só por um tempo. - É feio, parece um ratinho. - O berçário é bem arrumado; tem bichinho de pelúcia e estrelinha no teto. - Coitado, prematuro. Sete meses e meio, apressado, apressadinho. - Culpa da mãe; fumou muito na gravidez. - Culpa do pai; bronquite, magro demais; não se vê saúde na família desse homem. - Enfermeira onde fica o bebedouro? No corredor à direita. Um homem esperava o filho. Veio o médico no lugar. - Sinto muito. - Era tão jovem coitado, nem dezoito. "DIM, DIM". - Dr. Arthur Telúrio, se apresente à recepção. - A mãe Dr. Arthur, o filho tossindo muito, quer falar com senhor.

- Osvaldo, como o avô. - Cara do pai. - Parece um ratinho. O enxoval todo azulzinho. O berço bege com almofadinhas azuis. É azul demais. Se morrer acha que é céu. - Mãe, eu não gosto do bebezinho, ele é feio, parece um ratinho. Chora muito. Madrugada toda. Mama muito. Morde o biquinho do peito. Sai um pouquinho de sangue.

- Liga pro Dr. Arthur, esse menino não para de tossir. Cresceu. - Não chore, você já tem dez aninhos; mocinho já. - Osvaldo come devagar; vai engasgar. Magro, magro; parece o pai. Tem um pé maior que o outro. - Ele vai ter que usar botinha ortopédica. - Ai doutor, vai doer?

- Mãe olha o Osvaldo. Mexe em tudo. Curioso. Curiosidade matou o gato. - Eu não sou gato, sou Osvaldo. - Come igual um cavalo e não engorda; será que é doença? Osvaldo, Osvaldinho, Dinho, Valdinho.

Oitava série. Todo mundo caçoa. Orelha grande. Pé torto. - Ai, parece bicho; um ratinho. - Osvaldo suas notas andam caindo, fala para o seu pai, você está usando droga? Odeia escola. Não tem muitos amigos. Só o baixinho do Plínio. Amigão. Topa todas, quase irmão.

- Não Osvaldo, vai devagar, meu pai pode chegar. O pinto. Grande, grande. Maior que o do Plínio. Letícia. Nem feia nem bonita. Primeira namorada. - Tem uma comissão de frente; delicia. - Já pegou neles? Biquinhos rosados. Da mãe é meio marrom. Maiores também.

Muito rápido. Nem parece que aconteceu. Dói, dói muito. Sai um pouquinho de sangue. Culpa do pinto; muito grande. - Eu te amo. - Amor não, que é forte demais, mas eu te adoro. A camisinha. - Meu Deus! Ela estourou? Deixa ver. Segunda vez foi melhor. Teve até orgasmo. O corpo treme todinho, o olho vira, molha tudo lá embaixo. Geme baixinho, os biquinhos ficam duros, durinhos. Tesão. - Osvaldo. - Diz. - Eu te amo.

Noite. Tossindo muito. Bronquite atacando. Taquicardia. Corre, correria. Ele respira com dificuldades. "DIM, DIM". - Dr. Arthur Telúrio, se apresente à recepção.

- Insuficiência respiratória; infelizmente. Sinto muito. - Calma mãe; abraça. - O senhor quer um pouco d'água? - Meu filho, meu filho. A recepção é bonita. Sofá confortável. São marrons. Dois quadros. E um espelho. - O cafezinho saiu agora? Agora, agorinha. - Coitada dessa família; o filho. - É.

A enfermeira. - Era tão jovem coitado, nem dezoito. - Feio, parecia um ratinho.

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